Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

13
Mai17

Um fanático calculista


Eremita

Hoje, no Expresso, Henrique Raposo volta a esmagar o leitor com a sua fé e as suas citações da Bíblia, usando como pretexto a reconversão de Clara Ferreira Alves. Raposo não é um reconvertido, é um ateu que se converteu aos 35 anos. Como bom católico, o cronista dá provas de uma pungente humildade, ao diminuir a sua fé quando comparada com a fé de quem foi doutrinado desde a infância. Diz ele que lhe falta o "sexto sentido", que a sua fé é muito intelectualizada. Não surpreende. Raposo já tinha dado vários sinais de que chegou à fé por calculismo, para compor o seu boneco mediático, porque o catolicismo fica a matar num jovem conservador de origem humilde que procura o contraste extremo com o egoísmo e a arrogância ateístas da pós-modernidade. Num país culturalmente católico, que junta meio milhão de pessoas em Fátima e gera uma cobertura mediática só equivalente à de um Europeu ou Mundial de futebol, que ainda não aprendeu a separar bem a Igreja do Estado, que tem uma estação de rádio e uma universidade católicas (ambas influentes), intelectuais católicos a perorar de todos os púlpitos mediáticos, incluindo padres (como o estimável Anselmo Borges, o ubíquo e venerado Tolentino Mendonça, o simpático Bento Domingues ou o inenarrável* Gonçalo Portocarrero de Almada), e em que algumas das mais relevantes figuras públicas são católicos convictos (o Presidente da República e Fernando Santos, por exemplo), Raposo, que escreve no Expresso e fala na Renascença, consegue ver-se como um "cultural warrior" (expressão cara a Bill O'Reilly, ex-apresentador da Fox News) e imagina-se um herói ao afirmar-se em público como católico. Naturalmente, esta percepção explica-se pela perda de influência do catolicismo, que é inegável mas exacerbada por Raposo para criar uma fantasia conveniente, pudesse ele livrar-se do ridículo e da constatação de que é incapaz de aceitar mundividências diferentes da sua, por ele sempre caricaturadas em jeito de desafio.

 

Enfim, admito com embaraço o meu fascínio pelo pensamento esquemático e reactivo desta criatura. Há umas semanas, num longo texto, Raposo escreveu que não sente o apelo de Fátima e que a lógica contratual do pagamento de promessas o irrita, para depois nos dizer que aceita Fátima como uma porta de entrada no catolicismo que ele estima, que é o do Livro, sem lhe ocorrer que a lógica contratual sempre foi a essência de uma organização que publicita a vida eterna e inventou o confessionário, um guichet em se compra o alívio de consciência pela prática de uns rituais.

 

Talvez a grande diferença entre o reconvertido e o convertido não esteja no "sexto sentido". O reconvertido parece-me alguém pacificado com a sua decisão, enquanto o convertido, eventualmente pressionado pela síndrome do impostor, ganha uma insuportável pulsão evangelizadora. Que alguém explique a Henrique Raposo o seguinte: no peito dos ateus também bate um coração; eles têm angústias que vão além do materialismo e pressentem algum "mistério", mas percebem que seria contraproducente congregar gente em torno da ideia da inexistência de Deus, uma figura que lhes parece supérflua como mediador da solidariedade e empatia entre os homens, e facilmente manipulável por alguns em proveito próprio, pelo que não se deixam conquistar por explicações confortáveis e preferem carregar o peso da finitude da existência a abdicar da razão, sem que por isso sejam escravos de algum cientismo. Expliquem-lhe, mas sem grandes esperanças, pois o Raposo, deformado por anos de colunismo, não se dá bem com as nuances e continuará a exibir o seu catolicismo de conveniência e a sua biografia ficcionada.

 

* Sugestão de Xilre. 

 

 

5 comentários

Comentar post

Pesquisar

Pub e serviços

Screen Shot 2019-04-07 at 17.13.03.png

”Screen

Comentários recentes

  • Anónimo

    Epá, não me digam que o Eremita amuou, perdão!, co...

  • Anónimo

    Não percebo nada disto.

  • Anónimo

    Ah, só para unir as pontas. Depois disto é que sur...

  • Anónimo

    olha o escroque que dá pelo nome entre outros "rfc...

  • Anónimo

    Ó Eremita, pá, alegra-te também que tu que, afinal...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D