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OURIQ

Um diário trasladado

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15
Mar18

Um vendaval de libertinagem


Eremita

Sobre as declarações em tribunal a respeito de Orlando Figueira, estamos face a um vendaval de libertinagem. Recordemos: este Figueira é o tal amigo que emprestou, em 2015, dinheiro ao tal juiz que, em 2016, declarava pimpão a um canal de TV não ter amigos que lhe emprestassem dinheiro. Registemos: a situação, por si admitida, é exactamente igual àquela que Sócrates descreve na sua relação com Santos Silva, ao ponto de nos relatos de ambos se apontar para a longevidade das amizades em causa e para o nível de vida desafogado de quem emprestou como razões para justificar os pedidos ou a aceitação dos empréstimos. Valupi

 

É óbvio que, a ser verdade o que consta na acusação a Sócrates, há diferenças de grau e natureza nas relações José Sócrates-Santos Silva e Carlos Alexandre-Orlando Figueira, mas Valupi tem toda a razão quanto ao "vendaval de libertinagem". Não me lembro de ver coisa semelhante na imprensa. Se antes apenas havia a desconversa dos advogados de Sócrates, desde que Rio chegou ao poder, em vez do banho de ética temos tido mais a shit hitting the fan (a ventoinha é o Observador), que conspurca a entourage do líder laranja; anteontem ouvimos Carlos Alexandre desculpar Orlando Figueira com argumentos dignos de uma personagem interpretada por Vasco Santana; ontem Paulo Futre, num crescendo de suor, defendeu em directo o "jogo da mala", que para o esquerdino é mau quando compram os jogadores para que percam, mas não quando são incentivos para que ganhem e empatem; e hoje, 6 milhões de incansáveis Benfiquistas, levando por arrasto também os portistas de rabo preso, continuam a transformar Portugal na pátria do relativismo moral. 

33 comentários

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    Eremita

    16.03.18

    Duvido que esta conversa tenha um destino diferente das que já tivemos, tendo em conta que tu és capaz de equiparar o que o juiz fez ao que Sócrates terá feito. Em relação aos advogados de Sócrates, houve dois momentos: antes da acusação, em que diziam que não havia nada, e depois da acusação, que viriam a descrever como uma "fuga para a frente" do Ministério Público. Obviamente, estão a trabalhar e são pagos por Sócrates para fazer tais figuras, mas o que vi publicado sobre a acusação, já depois de concretizada, deixa o ex-PM numa situação muito difícil. E nem ele, que tem uma grande lábia, conseguiu ser minimamente convincente nas explicações que deu na entrevista a um jornalista amedrontado. Tudo isto só não parecerá objectivo a quem já investiu muito tempo, emoções e a sua imagem pública na defesa de Sócrates/ defesa do Estado de Direito que leva à boleia a salvação de Sócrates / no ataque ao Ministério Público / em teorias conspirativas de motivação partidária / nenhumas das anteriores (riscar o que não interessa ou acrescentar).
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    Valupi

    16.03.18

    É de Aristóteles (portanto, já tem uns anitos) a sábia advertência para não se discutir com quem não obedece à lógica (em sentido grego, pleno). Adaptando à actualidade, é um conselho para não perdermos tempo no paleio com taxistas.

    Ora, tu, montado na extensa, abundante e sofisticada cultura que exibes nesta magnífica instituição chamada Ouriquense, não és diferente de um taxista quando o tema mete Sócrates. Nem tu nem muitos como tu, com vivência intelectual muito acima da média do Zé com quem nos cruzamos na rua. Também isso está vastamente estudado, as distorções cognitivas nascidas das motivações afectivas, embora seja sempre um espectáculo impressionante para os interessados na natureza humana.

    Então, temos que consideras como desconversa, hipocrisia mercenária, lábia, as declarações de advogados e arguidos antes sequer de saberes se há julgamento ou se, a ser feito, será exactamente sobre a acusação tal como ela foi elaborada. E ainda acrescentas, do alto da tua presciência, que o arguido Sócrates te parece "em muitos maus lençóis" por causa de não sei quê que te pareceu não sei quantos. Obviamente, este é paleio de taxista. Porque se coloca do lado da ignorância, a começar pelo que seja o papel universal dos advogados e o papel da defesa em qualquer processo judicial, e a terminar no ódio, o sentimento de querer não um julgamento e seu desfecho sempre imprevisto mas antes um linchamento e sua destruição garantida.

    Aposto que a distorção intelectual em ti é tanta que até algo instituído há séculos, e que enforma o tal Estado de direito que é matriz da civilização, como é o princípio de o arguido ter o direito a ficar calado num julgamento ou a não se acusar a si próprio perante terceiros, encontra em ti um desejo de abolição se te cheirar a Sócrates.

    E depois ainda tens o topete de falar em objectividade. A gargalhada, ó pá.

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    Eremita

    16.03.18

    Valupi, já não é a primeira vez, como se fosses uma autoridade na matéria ou gozasses de superioridade moral, que me tentas explicar o que é o Estado de Direito. É algo que me chateia, confesso. Repara: o novelo argumentativo em que te embaraçaste há vários anos é um problema teu e um espectáculo que nos diverte, como os números de escapismo de Houdini. Mas se julgas que podes reclamar alguma objectividade quando equiparas a ajuda financeira que o juiz Carlos Alexandre teve (independentemente das suas declarações ridículas) aos dinheiros que Sócrates ia recebendo de Santos Silva, segundo a tese da acusação, preocupa-me que estejas a ficar maluco e deves começar a vigiar se não terás já entrado naquele registo alucinado das criaturas solitárias que escrevinham longas teorias da conspiração e descuram a higiene pessoal. Enfim, percebo a tua tentação maniqueísta, mas não pega. Uma pessoa pode ser contra a violação do segredo de Justiça, contra a prisão preventiva de Sócrates, contra o "jornalismo" do Correio da Manhã, contra a metodologia do Ministério Público, contra Passos, até contra a recensão negativa que Diogo Ramada Curto fez da obra académica de Sócrates, e considerar, ainda assim, que há bons motivos para o julgar e que as suas explicações, além da sua bizarra aversão a bancos e outras idiossincrasias egomaníacas, provocam vergonha alheia. Mas relembro que me limitei a satisfazer uma curiosidade tua. O persistente assobiar para o ar dos advogados de Sócrates faz parte do vendaval de libertinagem, o que não implica qualquer condenação antecipada de Sócrates, nem incompreensão do que é o papel de um advogado (será que leste bem o que escrevi ou foi mesmo desonestidade da tua parte?), apenas alguma vontade de não ser tomado por parvo.
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    Valupi

    16.03.18

    Eremita, essa curiosidade não foi satisfeita, limitas-te a processo de intenções e sectarismo de tasca. Quando os advogados, na fase prévia à acusação, reclamavam a inocência do seu cliente, tu não podes saber (a menos que tenhas tido acesso à sua informação) se eles estavam ser convictos ou mentirosos. Para mim, que ignoro o que eles sabem, o que eles pensam e no que acreditam, estavam era a ser profissionais. Ser profissional, na advocacia, não equivale a ser aldrabão. O taxista em ti é que reduz o seu papel a algo que nem nos contos infantis deve ter lugar, isso de um defensor legal ter de ser concomitantemente um juiz que satisfaça a pulsão moralista da turbamulta ou um santo que se recuse a defender a malandragem sob pena de sujar as delicadas mãozinhas.

    E quando os advogados de Sócrates, na fase após a acusação, continuaram a tecer críticas à actuação do Ministério Público, tal está de acordo com a informação que é pública: na Operação Marquês os direitos de Sócrates foram violados em diferentes ocasiões, e o resultado a que se chegou, um megaprocesso que intenta ser um julgamento de dois Governos e que pode levar décadas até se concluir transitado em julgado, é revelador do carácter político do que está em causa. O taxista em ti desvaloriza, ou apaga mesmo, esta dimensão do caso porque estás deslumbrado com o auto-de-fé.

    A situação de Sócrates e Carlos Alexandre difere em variadíssimas circunstâncias, óbvio, mas equivale-se igualmente em várias. Estamos perante dois casos de envio de dinheiro que geram legítimas suspeitas, envios esses justificados com recurso a argumentos idênticos. Perante tal, Sócrates tinha mesmo de ser investigado, isso é indiscutível. Mas no caso do juiz é improvável que venha a acontecer. No que são exactamente iguais é quanto à questão da violação de um estatuto de integridade. Se Sócrates, mesmo que eventualmente esteja inocente das acusações de corrupção e derivados, violou a integridade cívica inerente aos cargos que ocupou e à importância cívica e histórica do seu currículo, Carlos Alexandre violou a integridade do seu estatuto de magistrado ao ter uma relação com um procurador que põe legitimamente em causa a sua independência e a capacidade para exercer a soberania.

    Logo, o ponto não é relativo à diferença entre não sei quantos milhões, como alega o MP, ou algumas centenas de milhares, como afirma Sócrates, com os dez mil euros do outro. O ponto é relativo ao facto de o juiz ter mijado fora do penico e ter mentido em público a respeito. Para mim, isso chegaria para o chutar para fora do altíssimo poder de que vai desfrutando com tanto gozo. Para os taxistas, nem sequer vale a pena ir gastar dinheiro a julgar o Sócrates quando o esgoto a céu aberto já lhes disse o que pensar.
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    Eremita

    17.03.18

    Bom dia,

    Quando começares a investir 1% do tempo que gastas a defender Sócrates na defesa de um político do PSD ou de um qualquer outro cidadão acusado pelo Ministério Público, talvez consiga evitar a gargalhada quando me acusas de "sectarismo de tasca".

    Entre as confusões que fazes, destaco três.

    Apropriei-me da tua expressão "vendaval de libertinagem" para descrever um estilo de argumentação muito em voga na esfera pública e praticado por pessoas tão diferentes como Paulo Futre ou Carlos Alexandre. Não considero Paulo Futre, Carlos Alexandre ou os seis milhões de benfiquistas criminosos ou sequer mentirosos (nos contextos específicos que referi), pelo que a tua explicação sobre o papel dos advogados, mais uma vez, é uma lição que dispenso - inspirado no termo "mansplaining", sugiro "valupisplaining" como termo mais abrangente, que descreve a situação em que um interlocutor, independentemente do género dos intervenientes, resolve explicar ao outro noções que este não deu a entender que desconhecia. Em nenhum momento me pareceu que os advogados de Sócrates não estivessem a fazer o que lhes competia. Um advogado de defesa é um pilar essencial no Estado de Direito, pois se até nos julgamentos de Nuremberga houve advogados de defesa que blá blá, etc. Um advogado de Sócrates deve defender Sócrates, tal como um benfiquista deve defender o Benfica e um amigo o seu amigo. No caso concreto dos advogados de Sócrates, antes da acusação (por causa da violação do segredo de justiça, como é óbvio) e depois de concretizada a acusação (por aquilo que li nos jornais), a estratégia nos media passou e passa por desvalorizar toda a acusação com argumentos genéricos e sem nunca tomar em consideração aspectos específicos. Possivelmente não poderiam seguir outro caminho, pois é no tribunal que o caso se julga, mas limitei-me a registar a tensão criada por aquilo que os advogados de Sócrates não dizem e os factos que precisam de uma explicação. Futre, Carlos Alexandre, os benfiquistas e os advogados de Sócrates (relembro, nos contextos que referi) não são mentirosos, serão "bullshitters", no sentido usado pelo filósofo Harry G. Frankfurt num livrinho que talvez conheças (On Bullshit), isto
    é, pretendem apenas persuadir o interlocutor sem grande preocupação com a verdade ou a mentira.

    Como te disse já, não me vou emaranhar no teu novelo de teorias da conspiração. Se tu reduzes a Operação Marquês a uma perseguição política e pretendes insistir nessa tese, mesmo sendo óbvio que o PS está de boa saúde e soube livrar-se de Sócrates com uma eficácia que te contradiz, já para não falar nas inclinações políticas do juiz Carlos Alexandre, terás de encontrar outro parceiro de discussão. O taxista em mim, mas creio que é um sentimento generalizado, está sobretudo deslumbrado com a possibilidade de toda a gente ter sido enganada por uma figura carismática e mitómana durante tantos anos. Os taxistas também se deslumbram com a natureza humana e são capazes de estabelecer relações complexas, que misturam fascínio, indignação e até uns pozinhos da síndrome de Estocolmo interpretada em sentido lato. Desiludes-me quando tomas esta mistura de sentimentos por simples excitação e medo de plebe diante de um auto-de-fé, mas não me surpreendes, pois faz parte da tua estratégia de vitimização.








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    Eremita

    17.03.18

    (Continuando)

    Quanto aos fluxos de dinheiro entre amigos, registo que da descrição de uma situação “exactamente igual” passámos a uma situação que “difere em variadíssimas circunstâncias, óbvio, mas equivale-se igualmente em várias”. É um progresso. As equivalências, se te li bem, serão três: 1) “dois casos de envio de dinheiro que geram legítimas suspeitas”; 2) “envios [...] justificados com recurso a argumentos idênticos”; 3) “violação de um estatuto de integridade”. Em relação às suspeitas legítimas, da investigação a Sócrates resultaram acusações de corrupção passiva, fraude fiscal, branqueamento de capitais e tráfico de influências. No caso de Carlos Alexandre, não houve vontade de o investigar depois de prestados os devidos esclarecimentos e o juiz continua à frente do processo, pelo que o sistema de Justiça parece discordar do teu paralelo, mas – claro – só pode ser por corporativismo e motivação política. Acrescento que tenho alguma dificuldade em imaginar que de uma investigação a Carlos Alexandre resultasse alguma acusação sequer. Quanto aos argumentos usados por Sócrates e Carlos Alexandre, só podes estar a gozar. No caso de Sócrates, fala-se de um sistema de subsídio permanente ao longo de vários anos e com recurso a malas de dinheiro, que Sócrates não consegue explicar, e de uma alegada dívida que continua por pagar; no caso de Carlos Alexandre, falamos de uma transferência bancária pontual, logo explicada, que já estava paga antes de o juiz se ter gabado de que não tinha amigos ricos. Se reparares, estas diferenças já são gritantes e nem foi preciso mencionar os valores envolvidos. Por fim, temos a violação do estatuto de integridade. Quanto a Sócrates, é o tal óbvio ululante, independentemente do desfecho do processo; um (ex-)PM não pode ter aquela relação com o dinheiro, é uma situação de vergonha nacional. No caso de Carlos Alexandre, não duvido que o juiz esteja hoje arrependido do que fez, mas tratou-se de uma imprudência que não teria tido sequer grande eco se ele não se tivesse armado aos cucos na entrevista. De resto, se nem a tua poderosa e motivadíssima mente conseguiu urdir um cenário de conluio entre Carlos Alexandre e Orlando Figueira, é porque a violação do estatuto de integridade, ainda que formalmente possível, não se afigura inevitável. Assim, não surpreende que remates o teu comentário com mais um lamento por José Sócrates, frisando a mentira de Carlos Alexandre, isto é, recorrendo às emoções, porque com alguma frieza qualquer pessoa conclui que não há qualquer equivalência de imoralidade entre o que Carlos Alexandre fez e o que a acusação diz que Sócrates fez. Em resumo, Valupi, por favor, não nos dês mais "bullshit".
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    Valupi

    17.03.18

    Eremita, conheces outros cidadãos, sejam ou não do PSD, a quem o Ministério Público tenha feito o que fez a Sócrates? Já agora, conheces algum órgão de comunicação social que faça a políticos do PSD e do CDS o que o Correio da Manhã, Sábado, Sol, Observador, SIC, Expresso e Público, entre outros, fazem a políticos do PS? Claro que é possível, porque tudo é possível no campo das patologias, teres pancada suficiente para andares a perder o teu rico tempo dando atenção à minha pessoa autoral, caso em que te recomendaria a consulta do Aspirina B aquando do episódio em que Relvas foi impedido de falar no ISCTE, em 2013. Santos Silva, perigoso e satânico socrático, também foi rápido e inequívoco na reacção. Não será um caso de Justiça, mas contribui para a quota do tal 1% que reclamas posto que envolve os mesmos princípios fundadores do Estado de direito.

    Dizes que dispensas lições sobre isto e sobre aquilo, mas então quem é que anda a teclar por ti quando deixas escrito que os advogados desconversam e que se prestam a fazer "figuras" a troco de dinheiro? E como é que Sócrates amedronta jornalistas, ele que até no seu partido foi ostracizado, para além de ser o bode expiatório da Grei? Mete medo porquê e a quem?

    Como se pode ler no teu primeiro comentário, tu raciocinas a partir de um pressuposto populista, ou taxista, ou meramente ignorante, isso de estares a exigir explicações "convincentes" para teu consumo individual. Ou seja, estás impaciente, gostavas que o julgamento de Sócrates durasse, no máximo, o tempo de uma entrevista e que tudo ficasse resolvido num estúdio de televisão com recurso a uns vídeos e uns gráficos giros. Tu, como espectador, serias o juiz das "explicações" dadas pelo suspeito. E no final até te dispunhas a mandar por sms o teu veredicto acerca da credibilidade do que tinhas ouvido e visto. Pois é, pá, a Justiça tem outra velocidade e outros cuidados.

    Chamas "novelo de teorias da conspiração" ao facto de ser incontornável a dimensão política da Operação Marquês, tanto no teor, como na exploração, como nos critérios da acusação, como finalmente na jurisprudência e eventual legislação que venha a nascer por causa deste processo. Essas facetas não se confundem com a dimensão moral e com o sentimento público, onde o julgamento de Sócrates já está feito, só se podendo vir a agravar caso se acrescentem condenações em tribunal. O que está em causa na crítica à Justiça, nisso onde ela falha, transcende o indivíduo Sócrates. Ou, calhando haver um abusador de menores e também assassino que estivesse à guarda do Estado à espera de julgamento, aceitarias que os pais das vítimas fossem à sua cela fazer justiça pelas próprias mãos? Se a tua resposta for "não", isso faz de ti alguém que está a defender um abusador de menores e assassino? Não serás capaz de entender que para um fanático ou raivoso as posições de defesa da Lei, ou de princípios, são sempre percebidas como ataques à sua pulsão violenta? Que para um maniqueísta não há imparcialidade, apenas a lei do "quem não é por nós, é contra nós"?

    Ora, todos aqueles que não precisam de esperar pelo julgamento de Sócrates para o considerarem culpado seja lá do que for, para esses qualquer apelo à defesa dos direitos do cidadão, do arguido e do acusado Sócrates aparece como a defesa do criminoso Sócrates. Convido-te a uma exercício de honestidade intelectual, e moral, a respeito desta matéria.
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    Eremita

    18.03.18

    Quanto ao tratamento mediático de José Sócrates, estamos de acordo, pois trata-se de uma figura singular. Mas a perseguição que o Independente moveu a Cavaco Silva e a muitos dos seus ministros teve traços parecidos. Qual será então a diferença? Outro exercício: a integridade de Fernando Medina também foi posta em causa, a propósito da compra de um apartamento. Mas o caso depressa foi esquecido. Qual será então a diferença? Porque durou durante tantos anos, por motivação ideológica ou comercial, a perseguição a Sócrates? Por que motivo as histórias sobre ele nunca desapareciam, voltando sempre, até ao clímax de uma acusação gravíssima a um ex-PM? Uma possibilidade, corroborada pela incapacidade de Sócrates se explicar a propósito de aspectos bizarros da gestão das suas finanças, é, ao contrário de Medina, ele não poder contar a verdade. É uma possibilidade apenas, escusas de me esfregar na cara pela enésima vez que sou taxista.

    Como continuas a fazer processos de intenções e ignoras o que já escrevi, isto começa – para não variar – a tornar-se cansativo. Se tenho um juízo formado com base na informação que é pública e nas inúmeras oportunidades que Sócrates e a sua defesa tiveram para avançar explicações? Claro. E tu, não? Se isso faz com que pense que o julgamento é uma mera formalidade? Claro que não. O que se espera de um julgamento é que seja esclarecedor. Não terei qualquer problema em reconhecer que fiz um juízo precipitado, se as teses da acusação se vierem a revelar infundadas. Tu, pelos vistos, é que não tens grande fé na Justiça, pois dizes que “o julgamento de Sócrates já está feito, só se podendo vir a agravar caso se acrescentem condenações em tribunal” (isto contradiz algo que escreveste há alguns dias sobre o futuro de Sócrates, mas adiante). O que me parece absurdo é pedir que um cidadão suspenda a sua faculdade de apreciar um caso com base no que se conhece só porque a Justiça ainda não se pronunciou. Aquilo que tu pretendes, Valupi, é que nos calemos durante os anos que este processo vai durar, enquanto tu nos martelas todos os dias as motivações políticas da Operação Marquês e o teu maniqueísmo, pois não admites sequer o cenário de haver motivações políticas, sim, e haver também um criminoso ou então pareces pensar que as motivações políticas da acusação redimem Sócrates, caso ele tenha cometido crimes. Eu estou mais interessado em saber se Sócrates fez aquilo de que é acusado, independentemente das motivações políticas do caso que, a existirem, são um problema também gravíssimo, mas outro problema. Só que já se percebeu que não te vou conseguir convencer, pois vives embriagado pela ficção de que lutas sozinho contra uma sociedade injusta que já condenou Sócrates e, se ainda houvesse alguma dúvida, o cenário do abusador de menores e também assassino à guarda do Estado enquanto espera julgamento é esclarecedor. Claro que sou capaz de entender que impedir que se faça justiça pelas próprias mãos não é estar do lado do violador – raios, Valupi, tendo eu visto o A Time to Kill umas três ou quatro vezes, aquele veredicto final ainda me causa algum desconforto e, aqui entre nós, é coisa de gringos. Mas essa dramatização que tentas é ridícula, porque – insisto – tu pretendes apenas calar toda a gente para poderes desenvolver tranquilamente a tua tese das motivações políticas da acusação a Sócrates. Enfim, reciclemos o abusador de menores, que eu transformo em alegado abusador de menores. Imaginemos que o alegado abusador de menores está acusado, mas em liberdade (não sei se isto é possível, mas trata-se de um exercício) e que o caso desperta muita atenção. Um dia, o alegado abusador de menores vem com um grupo de amigos jantar a minha casa. Eu reconheço-o dos jornais, mas não comento nada. A meio da noite, uma filha minha (digamos, de 16 anos) diz que precisa de boleia para o Bairro Alto e o alegado abusador de menores oferece-se para a levar. Segundo a tua lógica, eu não teria o direito de declinar a sua oferta, pois estaria a declarar diante de todos que não acredito na sua inocência. Mas seria o mais sensato, por um princípio de precaução. Sucede o mesmo com Sócrates, o que não quer dizer que tenha formulado um juízo definitivo.
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    Valupi

    18.03.18

    Contar a verdade? Que quer isso dizer? Qual é a verdade, na tua opinião, a respeito dos casos Freeport, Licenciatura, Cova da Beira, Projectos na Guarda, Face Oculta? Para quem exige "a verdade" a terceiros, suponho que sejas coerente e que exijas igualmente a ti próprio a verdade possível a respeito do teu conhecimento acerca dessas situações similares à do dinheiro recebido do amigo Carlos. Que verdade é essa? Estudaste os assuntos? Leste alguma coisa para além das manchetes do Correio da Manhã? É que há caudalosa produção de informação a respeito com origem em instituições públicas, não podes alegar desconhecimento dos factos apurados até agora se é da "verdade" que pretendes falar.

    Em momento algum deixei escrito que se deve suspender o discurso a respeito das informações que enchem o espaço público sobre Sócrates - tal seria estúpido. Fazes essa distorção caricatural porque não te queres ver como um fanático igual à ralé que apenas consegue odiar os alvos indicados pela indústria da calúnia. Mas é nesse registo que te encontras, por factores emocionais que te anulam a capacidade crítica e, em especial, de autocrítica. Reclamas o teu direito a confundir a montanha de interpretações condenatórias na comunicação social com o estabelecimento dos factos num contexto onde a defesa pode apresentar a sua versão em igualdade de direitos com a acusação. É por que isso que és capaz de teclar que "Eu estou mais interessado em saber se Sócrates fez aquilo de que é acusado" ao mesmo tempo que dizes "Não terei qualquer problema em reconhecer que fiz um juízo precipitado, se as teses da acusação se vierem a revelar infundadas". Ou seja, alardeias o teu gosto pelos juízos precipitados e depois esperas que a roleta do julgamento te resgate a honestidade intelectual e moral perdida. Abre a pestana, ó pá, foge desse nó cego na tua inteligência.

    Desde o primeiro momento, logo aquando da detenção de Sócrates por factos confirmados pelos seus advogados, e mais tarde pelo próprio, que declarei ser a investigação da Operação Marquês legítima. O Ministério Público tinha a obrigação de abrir um processo pois as suspeitas a tal obrigavam. Nisto não há qualquer irregularidade ou agenda política na Justiça. Só que isso não esgota o que é o processo, nem o processo se revelou imune a explorações políticas e violação de direitos (como, por exemplo, a investigação ao BES se está a revelar, nada sendo permitido que viole o segredo de justiça nem se conhecendo abusos graves do MP sobre arguidos). És tu, com essas distorções infantilóides, que projectas o teu desejo de silêncio em mim. És tu quem se recusa a pensar e criticar os erros da Justiça num processo que é legítimo e que terá um desfecho judicial neste momento imprevisível.

    __

    Sobre o "On Bullshit", que deixei sem referência ontem por falta de tempo, tenho uma opinião favorável do conceito - divergindo, talvez pouco, do autor. O discurso que "não se preocupa em saber se é verdadeiro ou falso" cumpre uma importante função social, e até económica. No exemplo do arquitecto que invoca um arco romano para justificar a inclusão de um arco numa obra para um seu cliente (se a memória não me falha) está claro que esse recurso retórico cumpre o papel de ajudar o cliente a tomar uma decisão sobre o arco que poderá, ou não, tornar-se parte de algo seu. Nesse contexto, os valores "verdade" e "mentira" não seriam operativos, pois não há qualquer nexo de verdade entre um arco numa obra com dois mil anos e outro numa outra obra que em mais nada se relaciona com ela a não ser na similitude de um certo aspecto. É apenas uma questão de gosto.

    Enfim, como trabalho na indústria da persuasão, lido com o "bullshit" como instrumento inevitável na produção tanto dos bens como dos serviços vendidos.
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    Eremita

    19.03.18

    Sócrates está acusado de 31 crimes e é alvo de um “megaprocesso” de mais de 4000 páginas. Serão três crimes de corrupção passiva, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documento e três de fraude fiscal qualificada. Se pretendes dizer que eu não posso formular uma opinião a menos que tenha lido toda a acusação, talvez até confrontado as testemunhas e promovido aqui em Ourique algumas acareações às minhas custas, arruinando-me social e profissionalmente pelo investimento de tempo no estudo do processo, só para poder emitir um juízo sobre a conduta de José Sócrates, deves estar doido. Já se percebeu a tua tentação para que eu pegue num aspecto do processo e tu, provavelmente a pessoa em Portugal sem envolvimento profissional ou pessoal directo que mais conhecimento tem sobre esta investigação, me apanhes a dizer uma qualquer imprecisão e assim me descredibilizares, nisso lembrando aqueles evangélicos que, pela exibição do seu conhecimento superior das Escrituras, pretendem desautorizar os ateus, mas decidi fazer-te a vontade, pois não quero que fiques a pensar que pretendo calar-te – da reputação de seres o “blogger” mais “high-maintenance” que conheço é que já não te livras, pois se após esta troca de longos comentários, uma prática que nunca promovi no Ouriquense, ainda tens a lata de dizer que te pretendo silenciar, não sei mesmo o que me leva a pensar que de ti ainda virá um dia algum bom senso. Mas avanço na direcção da armadilha que montaste. Porém, que fique claro que apenas estou obrigado a demonstrar o que me leva a duvidar da honestidade das explicações de José Sócrates e não aquilo que me atribuis (a certeza antecipada de que é culpado).
    Os indícios que levam qualquer cidadão minimamente informado e sem "partidarite" são de ordens distintas, dos intuitivos aos mais objectivos. Evito perder muito tempo com os primeiros para não levar mais uma vez com o “show Valupi” da vitimização e da explicação do que é um Estado de Direito, mas é óbvio que têm importância e como pedes que seja honesto, não seria correcto ignorá-los. Se Sócrates não fosse mitómano, dado ao exibicionismo intelectual, e a manhas e tangas que talvez não decorram apenas de deformação profissional, seria mais fácil acreditar no que diz quando se defende das acusações de corrupção. Quanto aos indícios objectivos, é prudente não entrar na parte mais tentacular do megaprocesso, isto é, a que envolve as empresas (BES, PT, Vale do Lobo, Grupo Lena), para não dar crédito excessivo à acusação, e fico-me pelas mentiras factuais e justificações bizarras de Sócrates ou dos seus advogados. Há a mentira da “fortuna” da mãe como justificação para o seu estilo de vida (entrevista ao Expresso de 19.10.2013). Naturalmente, ninguém merece a reputação de criminoso por apenas ser mentiroso e – no limite – até se aceita que Sócrates tivesse mentido para proteger a sua privacidade tendo em conta a intensidade com que estava a ser perseguido na imprensa – mas já é boa vontade que um ex-PM ou qualquer outro político que teve a responsabilidade de gerir dinheiro público não merece.

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    Eremita

    19.03.18

    (Continuando)

    Existem também as suspeitas de João Perna, o homem das entregas em numerário, quanto à origem do dinheiro, bem como as entregas em numerário propriamente ditas, que Pedro Delille, seu advogado, justificou da seguinte maneira: “José Sócrates foi investigado durante dez ou mais anos e como ex-primeiro-ministro estava exposto à curiosidade. Por isso, não gostava e não confiava nos modos normais de circulação de fundos”. Eu diria que isto é “bullshit” de qualidade superlativa, mesmo "gourmet", digamos que apresentada com alguns cristais de flor de sal, tal como certos chocolates, porque precisamente por estar sob apertado escrutínio, Sócrates não poderia nunca ter deixado de usar os modos normais de circulação de fundos. Talvez te pareça que devemos aceitar a explicação de Delille, comer e ficar calados, mas eu ainda não percebi quando foi que o Estado de Direito nos passou a exigir que fôssemos otários. Temos ainda os extraordinários honorários de Domingos Farinho, que recebeu 40 mil para, segundo ele, “prestar colaboração na redacção, sistematização e revisão da tese de mestrado”, mais 43 mil euros para a futura colaboração no doutoramento. Este episódio é multifacetado, mas nem vale a pena perder tempo com a eventualidade da fraude académica, bastando frisar que esta quantia, astronómica para o trabalho em causa, demonstra um notável e aparentemente inexplicável desafogo financeiro, como muitas outras despesas de Sócrates. Há outros indícios, mas estes são os que estão mais frescos na memória e bastam, não para concluir que Sócrates foi corrompido, mas para duvidar da sua palavra, que foi o exercício que propus. Obviamente, cabe à Justiça apurar o que realmente se passou e até me parece possível que Sócrates não seja condenado, tendo em conta a possibilidade formal de não ter cometido os crimes de que é acusado e a dificuldade em se fazer prova, no caso dos crimes de corrupção terem efectivamente sido cometidos. Clara Ferreira Alves, no Expresso, resumiu de modo feliz a situação: “não foi a acusação que destruiu a presunção de inocência. Foi a presunção de José Sócrates que destruiu a nossa inocência”. E também, se me permites, a minha paciência. Não fiz o Ouriquense para passar o tempo a discutir o caso Sócrates. Tenho outros interesses na vida e até motivos pessoais que me levam a não querer alimentar discussões sobre Sócrates em público. Peço-te que tenhas esta minha limitação em conta e que caminhemos rapidamente para uma conclusão. Há vida além de Sócrates, Valupi.


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    Valupi

    19.03.18

    Eremita, ao princípio, ficava confuso e até perplexo. Agora, dada a repetição do padrão, já consigo apreciar a sua comicidade. Refiro-me às tuas sistemáticas distorções. Pegando literalmente na última, anuncias não ter paciência para falar de Sócrates mas és tu que me andas a citar a propósito desse senhor e das ideias que invadiram a tua cachimónia acerca do "Valupi". Calhando vir cá dialogar contigo, fazes sempre esse número de estares enfastiado com a conversa e sais de cena com ares de "grand seigneur" que me esteve a prestar um especial favor ao me aturar os caracteres. De rir, compadre. Mas um riso sano, que agradeço.

    Ora, bute lá fechar isto, então. Tudo resumido e mastigado, o que reclamas é o teu direito a desconfiar da palavra de Sócrates. Na tauromaquia, chama-se a essa situação estar refugiado em tábuas. Porque não há nada para discutir a respeito dessa, aliás naturalíssima e altamente maioritária, reacção. O que não faltam são razões para desconfiar do que disse, diz e dirá. Mas vou mais longe do que tu, já agora: essa mesma reacção seria natural no período que antecede a Operação Marquês. E ainda mais: essa reacção fica como lúcida face a qualquer actor político. É preciso ter apenas 12 anos para esperar que se faça na política aquilo que nem sequer esperamos que aconteça na vida social corriqueira, ver seres humanos num estado de transparência tal que possamos tomar as suas palavras como emanações da sua essência, sequer mera subjectividade.

    Porém, contudo, todavia, que raio tem isso a ver com a questão da suspeita judicial, a perseguição mediática e os contornos do processo? Achas que o Marcelo Rebelo de Sousa é um actor político que nunca te enganou naquilo que disse publicamente? E quem és tu para exigir que a vida dos outros caiba nos limites da tua existência e inerentes critérios doadores de sentido?

    Por tudo aquilo que possa parecer indício de crime na versão de Sócrates acerca dos dinheiros que utilizou pessoal e privadamente, ainda assim não é preciso um imaginação extraterrestre para admitir que uma das possibilidades possa ser exactamente essa a que se agarra. Nisso, o caso de Sócrates é universal, apenas mais um caso onde a Justiça irá chegar a um veredicto. Como sabes, se nem a Justiça está imune a erros, qual o incómodo de veres alguém, no caso eu, a apontar para as circunstâncias onde eles possam existir?

    Não só há vida para além de Sócrates como opinar sobre ele não equivale necessariamente a emitir juízos a teu respeito.
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    Eremita

    19.03.18

    Valupi, sinceramente, vê se ganhas vergonha ou mostras os rascunhos a um amigo antes de os publicares. Equiparar as mentiras de Sócrates associadas ao escrutínio das suas finanças a pequena intriga palaciana, a historietas com vichyssoises, até a uma forma natural de nos comportarmos na “vida social corriqueira” que nos impede de interpretar as palavras do outro como “emanações da sua essência” deixa-me muito preocupado. Pedro Delille está a ganhar a vida, pratica “bullshit as business”; tu pareces estar a perder o juízo ou então os escrúpulos. Sim, uma das possibilidades sobre a fobia que Sócrates tem dos bancos pode mesmo ser essa que Delille e tu referem; eu limito-me a integrar a noção de probabilidade quando comparo cenários alternativos. Mas a facilidade com que comes a explicação de Sócrates, sem qualquer consideração sobre o dever de transparência a que um político de topo está obrigado quanto à origem dos seus rendimentos, só confirma a impressão de que te estás nas tintas para o Estado de Direito e que a tua força motriz é a vaidade.
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo

    20.03.18

    Mas quais mentiras de Sócrates? A juliana de insinuações, difamações e calúnias que tu despejas num psitacismo incontrolado não merece discussão. Ou sabes que ele está a mentir, e explicas onde e porquê, ou ficas-te por aí nas esquinas e vielas a balbuciar que não acreditas na sua palavra por qualquer coisa que tu lá sabes.

    Eu não como explicações de Sócrates, por isso nunca me leste a declarar fosse o que fosse nesse sentido, bem pelo contrário. Para mim, o que ele apresenta como versão dos acontecimentos é, independentemente do que venha a acontecer na Justiça, a expressão de uma deslealdade cívica e de uma irresponsabilidade política (prejudicou o PS nas eleições de 2015, pelo menos). O que não faço é linchamentos, daí não precisar de andar desvairado por ainda não haver uma resolução clarificadora sobre o que está em causa, como acontece com a tua augusta pessoa.
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    Eremita

    20.03.18

    Mentira #1: “Quando o meu avô morreu, a minha mãe herdou uma , fortuna, muitos prédios, andares, que ainda hoje ela não sabe o que fazer com eles”. Sócrates, em entrevista ao Expresso de 19.10.2013. Segundo a investigação de José António Cerejo, no Público, a mãe de Sócrates, na altura da entrevista de Sócrates ao Expresso, tinha um modesto rés-do-chão em Cascais, uma arrecadação em Setúbal e uma terça parte de uma casa na sua aldeia natal, em Trás-os-Montes. Referia-me a mentiras deste tipo. Queres fazer agora o teu número sofista e descrever Cerejo como um servo da SONAE ou passamos já à mentira seguinte?

    https://ntpinto.wordpress.com/2013/10/23/a-entrevista-a-jose-socrates-e-uma-notavel-peca-jornalistica/
    https://www.publico.pt/2014/12/04/sociedade/noticia/a-historia-de-uma-fortuna-que-nao-chegou-a-selo-1678337
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    Valupi

    21.03.18

    Tu que leste o artigo do Cerejo, e a partir dele declaras que Sócrates mente, responde-me a esta simples pergunta: quantos prédios e/ou andares, herdou a mãe de Sócrates quando o seu pai morreu?
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    Eremita

    21.03.18

    Se cometes a imprudência de querer discutir interpretações sobre factos, como saber se a mãe de Sócrates herdou ou não uma fortuna, prometo satisfazer a tua vontade. Mas antes terás de escrever se o que te apresentei como sendo uma mentira é realmente uma mentira de um aldrabão, uma mentira de um político perfeitamente aceitável tendo em conta a natureza das suas funções e a tradição, uma calúnia de Cerejo, uma interpretação minha tendenciosa que ignora a impossibilidade de interpretar as palavras do outro como “emanações da sua essência” ou outra coisa qualquer. Um faz uma pergunta e o outro responde, mas não pode sair-se logo com uma pergunta, pois isso pareceria uma "fuga para a frente" e não queremos que ganhes os vícios que os advogados de Sócrates atribuem ao Ministério Público. É ou não uma mentira, Valupi?
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    Valupi

    21.03.18

    Como é que pode ser mentira se o próprio Cerejo diz que é verdade? Começo a desconfiar que ainda não leste o artigo desse senhor.
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    Eremita

    21.03.18

    O teu mal é desconfiares de tudo menos das tuas conclusões. Quando quiseres responder à pergunta que te faço, avisa. Mas a tua recusa diz tudo, na verdade.
  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    21.03.18

    A tua veia cómica é um talento que talvez devas explorar profissionalmente. Por alguma razão que ignoro (embora tenha boas hipóteses à disposição), estás interessado em discutir comigo as putativas mentiras de Sócrates. E isso apesar de já ter mostrado que me estou a marimbar para as mentiras dele ou de outro político qualquer enquanto fenómenos psicológicos (diferentes da mentira enquanto representantes do Estado e, por isso, crime nos casos em que tal seja criminoso). É leres, ou releres, o que Hannah Arendt escreveu a respeito da "verdade" na política, terás aí a minha posição.

    Depois, trazes um exemplo tão mal amanhado, tão estouvado, que a única explicação, à excepção do consumo de LSD, terá de ser encontrado numa qualquer iliteracia no básico domínio da língua portuguesa. O que Sócrates diz e o que o Cerejo elenca são uma e a mesma coisa quanto aos factos: a mãe de Sócrates herdou variados bens imobiliários por morte do seu pai.

    Qual é a parte do artigo que foste buscar que não estás a entender?
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    Eremita

    21.03.18

    "Mas quais mentiras de Sócrates? A juliana de insinuações, difamações e calúnias que tu despejas num psitacismo incontrolado não merece discussão. Ou sabes que ele está a mentir, e explicas onde e porquê, ou ficas-te por aí nas esquinas e vielas a balbuciar que não acreditas na sua palavra por qualquer coisa que tu lá sabes. " Valupi, 20.3.2018

    "Por alguma razão que ignoro (embora tenha boas hipóteses à disposição), estás interessado em discutir comigo as putativas mentiras de Sócrates..." Valupi 21.3.18

    Limitei-me a responder ao que perguntaste. Se, depois da minha resposta, és incapaz de me dizer se Sócrates mentiu na passagem daquela entrevista que cito e te refugias, uma vez mais, no número do herói solitário que luta contra a calúnia e os "profissionais da indignação", o problema é teu.

    Não respondeste à pergunta, caso não tenhas reparado (o que seria extraordinário, pois até usei uns negritos). A pergunta que fiz, repito, foi se a mãe de Sócrates tinha uma fortuna em imobiliário na altura da entrevista, como afirma Sócrates. A resposta que deste é sobre outro assunto. Para quem exibe tanta arrogância intelectual e virtude moral, devias ser mais rigoroso, se não queres passar por palerma ou aldrabão.
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    Valupi

    21.03.18

    Não tenho problema algum em passar por palerma ou aldrabão, exactamente ao contrário, ficando penhorado a quem me fizer tal demonstração.

    Acontece que a frase de Sócrates que tanto te entusiasma não valida a tua interpretação difamante. Nessa passagem, ele - tal como o Cerejo atestou na sua investigação - está a recordar um facto: a sua mãe herdou variados bens imobiliários por morte do avô de Sócrates, bens esses que o entrevistado considera equivalerem a uma "fortuna" (cuja semântica não obriga a tabela adjunta) e bens esses que, no todo ou em parte (a frase não o explicita), estão a causar uma indecisão na sua mãe.

    Caso tivesses lido o artigo do Cerejo, que igualmente te entusiasma mesmo ignorando o seu conteúdo, ficarias a saber que esses bens foram sendo vendidos ao longo do tempo, ainda existindo alguns na altura em que Sócrates deu a entrevista. O Cerejo preocupa-se em valorar os bens restantes para sustentar a tese de que Sócrates mente e é corrupto, pois é esse o contexto e intenção do artigo, mas o que nem o Cerejo faz é dizer que Sócrates mentiu nessa passagem da entrevista. Ele pega nela para lhe atribuir uma intenção manipuladora, sim, e daí parte para o levantamento do património da mãe de Sócrates.

    Já agora, para ti, a partir de que valor (em euros) se pode usar o vocábulo "fortuna"?
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    Eremita

    21.03.18


    És mesmo um pequeno e previsível aldrabão, Valupi. Estavas convencido de que eu iria pegar na história da fortuna, por ser a mais batida e a que dá título ao artigo. Mas como te conheço as manhas, fiz outra pergunta, caso contrário já sabia que iríamos acabar a discutir o que é uma "fortuna" e, dada a ambiguidade do conceito de "classe média" neste país, seria uma perda de tempo. Ora, quando finalmente percebeste que me tresleras (dou sempre o benefício da dúvida) e te viste obrigado a responder à verdadeira pergunta, sentiste logo necessidade de frisar que eu não tinha lido o artigo, o que é - tecnicamente - uma calúnia. Isto seria apenas cómico, vindo do homem que luta contra os "profissionais da calúnia", não se desse o caso de dares também mostras de um pensamento desconexo, o que é trágico.

    Quando te fiz a pergunta, escrevi: "Segundo a investigação de José António Cerejo, no Público, a mãe de Sócrates, na altura da entrevista de Sócrates ao Expresso, tinha um modesto rés-do-chão em Cascais, uma arrecadação em Setúbal e uma terça parte de uma casa na sua aldeia natal, em Trás-os-Montes. " Não acrescentei mais nada porque se tratava de confrontar a afirmação de Sócrates, isto é, que a mãe, na altura da entrevista, não sabia ainda o que fazer com tanto prédio e andar, com a realidade (o património da senhora estava reduzido a um modesto rés-do-chão em Cascais, uma arrecadação em Setúbal e uma terça parte de uma casa na sua aldeia natal). Percebes o problema de lógica, Valupi? Não me podes acusar de não ter incluído a informação relevante para a pergunta que tu pensavas que eu te iria fazer, sendo outra a pergunta. Para que percebas melhor: a minha pergunta ainda faria sentido se eu não tivesse lido o artigo e ignorasse que o património da mãe de Sócrates já tinha sido maior. Gastas depois algum tempo a explicar-me que função cumpre no texto de Cerejo a comparação entre o que Sócrates disse e o património de sua mãe à época, o que é mais um caso de “Valupisplaining”.

    Enfim, pelo menos respondeste, afirmando que a minha interpretação é “difamante”, pelo que só posso concluir que, para ti, Sócrates não mentiu naquela passagem. É extraordinário. Ao contrário do que sugeres, Cerejo também viu a mentira e, claro, a “intenção manipuladora” (um eufemismo para “mentira”), como se percebe da leitura do artigo dele; até Clara Ferreira Alves, na altura da entrevista uma entusiasta de Sócrates, viria a reconhecer que foi enganada por ele, nomeadamente no que toca à fortuna da mãe*. O mesmo pensará qualquer pessoa alfabetizada que não tenha a sua reputação indexada ao futuro de Sócrates.
    Se quiseres, continuamos, pois isto até começa a ser divertido. Queres mesmo discutir a "fortuna"? É que mete contas de somar e conceitos aborrecidos como o direito das sucessões e nunca foi minha intenção brincar nos blogs ao julgamento de Sócrates ou discutir a Operação Marquês. Queres que te apresente mais uma mentira de Sócrates, para ver se te sais melhor? Ou queres discutir a tua tese estruturante de que a Operação Marquês prejudicou o PS nas eleições de 2015? Este é o tema mais interessante e o único potencialmente enriquecedor, pois em relação às mentiras de Sócrates e aos indícios que me fazem duvidar dele já se percebeu que não há condições para progredirmos.

    *http://leitor.expresso.pt/#library/expresso/semanario2346/revista-e/pluma-caprichosa/o-julgamento-de-socrates
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    Valupi

    21.03.18

    É possível que sejas mesmo chanfrado dos cornos (sem ofensa para a parte dos cornos). Isso são coisas que acontecem, uma parte da população está nessa categoria inevitavelmente. Também pode acontecer que sejas o típico socrático, esses infelizes que mergulham de cabeça na sua paixão pela figura e não descansam enquanto não derrubarem o totem. Qualquer que seja o diagnóstico, tens também um problema sério quanto ao reconhecimento do registo irónico.

    Mas fiquemos só pela frase e a tua interpretação. Creio que nem tu, nesse destrambelhamento, ignoras que a frase não é uma resposta ao artigo do Cerejo, as coisas passaram-se num outro fluxo temporal. Nesse passo da entrevista está a recordar o passado familiar, num discurso onde descreve - factualmente - o que lhe foi acontecendo e que não remete só para a mãe e suas casas (muitas ou poucas, valiosas ou miseráveis). Assim como a frase - fora do contexto - permite essa leitura difamante que fazes caso se faça um processo de intenções e se vá buscar outro contexto estranho à entrevista, assim a frase terá uma muito mais verosímil interpretação como registo de expressão espontânea, sem outro cuidado do que ser fiel à sua memória e experiência.

    Preferes colocar-te do lado dos caluniadores, é lá contigo. Mas esse lado não se recomenda a ninguém e é para infelizes.
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    Eremita

    21.03.18





    O contexto em que a afirmação foi feita não altera a conclusão de que Sócrates fez uma afirmação manipuladora e mentirosa, até lhe dá menos desculpas. A entrevista de Sócrates ao Expresso, em 2013, foi provavelmente um dos últimos trabalhos jornalísticos em que ele é retratado de modo francamente elogioso. Naquela altura, Clara Ferreira Alves seria neutra ou até uma “socrática”, ao ponto de sentir necessidade de explicar aos leitores da entrevista que estava a desempenhar o papel de “advogado do diabo” quando confrontava Sócrates com os vários rumores e suspeições que o perseguiam. Aliás, nem é preciso ler a entrevista, basta folheá-la para se notar o zelo em assegurar que Sócrates saísse (literalmente) bem nas fotografias. Em suma, Sócrates não disse o que disse num momento de tensão, apertado por algum jornalista pouco amistoso, mas diante de uma interlocutora que se procurou sempre distanciar – e isto não é uma crítica – daqueles que fazem parte do que designas pela indústria da calúnia. Quanto à passagem do discurso propriamente dita, não há qualquer descontextualização. A frase surge nesta passagem mais ampla: “Separaram-se [os pais] tinha eu 4, 5 anos. A minha irmã ficou com a minha mãe, eu fiquei com o meu pai e fui educado por ele. Passava as férias com a minha mãe. E o meu irmão foi para o Colégio Militar, coitado”. O pai era um disciplinador “habituado à dureza da vida e muito exigente, comigo e com ele”. A mãe estava habituada a outro conforto. “A minha mãe era filha de um tipo rico na altura, uma fortuna de volfrâmio. Quando o meu avô morreu, a minha mãe herdou [em 1982] muitos prédios, andares, que ainda hoje ela não sabe o que fazer com eles”. A parte que destaquei é a mentira óbvia, tendo em conta o património da mãe na altura, pois qualquer leitor sem o teu ridículo viés fica a pensar que o património imobiliário da mãe que herdou do pai se manteve até 2013. Sinceramente, não sei como podes ter a lata de escrever “assim a frase terá uma </strong>muito mais verosímil interpretação como registo de expressão espontânea, sem outro cuidado do que ser fiel à sua memória e experiência”. Parece que te deixas encantar pelo teu próprio verbo, Valupi, és o Luís Freitas Lobo da retórica, o que potencia o ridículo. Quanto ao resto do comentário, saltando os insultos, rematas com um maniqueísmo que não se aplica à nossa discussão, sobretudo se começares a ler o que eu escrevo e não aquilo que pensas que vou escrever, sendo esta manobra muito característica na tua prosa sobre Sócrates, pois precisas de dramatizar a situação para não emergires como o derradeiro fanático. Enfim, passamos às outras mentirinhas ou ao mal que Sócrates causou ao partido nas legislativas de 2015? É só escolheres.

  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    21.03.18

    O contexto é tudo, como sabe qualquer aprendiz de hermenêutica. A única forma de essa frase (é só uma frase, jasus!) poder ser uma mentira obrigava a que ela tivesse surgido como resposta a uma pergunta objectiva a respeito do património em causa. Não foi o caso, pelo menos de acordo com o texto da entrevista. Nela, como tu próprio citas, há uma digressão que apanha esse aspecto da vida da sua família, a altura em que o avô morreu e a mãe herdou vários (para o senso comum, do que se sabe, muitos) imóveis. Não há, pois, mentira alguma posto que os termos usados não estavam obrigados ao rigor explicativo que a calúnia de que vão ser alvo exige retropectivamente. Naquele contexto, Sócrates está a relatar uma experiência que realmente ele e a sua mãe viveram, não está preocupado em se defender da ambiguidade, quiçá até o eventual erro, da expressão oral tal como ela lhe saiu. Porém, o facto continua a ser de que, a essa data, a mãe era realmente proprietária de (pelo menos, garante o Cerejo) três imóveis. Logo, até por aqui não há qualquer mentira, posto que ela poderia permanecer no mesmo estado de indecisão a seu respeito e a frase ter juntado espontaneamente dois registos de memória relativos a tempos diferentes. Falar de mentira. atendendo à literalidade da frase e contexto da locução, é um absurdo - ou uma calúnia.

    E é isso mesmo que o artigo do Cerejo começa por explicar. Ele vai buscar uma metanarrativa, convocando referências ao argumento da "riqueza da família" e da "herança da mãe" que tinham aparecido no espaço público, para justificar o exercício a que se propõe: provar que o dinheiro que Sócrates andaria a gastar não vinha da família porra nenhuma, pois nem sequer tinham fortuna. Logo, teria de vir de outro lado, logo ele era um mentiroso, logo ele é corrupto. O Cerejo viu uma oportunidade nessa frase para apresentar uma versão - convincente posto que lista os imóveis e os descreve quanto ao valor percebido - sobre o património da mãe de Sócrates. Só que tal continua a não pôr em causa o sentido e respectivo contexto da tal famigerada frase. No caso do Cerejo, foi tão só um "casus belli" para despachar mais um ataque contra Sócrates.

    Dito isto, não faço a menor ideia, nem perco uma caloria com tal, se Sócrates mentiu aqui ou ali, a mãe isto ou o avô aquilo. Prefiro antes continuar a não aceitar que um artigo de jornal, por si só, chegue para me juntar a um linchamento. Pois se até há tribunais que condenam inocentes (sabes disso, não sabes?), por que raio haveria a minha honra e a minha inteligência de se anularem por causa do ganha-pão do Cerejo?

    Estás mortinho para lançar a segunda mentira, o que se compreende perante o anti-clímax que a primeira gerou. Fogo à peça.
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    Eremita

    22.03.18

    Caríssimo,

    O clímax foi atingido no teu último comentário. É claro que há uma mentira. Deixa-me explicar-te de forma esquemática:
    1. Sócrates diz que a mãe herdou um património que corresponde a uma fortuna (vamos acreditar que é verdade, pois não é o que está em causa);
    2. Sócrates diz depois que a mãe, para todos os efeitos, ainda tem esse património, ois não sabe o que fazer com tanto prédio e andar.
    3. Parece que ainda não interiorizaste a escorregadela de teres respondido a uma pergunta que não foi a que formulei mas a que anteciparias de qualquer caluniador que recorresse ao artigo do Cerejo (o que te define, na verdade). Não foi o que fiz, como já te tentei explicar, pelo que é da tua inteira responsabilidade o mal que fazes à tua “honra” e “inteligência” sempre que mencionas o artigo do Cerejo partindo do princípio de que eu lá fui buscar mais do que um facto preciso, a saber: o património imobiliário da mãe de Sócrates na altura da entrevista. Se ainda não percebeste isto, da próxima vez faço um vídeo explicativo no Youtube em “stop motion” com figurinhas de plasticina.
    4. O património da mãe de Sócrates na altura da entrevista era um T1, uma garagem e a terça parte de uma casa numa aldeia em Trás-os-Montes. Esta lista não corresponde de maneira nenhuma à “fortuna” (nenhuma fortuna, a menos que seja um solar setecentista recuperado e com propriedade envolvente) de “prédios” (nenhum prédio) e “andares” (plural abusivo).
    5. Não há, assim, nenhuma correspondência entre o que Sócrates disse e a realidade. Isto não é, obviamente, suficiente para concluir que se tratou de uma mentira, mas não por causa dos argumentos absurdos que avanças (o contexto evocativo e digressivo e a “obrigação” de se tratar de uma pergunta objectiva a respeito do património em causa). Quanto ao contexto, Sócrates afirma explicitamente que o património da mãe se mantêm em 2013, como é óbvio, e surpreende-me que tenhas a lata de persistir na tanga de que estava a referir-se ao momento em que a mãe herdou os imóveis, quando “hoje” é a palavra decisiva e tive inclusive o cuidado de a destacar no início desta extraordinária troca de argumentos. Mas o clímax valupiano é mesmo o argumento de que apenas se mente em resposta a uma pergunta, o que nos obrigaria a transformar de modo radical a forma como interagimos uns com os outros.
    6. Concluir que Sócrates estava a mentir depende apenas de saber se ele tinha consciência da imprecisão e interesse em espalhá-la, se foi uma mentirinha que se explica por bazófia inocente ou se foi apenas um lapso, a manifestação de um atavismo de discurso vindo dos tempos em falava do património ainda existente da mãe. Eu teria tentado a defesa de Sócrates explorando este ângulo, porque afirmar que Sócrates sabia que estava a mentir pode ser, em tese, entendido como um processo de intenções. Em todo o caso, tendo em conta que Sócrates já andava a ser pressionado a explicar os seus rendimentos, não é excentricidade nenhuma concluir que pretendeu atribuir à fortuna da mãe o seu conforto financeiro e, assim sendo, Sócrates terá mentido.

    7. O teu desabafo “é só uma frase, jasus!” diz muito. Pediste-me uma mentira e eu dei-te uma mentira. Se quiseres uma segunda mentira, terás uma segunda mentira e assim sucessivamente, embora o que me esteja a deixar mesmo em pulgas é a discussão sobre o impacto do caso Sócrates nas legislativas de 2015. Podemos discutir este assunto e voltar depois a mais uma mentira? Só para desenjoar...

    Nota: só poderei voltar depois das 10 da noite porque tenho uma jornada de montado pela frente.

  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    22.03.18

    A frase, e ainda menos o contexto, não permite concluir apodícticamente que Sócrates pretende passar a ideia de estar a mãe na posse do património imobiliário recebido por herança na sua totalidade. Aliás, como não poderia estar e isso era conhecido, era factual. O uso do advérbio "hoje" não permite essa certeza porque a sua função é a de referenciar o estado subjectivo da mãe, sem ligação necessária ao referente "herança tal como recebida". É no presente do falante que existe uma entidade (a sua mãe) que está numa certa disposição (dúvida) em relação a um conjunto de objectos (bens imobiliários restantes), conjunto que pode ou não corresponder ao mesmo conjunto referido no início da frase (para os leitores). É ambíguo? Sim, indiscutivelmente. É uma mentira? Só para quem fizer questão de substituir a navalha de Occam por um processo de intenções.

    A questão revela exuberantemente a mesquinhez nascida da paixão política e da coerção social em acção. Dar como exemplo de "mentira" uma frase que, no máximo, revela o fluxo mental do entrevistado num exercício de memória equivale a nem sequer se saber o que é uma mentira. E isso, vindo de quem apareceu a agitar o "On Bullshit", é ainda mais bizarro se não for grotesco. Fico agora a pensar que, para além de não teres lido o artigo do Cerejo, também não leste o livrinho do Frankfurt. É que ele começa por explicar isso mesmo, a noção do que é uma mentira e de como ela se distingue de um discurso que abdica ou ignora a condição primeira da mentira: o conhecimento da verdade. Assim, tu, de forma ainda mais fanática do que o Cerejo, queres meter numa frase que fala de uma previsível verdade (ele está a relatar verdades incontestadas nesse passo, relativas à história da sua família) a preconceituosa mentira que criaste.

    De acordo com a tua definição de mentira, então a maior parte das transacções linguísticas entre seres humanos são mentiras, posto que se irão sujeitar a distorções caluniosas sem possibilidade de defesa. E o discurso dos deprimidos, dos paranóicos, dos equizofrénicos será, para ti, a prova provada de que o problema deles é serem muita mentirosos.

    O teu modo de argumentar alimenta-se quase que exclusivamente da "falácia do espantalho". Tem graça, dando para imitar, mas não puxa carroça.
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    Eremita

    23.03.18

    É talvez altura de descermos à terra. A frase é esta:

    “Quando o meu avô morreu, a minha mãe herdou uma fortuna, muitos prédios, andares, que ainda hoje ela não sabe o que fazer com eles”.

    Consideremos um cenário hipotético e esta outra frase, de estrutura idêntica à anterior, mas proferida por Pedro Passos Coelho:

    “Quando o meu avô morreu, a minha mãe herdou uma tal fortuna em dinheiro que ainda hoje ela não sabe o que fazer com ele.” Se, no seguimento de uma qualquer investigação, se viesse a descobrir que a mãe de Pedro Passos Coelho não tinha nenhuma fortuna em dinheiro, como classificarias a frase? O “estado subjectivo” da mãe de PPC, a sua “dúvida”, pressupõe a persistência da fortuna ou, utilizando uma formulação inspirada no teu jargão mistificador para impressionar criancinhas, a integridade espácio-temporal do referente nos seus constituintes essenciais. Para que fique claro, consideremos agora um outro cenário hipotético e a seguinte frase, desta vez proferida por Pacheco Pereira: “Quando o meu avô morreu, herdei a sua biblioteca, tantos livros que ainda hoje me emociono quando penso nisso”. Só neste caso, em contraste didáctico com o anterior, o “estado subjectivo” de Pacheco Pereira não nos permite concluir nada sobre o que aconteceu entretanto à biblioteca. Quem não percebe esta diferença é analfabeto funcional, estúpido ou aldrabão.

    A minha definição de mentira é a de toda a gente e parece que tem funcionado mais ou menos bem ao longo de milénios. És tu quem, para escapar a um simples acto de contrição que outros tão orgulhosos como tu já foram capazes de fazer, envergas as vestes de um professor de gramática faccioso e inventas a extraordinária regra de que só podemos concluir que alguém mente se a pessoa responde a uma pergunta. A propósito, não percebi a passagem sobre os esquizofrénicos. Se alguém sofre de uma doença mental que provoca uma distorção da realidade, não faz sentido falar-se em mentira ou verdade quanto ao que diz, mas confesso que me escapa o alcance do teu argumento.
    Curiosamente, desde o princípio desta conversa também me vem parecendo que usas o método do espantalho, embora no teu caso ganhe nuances de auto-retrato projectado. Vais até ao ponto de concluir que tenho uma obsessão por Sócrates, quando és tu que não apresenta outra razão de ser, pelo menos a julgar pelo que nos mostras nos teus escritos públicos. E insistes em tratar-me como um caluniador, quando o único caluniador ao longo desta conversa tens sido tu, com as insinuações patetas de que não li os artigos e obras que cito, mesmo depois de revelares que és tu quem não leu ou leu mal por viés muito revelador a simples pergunta que formulei - conto relembrar este facto as vezes que forem necessárias, Valupi. Praticas, de resto, a mais rasteira das calúnias, porque não há maneira de provar que estás errado e, nesse sentido, és pior do que o Correio da Manhã. Não tem obviamente importância nenhuma, até porque isto é praticamente uma conversa privada e sei que só o fazes para me irritares e desconcentrares, mas não deixa de ser curioso, vindo de quem se incomoda tanto com calúnias.

    Por seres um grande teórico da calúnia, para quem duvidar da palavra de Sócrates e apontar-lhe mentiras discursivas evidentes é caluniá-lo, pergunto-te se tens una opinião sobre as histórias inconsistentes que Sócrates (1) e Campos da Cunha (2,3) contam sobre a demissão deste em 2005, apenas alguns meses após ter tomado posse como ministro das finanças de Sócrates. Trata-se de uma situação interessante, pois não envolve a “indústria da calúnia” e assim te destrunfa. Ora, qual deve ser o comportamento cívico de um cidadão que leia a imprensa perante uma situação em que um de dois cidadãos é o caluniador? Não emitir nenhum juízo público, não tomar partido, deixar que a Justiça “faça o seu trabalho” e a verdade se revele daqui a uma década, ficando a pesar sobre uma pessoa honesta a insinuação de que é um mentiroso, ou tomar partido, tendo em conta os factos entretanto apurados, e expressar uma opinião pública formulada não em termos de certeza absoluta mas de probabilidade?

    Nota: disciplinei-me para não alimentar esta conversa mais do que uma vez por dia.

  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    23.03.18

    Concordo, o assunto à volta dessa frase parece esgotado. Pelo que parto para as alegações finais.

    Foste tu quem escolheu as armas e o terreno para o duelo. Agarraste no artigo do Cerejo e ficaste à espera que me juntasse à calúnia que te entusiasma tanto. Ora, estando em causa um político que foi atacado durante anos por ser "mentiroso", é cómico vires com uma pretensa mentira que exige um processo de intenções básico. Sem a distorção a martelo da locução e seu contexto, a acusação desmorona-se de imediato de tão pífia que é. Eis o que tens de apagar, do que se conhece factualmente, para continuares a caluniar:
    - Que ignoras qual foi o número de imóveis recebidos por herança pela mãe de Sócrates.
    - Que ignoras qual o valor financeiro desse conjunto imobiliário à época.
    - Que ignoras qual o destino dessa herança, seja quanto à venda de património, seja quanto à sua valorização ou desvalorização.
    - Que Sócrates está a dizer a verdade acerca da existência de uma herança recebida pela sua mãe.
    - Que Sócrates tem todo o direito a catalogar essa herança como "fortuna" sem necessidade de pedir licença a alguém para usar esse vocábulo.
    - Que Sócrates descreve uma realidade que conhece e que tu e os restantes caluniadores ignoram, a experiência da sua mãe.
    - Que Sócrates descreve uma situação verosímil, tal como comprova o Cerejo, pois ao tempo a sua mãe era proprietária de vários imóveis.
    - Que Sócrates não usa a entrevista para passar a mensagem de que a mãe mantém esse património imobiliário intacto posto que em diferentes passos da mesma entrevista - e logo na frase seguinte à que temos analisado, eu, e deturpado, tu - ele relata que a sua mãe vendeu uns apartamentos não sei onde, algures no tempo.
    - Que mesmo com o património imobiliário recebido por herança reduzido a três imóveis (a fazer fé nas informações do Cerejo), tal em nada invalida que a mãe tenha recebido uma herança com muitos mais imóveis e que os mesmos possam ser considerados como "fortuna" pela enorme maioria das pessoas, maiores de idade, na posse da sua lucidez.
    - Que estar a usar uma frase apenas ambígua e irrelevante seja para o que for que tenha relação com a personalidade ou situação judicial de Sócrates revela a tipologia obsessiva e calhordas de quem assim o persegue. Daí a necessidade de embrulhá-la num processo de intenções.

    Quanto ao Campos e Cunha, bute, vamos a isso. Do que entendo, já sabes quem é que diz a verdade e quem é que mente, né? Conta lá como chegaste à descoberta. Foi só por leres o que outros escreveram ou desta vez usaste os neurónios?
  • Imagem de perfil

    Eremita

    23.03.18

    Não vale tudo. Já expliquei várias vezes que pergunta te fiz, que difere da mensagem do artigo de Cerejo. Pensei que tinhas percebido, mas voltas sempre ao mesmo, talvez por não teres outro caminho. Muito do que tentas rebater no teu último comentário é irrelevante e não tem sequer a minha discordância. Jamais questionei o direito de Sócrates descrever o que a mãe herdou como uma fortuna - não seria inteligente, dada a definição lata de "fortuna", nem sequer muito honesto, porque a herança da mãe me pareceu efectivamente substancial e o artigo de Cerejo é tendencioso. Fui buscar ao artigo de Cerejo apenas a descrição do património imobiliário da mãe de Sócrates na altura da famosa entrevista, que não corresponde de forma alguma a uma fortuna (nem tu tiveste a lata de defender tal ideia) e é essa discrepância que apresento como uma mentira. Já se percebeu a tua posição, para mim inaceitável a todos os níveis, e podemos ficar por aqui porque não há consenso possível, mas escusas de ensaiar um remate que volta a introduzir ruído na conversa e argumentar como se eu tivesse escrito algo que não encontrarás aqui nem em lado nenhum. Se não tivesses a cabeça túrgida de preconceitos e o instinto de meter qualquer crítico de Sócrates na mesma amálgama, já teríamos passado a assuntos eventualmente mais enriquecedores.

    Sobre o relato que Sócrates e Campos e Cunha recordam de forma tão distinta, só os próprios saberão a verdade, mas creio que temos elementos objectivos para apostar em quem estará provavelmente a mentir, sim. A noção de probabilidade é importante e é bom que a interiorizes, pois estás viciado em visões maniqueístas e lidas mal com subtilezas, excepto as gramaticais. A pergunta que te fiz é se, antes de um veredicto judicial, nos devemos submeter ao silêncio quando duas pessoas apresentam versões distintas sobre o mesmo assunto ou, por outras palavras, se tomar partido e fazer uma apreciação em que um nos parece mais credível do que o outro é coisa de caluniador.
  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    23.03.18

    Não tenho qualquer dificuldade em entender o teu ponto de vista, está concentrado num único ponto. Este:

    "Fui buscar ao artigo de Cerejo apenas a descrição do património imobiliário da mãe de Sócrates na altura da famosa entrevista, que não corresponde de forma alguma a uma fortuna (nem tu tiveste a lata de defender tal ideia) e é essa discrepância que apresento como uma mentira."

    Primeiro, o facto de ser uma "discrepância" (valor e definição subjectivos) não faz dela necessariamente uma mentira. Porquê? Porque Sócrates não está obrigado a concordar com o teu critério, seja porque é burro, está ou estava maluco ou porque tal discrepância percebida faz parte da alteridade que nos rodeia. Nestas hipóteses, não estaria a mentir, apenas a apresentar uma opinião divergente da tua. Para o apanhares a mentir terias de ir buscar outra informação ausente seja da frase, seja da entrevista, seja até de tudo o que se possa atribuir a declarações suas. Terias de o apanhar a dizer que queria enganar a malta sugerindo que a mãe ainda estava na posse de uma "fortuna" quando ele, Sócrates, sabia perfeitamente bem que não passava de três espeluncas e que a senhora tinha a conta no banco a zeros. Só assim a tal frase faria prova de indício de tentativa de mentira, posto que até para mentira está fatalmente manca.

    Depois, e principalmente, a quantidade de casas restantes na posse da mãe e seu valor no mercado na altura da entrevista é irrelevante para aferires seja do património financeiro da senhora ao tempo, seja da história da tal "fortuna" recebida "in illo tempore". Ele pode ter recebido 20 casas (sei lá eu) que vendeu e transformou em activos financeiros que lhe tivessem garantido a manutenção da "fortuna" ou até que tivessem aumentado o seu tamanho. Nada sabes a esse respeito, nem que leias mil vezes o artigo do Cerejo. Logo, a tal "discrepância" a que te agarras por causa de uma certa expressão oral ambígua não pode, se quiseres mostrar honestidade intelectual, provar a existência de uma mentira. No máximo, calhando a tua veia caluniadora ou paranóide querer ir por aí, apenas podes dizer que a frase é suspeita, que é um eventual indício de mentira, e que a partir dela se devia questionar o sujeito e/ou investigar o assunto.

    E foi isso mesmo que o Cerejo fez, raios, ao pegar na frase e colocá-la como indício inescapável da tese que ele quis apresentar: a de não haver riqueza na sua família que explicasse a riqueza exibida no seu estilo de vida. Acontece que nem o Cerejo deve ser tomado como fonte de "verdade", por razões que me abstenho de apresentar por respeito para com a tua inteligência.

    A respeito do Campos e Cunha, não sei ao certo a que vens, mas começo por te recomendar que leias as declarações da comissão de inquérito parlamentar à CDG onde o assunto em causa foi debatido com exaustivo detalhe.

    Em relação às calúnias, é simples: uso a definição que lhes dá Maquiavel. Assim, pode-se falar sobre o que se quiser de suspeito, pode-se discordar do que se quiser e de quem se quiser, pode-se até jurar que um certo alvo político parece isto e aquilo. Nada disso será calunioso desde que se mantenha o respeito pela honra alheia calhando não haver factos para a macular.

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