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Um diário trasladado

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14
Mai19

Um conselho de ministro (14)


Eremita

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"Há três formas de atingirem a imortalidade no futebol, rapazes, sem contar com as que são infames." Quem o disse chegaria a ministro, mas na altura aproximava-se dos nossos serões passados ao relento apenas com a segurança da sua eloquência. "A primeira não depende de vós: o talento. A segunda deve-se aos caprichos dos Deuses e à vossa persistência: a sorte. Às vezes basta estar no sítio certo na altura certa, mas não há aqui grande mensagem, apenas que não devem desistir. E há uma terceira via: criar um gesto novo". Ninguém o estava a perceber, mas ele continuou. "Têm acompanhado o Mundial, certo? Toda a gente comenta o toque de calcanhar do Sócrates, não é? Daqui a 20 anos ainda falarão dele mas só por causa do calcanhar". Tentou depois uma piada falhada que remetia para a Antiga Grécia e já não recordo, apressando-se logo a retomar a exposição: "O Brasil pode não ganhar o Tetra, o Sócrates pode até retirar-se amanhã. Haverá depois quem diga que o toque nem sequer é dele, o que só aumentará a sua fama. Haverá também quem note que o gesto não é um duplo mortal, pois qualquer um consegue fazer um passe de calcanhar, mas tais críticos não perceberão que ao banalizar o gesto só engrandecem o seu inventor. Descubram um gesto novo no campo, rapazes. Pode ser um jeito de fintar, um passe, qualquer coisa. Mas tem de ser útil, belo, dentro das regras e pouco circense, percebem? Não se lembrem de inclinar a cabeça e desatar a correr com a bola encaixada entre o ombro e uma das bochechas. Inventar é difícil, mas está mais dependente do vosso trabalho do que os outros caminhos para a imortalidade." Ninguém ousou comentar e o futuro ministro afastou-se tranquilamente.

 


O homem falara para uma roda de dez amigos. Nessa noite, já deitados, todos pensávamos em gestos originais e só um de nós divagava: "mas afinal, quais são as formas infames de atingir a imortalidade?" Nas semanas seguintes, sem que ninguém quisesse admiti-lo, passámos a jogar futebol experimental. Tudo se orientava para servir a criatividade. Um lançamento de linha lateral era um projecto. E as jogadas mais absurdas, os erros mais infantis, gozavam de um estado de graça de três segundos, na expectativa sincera de que o desastre se consertasse no último instante e emergisse como uma revelação. Os maus resultados não se fizeram esperar e as nossas várias equipas afundaram-se em todos os campeonatos de bairro. Se houvesse acta da reunião de carácter urgente talvez se lesse hoje: " ... foi aprovado por unanimidade que todas as ideias para novos gestos futebolísticos estão doravante sujeitas a aprovação por uma comissão avaliadora antes da sua execução nos jogos de treino e oficiais, sob pena de expulsão da equipa". É claro que não nos achando com competência e imparcialidade para integrar a tal comissão, fomos bater à porta do futuro ministro. Bem vistas as coisas, a crise tinha sido desencadeada por ele.


"Muito bem, podemos ir para o patamar. Deixem-me ir buscar a bola." E assim, aos Sábados de manhã, as nossas criações eram passadas a pente fino. Duas primeiras conclusões avassaladoras: quase nada do que inventávamos tinha utilidade prática e as poucas criações interessantes só eram originais entre ignorantes". O futuro ministro bem tentava ser simpático: "sim, J., excelente variação sobre o drible da vaca [passar a bola por um lado e contornar o adversário pelo outro], mas o Pelé fez isso ao Mazurkievicz, o guardião do Uruguai, em 1970, também sem tocar na bola. É uma finta magnífica, tão mágica que mesmo não tendo sido golo ainda hoje falamos dela". E depois ia a casa e voltava com livros abertos na página certa, para nos mostrar que falava a verdade." A nossa aprendizagem do acto criativo foi apenas isso: um banho de humildade. Após um mês daquelas sessões, regressámos ao campo com os truques do costume. À porta do futuro ministro só voltaria a tocar um miúdo, ainda ensimesmado com a tal questão. Nesse ano, recuperaríamos algumas posições nas tabelas e muitos anos depois aquele miúdo chegaria a assessor de um outro ministro.

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