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OURIQ

Um diário trasladado

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25
Jan18

Uma carta de Telavive


Eremita

Escrita automática assistida

Eremita,

 

Estive em Jerusalém, na expectativa de algum sobressalto espiritual. Na Igreja do Santo Sepulcro, não me senti tentado a tocar no buraco na rocha onde terá sido enfiada a cruz de Jesus, nem na pedra em que o corpo do Cristo crucificado terá sido untado. O interior da igreja é ocupado por várias denominações: a igreja ortodoxa grega, a dos arménios apostólicos, a católica romana, e ainda a ortodoxa da Etiópia, a ortodoxa síria e a ortodoxa copta (egípcia). O comicidade deste arranjo diplomático (chamam-lhe o Status Quo), que precede em séculos A Vida de Brian, dos Python, é tão iminente que não ouso uma piada, pois não consigo conceber nada mais hilariante do que as ocasionais sessões de pugilato entre monges de diferentes denominações, que irrompem sob um qualquer dos pretextos que geram quezílias entre vizinhos, como quando alguém se esquece do lixo no patamar ou teima em deixar a porta da rua fechar com estrondo depois das dez da noite; imagino-me a torcer pelos coptas, claro - também eu cedo ao apelo do underdog. Mas sabes quem guarda as chaves da Igreja do Santo Sepulcro e do túmulo de Jesus? Adivinha... Os muçulmanos! Não é extraordinário? Esta tradição dos muçulmanos guardiões do templo cristão remonta à conquista de Jerusalém aos Cruzados por Saladino - na preparação para esta viagem, bem sei que devia ter lido o To Jerusalem and Back, do Saul Bellow, como me recomendaste, e A Relíquia, do Eça, mas só tive tempo para um filme de Ridley Scott sobre cruzados em Jerusalém e Saladino, com muita pancadaria e piscadelas de olho à solução Dois Estados enviadas do século XII... Eh, é que nem os olhões da Eva Green, rainha no filme, garantem que as piscadelas resistem à erosão de oito séculos. Também o milenar muro das lamentações não está a salvo da erosão dos crentes e, se não bastasse, aqueles papelinhos enfiados nas frinchas do muro impregnam o local de um permanente desmazelo de fim de festa, ainda que sejam a antítese das serpentinas murchas e dos confetti pelo chão. O que escreverão eles? Aposto que as ciências sociais já detalharam com aparato estatístico os anseios dos Judeus: a vinda do Messias, a segurança de Israel, um atleta de craveira mundial? Diante do muro, também nada senti, nenhum sobressalto espiritual, apenas um pequeníssimo sobressalto cívico, pois esqueci-me de pôr um dos quipás de material barato disponibilizados gratuitamente e recebi olhares de reprovação - desculpa, Deus, não és tu, sou eu, a minha queda para me impressionar e comover mais com os feitos dos homens do que com o divino, mesmo quando é a crença no divino que move os homens. Mas esta conversa é cansativa, sobretudo para ateus veteranos, como nós. Olha, impressionei-me com uma das portas de entrada na cidade muralhada, que os israelitas deixaram com os buracos das suas balas, disparadas durante a Guerra dos Seis Dias. E hoje, já em Telavive, ainda há pouco, nesta esplanada virada para o mar de onde te escrevo, em ambiente cosmopolita, impressionei-me com a silhueta da Jafa portuária em contraluz, recortada por um pôr-do-sol, ao som de um chamamento de almuadem para uma das orações diárias vindo dos altifalantes colocados no topo do minarete de uma mesquita próxima. Ouvi-a ciente de que talvez fosse uma gravação, mas não deixei de apreciar as inflexões, sobretudo quando formavam aquele intervalo de meio tom tão característico. Teria sido melhor ter em mãos um chá de menta e não um gin tónico (mau), mas foi ali, em Telavive, ao som de uma religião que não me atrai, que tive o que, desde a minha chegada a Israel, mais se aproxima de um sobressalto espiritual. Dir-me-ás que foi do gin, mas decidi ficar mais uns dias por Israel e dar uma segunda oportunidade a Jerusalém e ao meu povo. 

 

Um abraço,

 

J.

 

PS: Continuo a lembrar-me das tuas duas meninas. No outro dia foram os ganhos de cabelo que seguram o quipá e hoje de manhã, ainda em Jerusalém, foram os caracóis que caem dos lados da cabeça dos judeus hassídicos. Beijinhos para elas.

 

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