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Ouriquense

09
Jan19

Uma promessa resoluta

Eremita

Ainda sou do tempo em que fazíamos promessas na passagem do ano. Agora já ninguém faz promessas, toda a gente apresenta "resoluções". É possível que a moda das "resoluções" resulte apenas da influência crescente da língua inglesa, mas contribui para uma laicização e desresponsabilização pelo discurso que frustram este vosso ateu supostamente progressista. A promessa pressupõe um castigo (divino, claro) pelo incumprimento. Pelo contrário, a resolução exprime apenas um propósito, uma decisão que não vincula - de resto, soa-me sempre a expressão fraca,  no plano moral e também no da convicção, pois remete para o universo da música, em que "resolver" é eliminar a tensão harmónica. Daí que no Ouriquense só haja promessas e castigos, embora estes excluam a autoflagelação no sentido literal, pois somos um blog que se pauta pela moderação e, essencialmente, de centro-esquerda com bolsas de conservadorismo. A propósito de centro-esquerda, a nossa grande promessa para 2019 é nunca escrever sobre política e as grandes polémicas da actualidade. Nunca. Nunca... Nunca (eis um daqueles raros instantes em que tenho pena de não saber alemão para não deixar dúvidas sobre esta minha vontade, pois desconfio que nenhuma outra língua captará tão bem o que me vai na alma, sobretudo quando penso numa daquelas palavras intermináveis resultantes de concatenação pronunciada em tom exclamativo e intrinsecamenre rude). Nem sequer deixarei aqui links para intervenções minhas noutros espaços quando o assunto for a actualidade política ou a polémica do momento. Se algum leitor nos apanhar a discutir o Sócrates com o Valupi, peço-lhe que me envergonhe em público recorrendo a todos os meios legais que tiver à sua disposição. 

 

Pela enésima vez, vamos restaurar o Ouriquense como universo da autobiografia fictícia, de um tempo e espaço inventados, da literatura, da snobeira intelectual, das "afinidades electivas", enfim, da busca de uma escrita que se aproxime da mais preciosa das nossas ilusões, que é a liberdade. Literatura russa e reconstrução em taipa. Muitas guitarras e bandolins, mas também um esporádico instrumento de sopro com a insuperável beleza da nota sustentada em crescendo e decrescendo sobre uma sequência de acordes. Muito onirismo com  Ricardo Chibanga e Nuno Salvação Barreto, mas sem qualquer vontade de entrar em polémicas sobre touradas, se isto isto não vos parecer irremediavelmente contraditório. Uma ocasional declaração de amor à minha L. e às minhas filhas. Também muito eu, eu, eu, mas sem voltar a escrever "eu". Parafraseando uma expressão que ouvi no magnífico podcast do Daniel Oliveira, o Ouriquense é um blog em que eu perderei leitores sempre.

 

Desejo um bom ano a todos.  E começo com uma afinidade. Evito as listas dos melhores ______ do ano pela ansiedade que me causam, mas abro uma excepção, porque o que hmbf nos oferece no seu belíssimo post sobre os livros de 2018 é profundamente inspirador. Eis outra paráfrase: Amem como hmbf ama, sonhem como hmbf sonha, pensem como hmbf pensa, vivam como hmbf vive, sintam como hmbf sente, sorriam como hmbf sorri, pois saibam que, chegando o dia ao fim,  domirão muito mais felizes . 

 

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