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Um diário trasladado

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14
Set16

Você tem inveja de Lobo Antunes?


Eremita

Quando era um jovem adolescente, lembro-me da irritação do meu pai ao ler numa entrevista a Lobo Antunes que o escritor, segundo lhe teriam dito, era "a melhor cama de Lisboa". Aquilo ficou-me para sempre na cabeça. Refiro-me à reacção do meu pai, que durante todos estes anos deu boleia à citação, demasiado imprecisa para ser memorável - à época, Lobo Antunes exercia sexo no Estoril, ou seja, seria a melhor cama da Grande Lisboa. Enfim, a capacidade que Lobo Antunes conquistou de irritar toda a gente sem lhes conceder qualquer hipótese de resposta é admirável. Não há muita gente assim em regimes democráticos e meritocráticos, todos têm de prestar contas. O mérito é dele, mas reconheça-se que uma parte não se deve ao seu talento como escritor e sim à inteligência com que construiu a sua imagem pública. Muito antes de Mourinho, antes até de Pinto da Costa, já Lobo Antunes era um especialista dos "mind games", pelas boutades cirúrgicas com que agitava o meio literário. Fazia-o de modo implacável. Por exemplo, ainda jovem lobo, disse que Vergílio Ferreira era o "Sartre de Fontanelas", para, muitos anos depois, reconhecer que o colega tinha talento. Naturalmente, foi um elogio póstumo, pois nem consagrado Lobo Antunes demonstra especial magnanimidade pelos colegas vivos. Quando lhe perguntaram que jovens escritores ele lia, não avançou nenhum nome e justificou-se dizendo que passa mais tempo a reler-se a si próprio. Ora, este grau de egocentrismo é uma carapaça inviolável, que a pouco e pouco foi desmotivando os críticos da terrinha. Podem dizer que é o Faulkner de Benfica, que os romances mais recentes são uma trapalhada de vozes indistintas, que... Não importa, já ninguém quer saber, nem nós, nem ele. Não há na imprensa recente lusitana crítica literária substancial e, a julgar pelas entrevistas sucessivas, o escritor, que vendeu muito do final dos anos setenta até aos anos noventa, atrai mais quando fala do que quando escreve, o que é um preocupante sinal de efemeridade literária. Abundam as entrevistas e escasseia a crítica. Existe uma crítica pontual e apressada sobre algum romance, sem comparação com outros livros do escritor, nem sequer excertos para exemplificar os reparos, como este texto de António Guerreiro, e um ou outro perfil, como este, de Paulo Nogueira. Existe também uma lobo-antunologia, mas que se suspeita ser demasiado comprometida; até que ponto a dedicação da professora Maria Alzira Seixo e dos seus discípulos à obra de Lobo Antunes, vista como objecto de estudo que deve ser valorizado, não gerará necessariamente uma crítica entusiasta? Ao invés do que lhe foi acontecendo em Portugal, nas últimas duas décadas Lobo Antunes ganhou uma dimensão internacional ímpar. Elogiado por pesos-pesados, como George Steiner, Harold Bloom e J.M. Coetzee, percorre os festivais literários do mundo como uma estrela a quem os entrevistadores atiram soft balls para ele maravilhar a plateia com o seu inegável charme, que passa independentemente da competência com que se expressa em inglês, português, francês e castelhano. Resta apenas saber se o mundo, que conheceu Lobo Antunes depois de Portugal, se vai também fartar dele e se a sua obra resistirá à morte do escritor. Seja como for, a sua independência nos últimos 40 anos é absurdamente invejável. Fez o que quis e como quis, com total independência, superando os rivais e pairando sobre os críticos. Não há melhor definição de vida bem vivida e já é tempo de se perceber que as figuras públicas cumprem um papel social importante ao atraírem a inveja que, de outro modo, recairia sobre aqueles que nos são próximos. 

 

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