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Um diário trasladado

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17
Jun19

Vangelis no subúrbio (21)


Eremita

bola velha.jpg

A janela do quarto escancarada, a persiana corrida pela metade e a aparelhagem puxada ao limite, debitando música para a rua, eis uma circunstância tipicamente suburbana. Só que jogar ao som dos Joy Division dava-nos pouco alento. Não perseguíamos os passes em profundidade. Com os Iron Maiden ficávamos frenéticos e violentos. Uma vez alguém pôs os Smiths, mas aí interrompemos a partida para poder ouvi-los melhor, sentados na relva. Foram acontecimentos episódicos. Até que surgiu G., um cinéfilo incipiente que se mudara para o nosso prédio. G. tinha um plano: gorducho e feioso, queria chegar ao estilo aristocrático do Ardiles e não olhava a meios. Deslumbrado com o Fuga para a Vitória, acreditou que o futebol podia transformar-se com uma banda sonora. Foi então que durante meses aturámos a experimentação do moço. Da nona às cantatas de Bach, passando pelos violinos de Smetana, a discoteca do pai de G. – melómano e erudito – foi passada a pente fino, até ao dia em que G. pôs um vinil de  Schönberg a tocar e antes de chegar ao campo já lhe tínhamos partido o vidro da sua janela como retaliação; não havia dodecafonistas nos Olivais Sul. Mas nem isso o demoveu. A finta de um Ardiles imenso na escuridão do cinema Império perseguia-o. Seria também no cinema que G. encontrou a solução, enquanto via o Chariots of Fire. Praticar desporto ao som de Vangelis é kitsch, dirá o leitor. Ouvir Vangelis é kitsch, atalhará. Impõe-se um ponto de ordem: há uma cinematografia que sobrevive da exploração do prazer inconfessável que é vibrar pelas vítimas, mártires e heróis. Vangelis é a expressão acústica dessa trafulhice, mas com o mérito de prolongar o êxtase transitório que tende a coincidir com o momento em que o protagonista dá a volta ao seu destino. Quando G. colocou a banda sonora de Chariots of Fire, passámos todos a levitar, como se voássemos baixinho – se me é permitido roubar esta expressão. O tempo desacelerou, os nossos gestos tornaram-se grandiosos e vistos em câmara lenta, como se estivéssemos a ser imortalizados em tempo real. G. galgou os lances de escada e quando saiu do prédio percebeu que tinha acertado. Antes de entrar no campo, despiu a sweatshirt com algum dramatismo, revelando a sua camisola listada a azul-celeste e branco. Foi como Osvaldo Ardiles que deu o primeiro pontapé. O sonho durou dois dias, até o pai lhe ter proibido o Vangelis no hi fi topo de gama.

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Anónimo

    21.06.19

    Porquê? Porque sim. Não chega?
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