Tribo
Eremita
O início de Comunidade, o famoso texto de Luiz Pacheco, aqui num magnífico pdf gratuito com ilustrações de Cruzeiro Seixas, deixa uma impressão forte e duradoura. Não tenho pachorra para o culto das frases de abertura, por faltar a uma frase a complexidade necessária que elimine a dúvida de que a alegada qualidade não seja fruto de acasos ou caprichos, de quem a escreveu ou de quem a propagandeia, e também me parecer que serve sobretudo para alimentar vaidades de salão entre gente sem capacidades de memorização extraordinárias. "Todas as famílias feliz...", poupem-me. "Chamem-me Ism...", basta! Mas um arranque memorável, feito de umas quantas primeiras páginas, apenas a primeira página ou até simplesmente um gordo parágrafo inicial, nenhuma infinidade de macacos a martelar teclados conseguiria reproduzir e a dificuldade de memorização de tais trechos de prosa para o leitor comum protege-os da citação fácil e ilegítima. Vivas ainda para os arranques de Para Sempre, de Vergílio Ferreira, O Que Diz Molero, de Dinis Machado, A Jangada de Pedra, de Saramago ou O Homem sem Qualidades, de Musil, cadências e imagens que ficaram comigo, impossíveis de reproduzir num exercício de memória, mas reconhecíveis como os cheiros das nossas vidas. Poderia lembrar outras e cada um terá as suas, naturalmente.
Da frase, "Eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme" (Comunidade), retiro apenas a palavra "tribo". Não me debaterei contra a morte, seria de uma presunção ridícula, embora alimente a esperança narcísica de que as minhas filhas lerão o que escrevi sobre elas já depois de as ter deixado. Debato-me - e muito - com o tom a empregar, as regras que devo anunciar de antemão para evitar aborrecimentos e preservar a liberdade na escrita. Mas não tenho ilusões. Não serei o Karl Ove Knausgård do Baixo-Alentejo, pois farei as concessões necessárias para não expor a intimidade da minha família. Ainda assim, preciso de regras explícitas:
1. Não haverá fotografias, nem sequer aquelas que apenas mostram pezinhos.
2. Não haverá caixa de comentários, nem responderei a qualquer pergunta que conhecidos (incluindo a família) ou estranhos me coloquem sobre o que vou escrevendo nesta série.
3. A série obedece ao princípio da trasladação que rege o Ouriquense, a saber, a família vive em Ourique, apesar de vivermos noutro lugar.
O risco é grande, mas acumulo demasiados posts na cabeça.
