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Ouriquense

09
Nov18

Touros: o velcro e o veludo

Eremita

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Não frequento praças de touros, não acompanho o mundo tauromáquico e percebo que a adopção absoluta do argumento do valor da tradição nos obrigaria a tolerar práticas bárbaras como a mutilação genital feminina. Porém, sou incapaz de me juntar aos que gritam pelo fim das touradas e creio que esta minha limitação decorre da tradição, não enquanto argumento racional mas como memória afectiva, ainda que mais por associação a uma infância feliz do que por um gosto genuíno e vivo pela tourada. Não por acaso, uma das personagens ficcícias do Ouriquense é o matador Ricardo Chibanga, que associo a um instante fundador deste blog, e em tempos estive para cometer a loucura de gastar parte das minhas economias na compra de um cartaz que anuncia aquela que viria a ser a última corrida de Manolete. É evidente que a génese de um gosto ou da tolerância a uma prática que implica o sofrimento de um animal não pode valer como argumento numa discussão, mas seria curto que servisse apenas de justificação para desencorajar quem viesse com vontade de criticar a minha falta de militância em prol da civilização.

 

As touradas que conhecemos vão acabar, é só uma questão de tempo. Espectáculos que dependem do sofrimento de um touro não são compatíveis com a evolução dos direitos dos animais. A única dúvida é se a versão da corrida sem sangue bovino inventada pelos emigrantes portugueses na América do Norte chegará a Portugal. Nos EUA e no Canadá, o touro não sangra pois tem uma protecção de velcro no dorso onde os cavaleiros e matadores colam bandarilhas com pontas de tecido. Trata-se de uma solução engenhosa que tem a vantagem de desmascarar as convicções em confronto (parto do princípio de que uma solução com velcro realmente eficaz é possível, pois a actual parece não funcionar bem). Porque se na festa o sofrimento do animal não é essencial, contando apenas a arte do toureiro, então nenhuma diferença haverá entre a corrida com bandarilhas que ferem a carne e as que ficam presas no velro. Mas que aficionado tolerará os touros com velcro? Para Manuel Alegre, seria seguramente um número circense e uma capitulação diante da “ditadura do gosto”. Inversamente, se o sofrimento do animal é apenas o que move quem se opõe às touradas, o velcro deveria demovê-los. Mas quem nas franjas destes movimentos antropomorfiza os animais e - iludido ou esclarecido - se afirma anti-especista continuaria a ver a tourada como um espectáculo indigno que humilha o touro.

 

A luta com punhos nus deu lugar ao boxe com luvas. As artes marciais, bem como todos os desportos, são formas amenizadas de combate. Se a ritualização da violência precede o aparecimento do homem, chegando a ser praticada por répteis, esse será o destino mais provável da tourada. Civilizar a barbárie pode resultar em fantochadas como o Wrestling, um teatro acrobático preenchido por personalidades excessivas na jactância e nos esteróides anabolizantes, mas quem negará que esse mundo é melhor do que o coliseu dos romanos?

 

Dado o braço-de-ferro cultural a que assistimos, o tom da acusações, e tendo em conta que uma das mãos está prestes a tocar na mesa, é provável que a tourada acabe mesmo. O touro bravo será então salvo da extinção à custa de subsídios estatais que o manterão em santuários artificialmente selvagens. Passadas duas ou três gerações e apaziguados os ânimos, alguém se lembrará de recuperar a tourada na sua forma ritualizada. A tourada terá de morrer porque a sua transformação não é possível sem um renascimento. Nem todas as revoluções são de veludo, inclusive as que dependem do velcro.

 

 

 

 

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