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Ouriquense

18
Mai18

Um postal de Tel Aviv

Judeu

Irmão,

O teu último email deixou-me preocupado. Disseste-me que os teus amigos da vila te criticaram por te dares comigo, um tipo que trocou Ourique por Israel. Para eles, Israel é como a "Alemanha nazi" ou o regime sul-africano do Apartheid. E tu nem tens os meus laços de sangue ao povo Judeu; para os teus amigos de esquerda, o teu filo-semitismo só pode radicar no pensamento político de direita. Como podes ser amigo de alguém que decidiu viver uns tempos num país que fez "a maior prisão a céu aberto do mundo"? Não adianta recordar que Cuba tem uma área 3 vezes superior à da Faixa de Gaza, porque beber um mojito em Havana foi e será sempre turismo, enquanto visitar Jerusalém nunca deixará de ser fascismo. Não adianta lembrar que Gaza também tem fronteira com o Egipto e que os países árabes usam os Palestinianos como carne para canhão. Não adianta sequer sugerir que o radicalismo do judeus ortodoxos é a face espelhada da indústria do martírio empreendida pelo Hamas, porque o Hamas faz "trabalho social" e para um esquerdista isso basta para o legitimar. Não adianta perguntar-lhes se a mãe palestiniana de um rapaz morto pelo exército israelita tem mais direito ao sofrimento do que o escritor David Grossman, cujo filho Uri morreu a lutar na guerra de 2006 entre Israel e o Líbano, nem explicar-lhes que tentas compensar o desconhecimento dos nomes dos palestianos com uma dose reforçada de empatia e nem assim encontras diferença no sofrimento desta mãe e deste pai. Não adianta, porque encontrar quem acusar é a forma mais simples de nos livramos de argumentos contraditórios.

 

Um dia alguém reconhecerá a força dos moderados que não cedem ao encanto das posições extremistas, mas não esperes nunca ver o teu rosto estampado numa T-shirt. Aqui em Tel Aviv, penso em ti ao cair do dia, enquanto contemplo o Mediterrâneo revolto e procuro alguma sincronia entre os movimentos ao vento da bandeira arco-íris dos LGBT e os quebrantos do chamamento do mulá, deixando-me embalar numa ilusão de cosmopolitismo pacífico. 

 

Abraço-te, eremita

 

PS: esta noite sonhei que o Estado Judaico tinha sido erguido a partir das ruínas de Dresden, logo a seguir à Segunda Grande Guerra e que hoje fazia fronteira com a Alemanha, a Polónia e a República Checa. Um Estado assente nos remorsos dos alemães e dos ocidentais. Retrospectivamente, parece-me que teria sido uma solução menos sangrenta do que a actual e um uso mais avisado desse instrumento tão poderoso que é a culpa, que agora anda ao Deus-dará. 

8 comentários

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    Judeu 18.05.2018

    Deixe o Eremita em paz e discuta comigo. Será que eu disse que Israel era uma democracia?
    A sua resposta é muito interessante. A mãe palestiniana tem mais direito ao sofrimento do que o Grossman porque o filho dela era uma criança... Mas alguém escreveu que o filho dela era uma criança? Os soldados israelitas só atiram nas crianças? A propósito, o filho do Grossman tinha 20 anos quando morreu.

    O que eu digo é que a oposição dentro de Israel ao governo de direita tem uma autoridade moral superior à da esquerda europeia. Mas a esquerda europeia não me deixa sequer entrar em Israel para visitar o Grossman e quem pensa como ele. Este foi o ponto de partida para o postal: os amiguinhos esquerdistas do Eremita querem condená-lo por se dar com um tipo que foi para Israel. Estes são os factos. O resto é preconceito seu.
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    caramelo 18.05.2018

    E quem falou em direito ao sofrimento de mães e pais pela perda de filhos, judeu? Nota que o sofrimento é o mesmo caso os filhos tenham 120 anos e morram de fim de vida na cama, e os pais tenham 200 anos. Por acaso, sim, estava a pensar naquela criança que morreu no outro dia, porque foi esse logo que me veio à cabeça, desculpa o lapso, não num jovem de 20 anos. Mas se preferes falar de jovens, mantenho: que é diferente ser jovem soldado a morrer na guerra. É que eu não brinco com sofrimentos e, neste caso, não estamos a falar de sofrimentos, mas de justiça e injustiça. Estou convencido que percebes perfeitamente o que estou a dizer.
    Mas a oposição à direita israelita tem uma superioridade moral maior do que a esquerda europeia? A sério? Está bem. Bom, sendo assim, mesmo que a esquerda europeia, sabe-se lá como, não te deixe entrar em Israel, não terás dificuldade em contactar o Grossman pela internet para saber o que pensa ele do que escreveste. Isto, enquanto a esquerda europeia não cortar os fios da internet entre a Europa e Israel.
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    Judeu 19.05.2018

    Percebo, mas não há grande diferença entre a circunstância de ter de cumprir o serviço militar obrigatório para lutar numa guerra decidida por outros e a circunstância de nascer na Faixa de Gaza e correr o risco elevado de ser morto pelo exército israelita. O contexto global destes dois casos é mais injusto para o palestiniano do que para o israelita, mas se ambos morrem não há diferença na tragédia e no sofrimento das suas famílias. Parece que concorda com esta interpretação, mas a sua posição é dúbia. Fico sem perceber por que motivo se lembrou logo da criança palestiniana quando referi o filho do Grossman. Uma possível explicação: como há uma assimetria gritante entre o poderio militar dos israelitas e os calhaus dos palestinianos, como no conflito morrem 4 palestinianos/árabes por cada israelita morto, as baixas israelitas não perturbam ninguém. Até os quase 4000 israelitas mortos em atentados terroristas de palestinianos, isto é, civis que morreram enquanto passeavam na rua, não causam grande comoção. Também só os refugiados palestinianos têm boa imprensa, em parte porque os estados árabes nunca os quiseram acolher. Do êxodo das centenas de milhares de judeus dos países árabes e muçulmanos para Israel é que ninguém fala, em parte porque Israel soube acolhê-los.

    O caramelo desconversa. Isto começou a propósito das críticas que o Eremita recebeu por se dar com um tipo (eu) que foi viver para Israel. Afinal, é ou não imoral visitar Israel? Para o Bloco, uma pessoa que visita Israel deve ser olhada com desdém. O resto é a eterna conversa sobre o conflito israelo-palestiniano e não me parece que estejamos em desacordo quanto à desumanidade com que Israel lida com as provocações do Hamas.
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    caramelo 19.05.2018

    Eu é que não percebo que não percebas que me tenha lembrado logo da criança. Não é natural que nos lembremos logo das coisas que nos provocam mais comoção, ainda por cima quando estão frescas? Ou achas que é deliberado friamente, a benefício do argumento? E continuo sem perceber que não percebas que, mesmo não falando de crianças, eu faça uma distinção entre morrer soldado na guerra e morrer a atirar calhaus a soldados (já sei, já sei que morrer numa guerra é sempre moralmente injusto, porque todas as guerras são decididas por outros, etc; isso é que é, por definição, desconversar).
    Dizes que os palestinianos têm boa imprensa, como se isso lhes servisse de alguma coisa. Boa imprensa têm também os rohinga, os curdos, os arménios, etc. e é o que vês, não lhes serve de grande coisa. Já agora, sim, admito que devia causar mais comoção as mortes dos israelitas civis por atentados dos palestinianos, esquecendo agora que os números são desiguais e que é perfeitamente humano, na parte mais fraca que tem isso de ser humano, lembrar que ainda anteontem morreram 60 palestinianos que se encontravam a manifestar-se e a atirar pedras e foram mortos por balas. Exatamente da mesma forma que devia causar mais comoção as mortes causadas pelas brigadas de rohinga que matam birmaneses, e que serve de argumento para o governo birmanês trate esse povo como trata. Certo. Pensaste nisso também?
    Vou deixar para depois a suposta radical falta de legitimidade da "esquerda europeia", o tal alegado desdém com que o BE olha que vai a Israel e o reconhecimento do Estado de Israel, etc, temas igualmente fascinantes.
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    Judeu 19.05.2018

    Na verdade, o que me interessa mesmo discutir são as questões que adiou. Não me parece que estejamos em desacordo quanto à desumanidade do exército israelita nos últimos dias ou em 2014, só para lembrar os acontecimentos mais recentes. Nem sequer me sinto confortável por lembrar agora que também morrem israelitas - é tique à Helena Matos. Recentrando: é imoral visitar Israel? Que autoridade moral tem o Bloco para criticar quem o faz? Faz sentido defender a solução dos dois estados e recusar pôr os pés em Israel? Podemos distinguir entre os actos dos cidadãos de Israel e os actos do Governo de Israel? O radicalismo do Hamas é bom para o povo palestiniano? Os estados árabes vizinhos de Israel são aliados dos palestinianos? E o Irão, é amigo do Hamas ou do povo palestiniano?
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    caramelo 20.05.2018

    Na verdade, eu respondi a questões que até ao seu último comentário lhe pareciam importantes, tanto assim que falou deles com algum vigor. Agora faz uma espécie de fade away e dispara questões como se fosse uma uzi. Sem problema. O Bloco impede-o de ir a Israel? E a Gaza, impede-o também de ir Gaza? É por o Bloco lhe ter tirado o passaporte que não consegue saber o que lá se passa? Mas esclareça-me, já agora, sobre o que disse o Bloco. Sinceramente, não sei. Mas queria recordar-lhe que boicotes a sério foi o que se passou com a África do Sul. Está lembrado? O seu raciocínio foi o mesmo? Também se preparam boicotes contra a Rússia no Mundial. Vai dizer a mesma coisa? Se podemos distinguir entre os actos dos cidadãos de Israel e os actos do Governo de Israel? Sim, e quem disse o contrário? Aliás, depende do que os cidadãos digam e façam a outros cidadãos, não é assim? As três últimas questões são de uma candura tocante. Se o radicalismo do Hamas é bom para o povo palestiniano? Não. Qual é a melhor forma de evitar o radicalismo do Hamas ou, sobretudo, que muitos palestinianos adiram a esse radicalismo? É ler-lhes crónicas do dr. João Carlos Espada... As duas últimas perguntas, então... vamos discutir geopolitica e politica de alianças?
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    Judeu 20.05.2018

    Não há nenhum "fade away". Eu até aturo toda a sua virtude, mas ao menos responda directamente à questão sem mais rendilhados. É ou não imoral ir a Israel? Sim ou Não? O caramelo recusaria ir a Israel como forma de mostrar o seu desagrado? É só isso que está em discussão. Se quiser usar este espaço para continuar a insinuar que se preocupa com os palestinianos de Gaza mais do que eu, disponha. Nem lhe perguntarei sob que formas se tem traduzido essa preocupação.

    Associei a censura ao Bloco porque os amigos do Eremita que o criticaram são do Bloco e o bloco exige a Israel o que não exige a mais nenhum país no mundo, num exemplo caricatural do que é o pensamento geopolítico da esquerda europeia que o caramelo tão bem representa.
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