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OURIQ

Um diário trasladado

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05
Jun17

Um cobarde ou talvez não


Eremita

[Publicado a 5.6.17; reformulado a 6.6.17]

 

Num Répliques recente (a partir do momento 9'23''), o intelectual Alain Finkielkraut mostrou-se surpreso por se ter descrito a tragédia de Manchester como um atentado "cobarde". Disse ele, fazendo lembrar um comentário de Bill Maher à coragem dos terroristas do 11 de Setembro, que morrer por uma causa não pode ser entendido como um gesto cobarde. Esta interpretação literal do epíteto "cobarde" é surpreendente num homem com a inteligência e cultura de Finkielkraut, pois parece-me óbvio que com a acusação de cobardia se pretende apenas frisar a extrema vulnerabilidade das vítimas deste atentado, muitas delas crianças e adolescentes. Ou talvez não surpreenda assim tanto, pois a acusação de cobardia tem uma carga negativa tão grande que até o veterano Finkelkraut, insuspeito de simpatias multiculturalistas e crítico de qualquer relativização esquerdista do terrorismo islamita, se sente incomodado quando acusam um terrorista de cobardia.

 

Obviamente, escrevo a pensar na polémica em torno do embaixador José Júlio Pereira Gomes, acusado de cobardia por Ana Gomes e Luciano Alvarez. É uma acusação tão penalizadora que todas as dúvidas devem ser esclarecidas. Para esse esclarecimento, as conclusões apressadas dos profissionais da indignação, prontos a queimar o diplomata, bem como os elogios genéricos feitos por amigos ou colegas, são irrelevantes. O que se pede é um relato rigoroso do que se passou em Timor há 18 anos e a divulgação dos documentos relevantes (passagens de diário não são prova de nada), pois o que entretanto é público não deixa ninguém esclarecido. E eu até sou o primeiro a reconhecer que o heroísmo do líder que põe em causa a segurança daqueles que dele dependem não é coisa nobre. Mas neste momento só queria mesmo saber o que aconteceu. 

"... não estando em causa o percurso profissional, falta a Pereira Gomes o perfil psicológico. (...) Tenho dúvidas de que o embaixador Pereira Gomes tenha capacidade para aguentar situações de grande pressão. Não inspira confiança e autoridade junto dos seus subordinados nos serviços de informações." Ana Gomes

Desde o primeiro contacto, Ian Martin insistiu em que deviam ser imediatamente evacuados, enquanto o embaixador Pereira Gomes, embora pressionado in loco, quis protelar a decisão de partir até ao último momento. Carlos Gaspar, Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-UNL).

 

Comecemos pela “ordem expressa” do Governo para a saída. Dizia o PÚBLICO em manchete no dia 10 de Setembro de 1999: “Observadores portugueses saem de Díli contra a vontade de Lisboa.” Na notícia, escrita por mim ainda em Timor na madrugada do dia da evacuação, relato os muitos esforços feitos pelo Governo português junto de Pereira Gomes, nomeadamente de António Guterres, nas 48 horas anteriores, para que a missão ficasse pelo menos até à chegada dos homens do Conselho de Segurança da ONU. Relato ainda discussões entre Pereira Gomes e António Gamito e Francisco Alegre, o diplomata júnior da missão, que sempre insistiu e tudo fez para que a missão não abandonasse Timor.

 

Diz a notícia: “Ontem, com a iminente retirada da ONU, ao princípio da noite em Díli, a missão portuguesa decidiu abandonar o território. Francisco Alegre disponibilizou-se para ficar. Às 5 da manhã em Díli, pouco antes de se iniciar a retirada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros voltou a insistir para que a missão ficasse. José Júlio Pereira Gomes argumentou contra a permanência, mas, perante a insistência do gabinete de Jaime Gama, acabou por dizer que havia um voluntário, precisamente Francisco Alegre. Francisco Alegre aceitou ficar, mas começou de imediato a ser acusado pelos seus colegas de missão de estar a dividir o grupo. Houve, nomeadamente, alguma chantagem emocional sobre Alegre, acusando-o de estar a pôr em causa a vida de pessoas. Às 5h45 de Díli, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em nome da unidade do grupo, aceitava que todos se retirassem. José Júlio Pereira Gomes justificava a partida considerando que a sua missão ‘terminou no dia em que foi divulgado o resultado do referendo’ e que ‘não estava a fazer nada em Timor-Leste porque estava sitiado na sede [da ONU].

(...)

Quanto ao resto (“timorenses – e seus familiares – que tinham trabalhado com a nossa missão de observação e connosco se tinham refugiado nas instalações da UNAMET foram evacuados [retirados] connosco e em virtude da nossa intervenção"), houve, de facto, na missão quem se preocupasse com eles, mas não foi nunca José Júlio Pereira Gomes. Nem no dia em que as casas dos observadores portugueses e a sede da missão foram atacadas, logo após a divulgação do resultado do referendo, nem nos dias em que esteve sitiado na missão da ONU... Luciano Alvarez, Público

 

Passámos a tarde debaixo de fogo e sob a ameaça iminente de uma invasão da casa pelas milícias. Dada a evidente falta de vontade do Governo indonésio para nos proteger e a completa incapacidade do Governo português em nos dar qualquer tipo de ajuda, o chefe da missão, depois de consultar Lisboa, conseguiu que a UNAMET assumisse o compromisso de nos receber na sua sede, um extenso edifício e terreno murado, onde havia cerca de uma centena de militares das Nações Unidas mais 100 funcionários civis. Foi para aí que nos dirigimos numa Díli já a arder e sob tiroteio, sendo recebidos à chegada por uma saraivada de tiros vindos da estrada próxima que fizeram várias vítimas entre os timorenses, muitos dos quais debandaram.

Ao longo dos dias seguintes, a cidade de Díli transformou-se num cemitério deserto e as dificuldades da UNAMET em conseguir aceder aos seus depósitos de comida e outras necessidades acentuaram-se ao ponto de se ter entrado em racionamento de água para beber. No dia 8 de Setembro, o chefe de missão da UNAMET comunicou à missão portuguesa que havia a possibilidade iminente de evacuar toda a gente para a Austrália, incluindo os timorenses, e que se não aproveitassem a boleia não haveria outra, nem haveria onde ficar, uma vez que a cidade de Díli estava a arder.

(...)

A escolha era, portanto, entre ficar em Díli sem ter onde e à mercê das milícias, ou aproveitar a evacuação do seu pessoal que a UNAMET ia levar a cabo. Compreende-se que o Governo de Lisboa tivesse preferido que alguém da missão portuguesa ficasse em Díli. Mas era evidente que a missão, enquanto tal, não poderia subsistir a uma evacuação da UNAMET.

Foi assim que o Governo português acabou por determinar a saída de toda a gente, a 10. A missão portuguesa foi evacuada juntamente com a UNAMET para Darwin, na Austrália, e levou consigo dezenas de timorenses do seu staff e respectivas famílias. Estes são os factos. Na minha opinião, não vejo que um chefe de missão responsável, que tinha a responsabilidade da segurança e vida de dezenas de pessoas, pudesse ter tomado outra decisão ou aconselhado Lisboa em sentido diferente. João Luís Mota de Campos, Público

 

A decisão sobre a evacuação da nossa missão foi complexa. Ponderaram-se diversos factores, entre os quais terão pesado, quer a situação no terreno tal como entendida pelo chefe e outros membros da missão, quer a constatação por quem de direito de que não haveria condições de segurança para a sua permanência, quer, como abaixo se verá, o destino dos timorenses ao serviço da nossa missão. Mas ao fim de um longo dia em que, com a preciosa ajuda do Francisco Ribeiro Menezes, estivemos em diálogo, por um lado com Jaime Gama, que se bem recordo estava inicialmente num Conselho da UE em Tamper, e por outro, não só com Pereira Gomes, como com diversos elementos da missão, para melhor avaliar o sentimento geral, transmitimos ao chefe da missão a autorização do Governo português para que deixasse Timor. Não é pois verdade que o tenha feito contrariando as instruções de Lisboa. Fernando d'Oliveira Neves, Público.

 

Sobre a primeira questão o próprio jornalista se contradiz ao dizer que “o Ministério dos Negócios Estrangeiros… aceitava que todos se retirassem”. Aquilo que digo no livro que publiquei e a que o jornalista chama mentira é a exacta verdade. Na madrugada do dia 10 de Setembro “recebo finalmente, cerca das 5 horas [da manhã], instruções. O Governo tinha decidido que devíamos sair”. Sim, aquilo que L. Alvarez, numa escolha criteriosa de palavras, refere como aceitar “que todos se retirassem” foram “instruções”, “ordem expressa” para sair. Ordem essa que foi decidida ao mais alto nível do Estado Português. 

(...)

Para que os timorenses, nossos funcionários, pudessem sair nesse dia foi necessário incluí-los numa lista e negociar a sua saída com a Indonésia e, mais difícil ainda, com a Austrália que, naquele momento, não queria receber refugiados timorenses. L. Alvarez não diz quem elaborou a lista e acompanhou os timorenses às entrevistas individuais com o funcionário consular australiano que tentava justamente assegurar-se que o “esquema” não era “abusado” por outros timorenses e de que apenas os nossos funcionários saíam. Pois foi o António Gamito e eu. José Júlio Pereira Gomes, Público, respondendo a Luciano Alvarez. 

O senhor embaixador estava em Lisboa e eu estava em Díli e assisti às fúrias e aos gritos que José Júlio Pereira Gomes soltava sempre que de Portugal lhe diziam que tinha de ficar em Timor. E sabe o que me espanta? É que, havendo par aí duas dezenas de testemunhas que assistiram a tudo isto no local, alguém tenha o desplante de dizer que o meu relato é mentira.

Claro que houve uma ordem para sair, mas a questão não é essa. A questão é porque houve essa ordem, quando essa não era a vontade do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e do primeiro-ministro, que queriam que a missão ficasse em Timor enquanto Ian Martin, chefe da missão da ONU, lá permanecesse. E essa ordem foi dada porque José Júlio Pereira Gomes gritava ao telefone, na frente de todos os que lá estávamos, com quem falava no MNE em Lisboa, que se ficassem iriam todos morrer.

(...)

Recordo, aliás, o que o embaixador António Franco, na altura chefe da Casa Civil do então Presidente Jorge Sampaio, relata no volume II da biografia de Sampaio da autoria de José Pedro Castanheira. Página 845: “António Franco e Carlos Gaspar também se ‘mudam’ para Belém. ‘Assisti ao que é o sentido de dever de um Presidente’, testemunha o chefe da Casa Civil. ‘É um caso exemplar de uma grande cooperação institucional ao mais alto nível do Estado: Presidente, primeiro-ministro e ministro dos Estrangeiros. As relações do Jorge com o Guterres e o Gama melhoraram muito nessa altura, trabalharam juntos, noites e noites, e Belém foi o ‘noyau’ da actuação diplomática portuguesa. Guterres teve uma conduta absolutamente diferente da que teve com Macau (onde raramente se meteu). Nunca o vi tão furioso, como quanto a alguns dos nossos observadores diplomáticos no terreno que, cercados pelas milícias juntamente com centenas de timorenses, não cessavam de reclamar por uma pronta evacuação.’

(...)

Quanto à questão dos funcionários timorenses que trabalhavam para a missão portuguesa, mantenho tudo o que disse: houve, de facto, na missão quem se preocupasse com eles, mas não foi nunca José Júlio Pereira Gomes. Só se começou a “preocupar” quando pressionado por Ana Gomes desde Jacarta e quando os jornalistas o começaram a questionar sobre o assunto. Luciano Alvarez, em resposta a Pereira Gomes.

  

 

 

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