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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

29
Ago20

Ferros curtos


Vasco M. Barreto

Tullianas

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Iniciamos* a rentrée a oferecer pancada às pessoas com quem mais gostamos de embirrar. Embirrar por atacado é apenas uma tentativa de libertar o Ouriq da pulsão da actualidade, para que possamos cumprir o verdadeiro propósito deste diário trasladado, infelizmente tão desvirtuado nos últimos anos. 

Uma vedeta do jornalismo de opinião, que aparenta viver exclusivamente dos proventos adquiridos nessa actividade, optou pelo sensacionalismo ressabiado para servir ao público e aos seus patrões [escreveu que a Champions podia ter corrido muito mai]. (...) ... os espectaculares casos de Israel, Croácia e Nova Zelândia, países dados como referência de excelência na gestão da epidemia e sua contenção ao mínimo possível, revelam que a dinâmica da propagação do contágio ultrapassa qualquer capacidade dos governos seja em que geografia ou sociedade for. (...) ... estar na plateia a apupar os governantes porque os números são assim ou assado é uma prática que pode ser financeira e psicologicamente muito consoladora mas que no plano cívico e ético fica como uma pulhice. Valupi

Já perdi a conta ao número de vezes que Valupi menciona a fonte de provento dos seus alvos. Para ele, ganhar a vida a fazer opinião parece ser um crime. É muito provável que o Valupi também ganhe a vida a escrever e dar opiniões, o que torna a sua obsessão ainda mais misteriosa. Mas a citação vale sobretudo pelo seu recorrente registo "Jorge Coelho". O Valupi adora bater nos "pulhas", que ele define como qualquer criatura que viole o Estado de Direito mas o leitor quase sempre identifica como qualquer criatura que critique o PS. A crítica é ainda estruturalmente descabida, como o próprio Valupi se encarrega de nos explicar, pois se ele pensa mesmo que  "a dinâmica da propagação do contágio ultrapassa qualquer capacidade dos governos ", então a Champions correu bem porque tivemos sorte e não mérito ou visão, sendo descabido criticar a posteriori quem avisou que era arriscado organizar o evento. 

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Deixei de comentar os textos obsessivos de Henrique Pereira Santos sobre epidemiologia e só se fosse louco romperia essa promessa, mas este comentário sobre a rentrée escolar interessa-me como cidadão e parte duplamente interessada (professor e pai). Que não sobre nenhuma dúvida: concordo em absoluto com HPS sobre a necessidade de voltar à normalidade, o que passa por retomar o ensino presencial. É apenas a argumentação que me parece um desastre. Repare-se nesta passagem:

Algumas dessas patologias [dos professores que pertencerão a grupos de riscos] não dependem de comportamentos individuais, mas duas das mais espalhadas, o excesso de peso e a tensão alta, são, em grande medida, controláveis por comportamentos individuais, isto é, quem se sinta em risco porque tem mais de sessenta anos e a tensão alta ou excesso de peso pode, na maior parte dos casos (não em todos, é certo) reduzir esse risco adoptando comportamentos individuais que diminuam o seu peso ou a sua tensão arterial. HPS

Sabemos que os liberais têm um entendimento religioso da iniciativa individual. Alguém pobre e gordo é um preguiçoso dominado pela gula. O liberal imagina a sociedade como uma corrida de carros com a mesma mecânica e partindo todos da pole position, reflectindo a classificação final o mérito do condutor (poderá ainda reflectir a sorte e o azar, mas não compliquemos). Faço uma caricatura da prosa de HPS, que vem com uns paninhos quentes, mas preservo-lhe a essência. A passagem não é apenas bizarra por fazer da obesidade um pecado; como nem HPS deve ser capaz de imaginar alguém a diminuir de peso a 3 semanas do início das aulas, a sua proposta soa a um verdadeiro um castigo. Mesmo dando de barato que as ideias de autonomia, iniciativa individual e livre arbítrio são sempre estruturantes, isto é, até se forem mentiras, faz impressão que alguém com leitura como HPS passe ao lado do que se tem aprendido sobre a obesidade nas últimas décadas. Um estudo com gémeos falsos e gémeos verdadeiros concluiu que 77% da variação de peso entre crianças se explica por diferenças genéticas. Como se explica no artigo que cito, a imprensa raramente percebe este valor. O estudo não conclui que a genética é mais determinante do que o ambiente para a obesidade, mostra apenas que a genética explica a maior parte da variação dentro de uma mesma população; obviamente, a genética não explica o aumento da obesidade ao longo das últimas décadas nas sociedades mais ricas, que se atribui a mudanças nos hábitos alimentares das populações. Mas se já é complicado destrinçar a genética do meio e explicar esta destrinça, concluir que alguém é culpado por ser gordo é uma generalização injusta, havendo casos e casos. Não pretendo iniciar mais uma discussão com HPS, pois o tema presta-se a cadeias intermináveis de reparos sucessivos e declaro-me demasiado perto da minha esperança de vida para aturar a retórica tiki-taka de HPS. Que fique apenas no ar a ideia de que a obesidade tem múltiplas causas, incluindo as genéticas e as ambientais, e que as implicações políticas insinuadas por HPS nos levariam a uma sociedade em que a maioria ficaria indignada com o gasto de dinheiro público no tratamento de doenças que resultam em grande medida de opções pessoais, como o cancro do pulmão provocado pelo tabagismo. Felizmente, não vivemos ainda nessa sociedade. 

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Vitor Cunha insiste na ideia de que "a vacina" (há dezenas de vacinas em desenvolvimento) é "na melhor das hipóteses" um placebo e, sem motivo aparente que não a oportunidade para uma piada gasta sobre vírus de computadores, inclui Bill Gates na sua verborreia libertária sem qualquer nexo, como faria um qualquer maluquinho fã de teorias da conspiração. Se a defesa da liberdade dependesse de patetas vaidosos como Vitor Cunha, estaríamos feitos. 

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João Miguel Tavares deu-nos um opus de três crónicas sobre a corrupção em Portugal. Ninguém espera de JMT um trabalho académico, mas quando se investe três crónicas no tema, esperamos encontrar uma ideia nova e alguma contextualização sobre os níveis de corrupção em Portugal, nomeadamente a sua evolução e uma análise comparada com outros países. Mas JMT não fez nada disso, limitou-se a servir uma longa refeição requentada exclusivamente centrada nos partidos políticos, sabendo-se que a corrupção é muito mais tentacular, estutural e sub-reptícia do que aqueles óbvios ululantes que são as portas giratórias entre o Estado e as empresas. Serviu-lhe para despachar serviço enquanto a rentrée política e o regresso às aulas e ao trabalho não voltam a assegurar temas frescos. Serviu-lhe também para se autopromover como o inimigo número um dos corruptos em Portugal. Espelho meu, espelho meu... Querem ler algo mais substancial e menos narcísico sobre a corrupção? Leiam o Luís de Sousa

* Nuno Salvação Barreto, o nosso censor, enviou-me esta nota: "Evita o plural majestático. Quando usado por alguém abaixo de imperador, cai sempre mal, pois só não é uma cobardia camuflada de cortesia ou modéstia quando o caso é do foro clínico ou um exemplo de megalomania. Também não percebi a ilustração e o nome da série. Tullianas? Tullius Detritus é um intriguista que promove a discórdia e não está interessado no apuramento da verdade, nem em assegurar a salubridade do espaço público! 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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