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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

05
Set20

Regressam de Tróia


Eremita

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O regresso a casa das minhas mulheres inundou-me de felicidade e paz ainda elas estavam apenas a arrancar da península. Nestas alturas, vou sempre buscar o ano de 2011, o segundo ano mais infeliz da minha vida a seguir a 2003. 2003 foi demasiado horrível para recordar com proveito, mas 2011, um ano que vivi marinado em melancolia, solidão e desesperança, funciona hoje como um trauma benigno cuja lembrança intensifica as alegrias que vou experimentando por antecipação, como o regresso das minhas mulheres a Ourique, após mais alguns dias em Tróia, de onde eu vim mais cedo porque o montado — repito-me — não dá tréguas. Descansem, não irei aos Gregos mais do que já fui, mas permitam-me uma imagem batida e pretensiosa sobre o tempo psicológico: o instante presente forjado que se alimenta apenas de passado e futuro é a intemporalidade possível. 

 

 

 

 

 

 

30
Jun20

Uma conversa sobre Camus


Eremita

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Controlo-me para evitar que o Ouriq se transforme num magazine cultural, porque não é o objectivo e jamais conseguiria chegar ao nível de uma Maria Popova, mas esta conversa sobre Camus e o inacabado Le Premier Homme  — que ainda escuto ao escrever estas linhas — é extraordinária. Se houver francófonos por aí,  aproveitem, a menos que sejam sartrianos ou a figura do pai vos seja indiferente.  

 

 

 

27
Dez19

Das insuficiências do ateísmo


Eremita

Uma criança de quatro anos não perde o sono perante a impossibilidade do Pai Natal. É a finitude da vida que a inquieta e a deixa num pranto inconsolável. A ideia da morte para quem quase não tem a noção do tempo só pode ser a da morte iminente. Perguntava-me ela se iria morrer amanhã e se as pessoas deixariam de morrer se ela se portasse bem. Como se explica que não é assim que o mundo funciona? Convertendo o tempo em distância, fazendo nós num cordel? Usando o número de passos no jogo da macaca? Um passo para o tempo vivido e 20 passos para o tempo que falta viver? Mas será isto solução, se até eu sinto que ela mal começou a viver e já lhe sobram poucos passos? Fico algo ansioso com estes exercícios, começo a pensar que 20 passos é distância que remete para um duelo de pistolas.

Saiu-me mal a fala, um carpe diem com referências ao Rei Leão de remate pouco convicto. Nunca invejei tanto os católicos como esta noite, nem me senti tão incapaz e ridículo. Mentimos à criança sobre o Pai Natal com requintes teatrais para dar substância à mentira, mas dizemos-lhe a verdade sobre a morte. Oh, oh, oh, haverá decisão mais indefensável? Um compromisso absoluto com a verdade seria menos absurdo, ainda que ligeiramente mais cruel. Porque se é para mentir, mais valia mentir duas vezes. E se a lógica fosse a de poupar em mentiras, mais valia sacrificar o barbudo por uma ilusão de eternidade.

Nas últimas décadas, o Pai Natal não se tornou hegemónico entre nós apenas por interesses comerciais, pois foi também um instrumento de secularização. Com esta lavagem cerebral, deitou-se fora o menino Jesus com a água do banho. Pela primeira vez desde há uns bons 30 anos, Cristo faz-me falta e não há Dawkins que me valha. Se o cristianismo é "platonismo para as massas", ou seja, uma simplificação ou infantilização, talvez um catolicismo soft, com as narrativas do Novo Testamento, mas sem o medo e a culpa, sirva melhor às crianças do que a Disney, pois vão sempre a tempo de um desmame autónomo na adolescência.   

Adenda a 31.12.2019: o The New York Times destacou quatro livros infantis sobre a morte. São todos religion free, como convém aos leitores progressistas, mas nenhum dos autores teve a coragem de tratar a morte da criança que lê ou ouve a história. Quem morre é um velhinho ou um bicho e esta fuga ilustra na perfeição o problema que fingem abordar.

29
Nov19

A possibilidade de uma ruiva


Eremita

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Amor, vou pintar o cabelo, ok?

E de repente, sem comprometer a fidelidade, dormir com uma ruiva ganha uma probabilidade talvez não inferior à que teria tido nos meus melhores anos se tivesse feito inter-rail na Escócia, uma probabildade seguramente superior à que levou o seleccionador José Augusto Torres, no já longínquo 1985, a proferir uma frase que não era sequer dele, mas passou a ser. Deste-nos o milagre de Estugarda, Senhor. Peço-te agora muito menos, apenas que vicies os dados no momento de uma escolha. Até chegar a casa, a expectativa será crescente e também eu irei dizendo ao longo do dia, mas como um murmúrio: "deixem-me sonhar".

16
Out19

Disney, Cristo e Nietzsche


Eremita

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Há dois dias, a M. percebeu que vai morrer. Não presenciei o momento, mas a L. contou-me que foi uma verdadeira epifania. A J. também assistiu e deve ter percebido pela primeira vez que não é eterna; se não se pôs a chorar, foi porque a mana já chorava e ela entendeu — com notável estoicismo⁠ — que lhe competia ficar calada e quieta. Na manhã seguinte, na cozinha, só na minha presença, a M. voltou a expressar o seu desagrado, embora sem chorar. 

O cristianismo tende a ser desprezado como uma espécie de platonismo para as massas. Os ateus praticantes vão muito mais longe, pois entendem-no como uma grande aldrabice. Mas que jeito daria Jesus para apaziguar uma pequena alma no momento em que se apercebe de que vai morrer. Nós, como pais ateus, dissemos-lhe a verdade, apenas jogando com a ideia de tempo que as miúdas têm, ou seja, tentando fazer da vaga noção de finitude uma quase eternidade. Este episódio fez-me sentir o que já sabia: as famílias católicas têm um trunfo precioso.

Continua

 

04
Out19

Liberdade


Eremita

Numa outra vida, antes de Ourique, moderei um debate com Mário Centeno e outro com Joaquim Miranda Sarmento. o Centeno de Rio. Curiosamente, só me lembrei disto há instantes. Ai que prazer. Adoro Ourique, continuo a não perceber nada de finanças, e se, em rigor, abdiquei da biblioteca, também afirmo que o melhor do mundo são as crianças, nomeadamente quando dou os beijos e abraços de boa noite nas minhas filhas com cada uma já na sua caminha, o que me dá uma convicção que talvez faltasse ao poeta, mas— enfim — não quero parecer o Louçã.

02
Out19

A chegada das maminhas


Eremita

A chegada das maminhas foi saudada pela irmã mais velha e a mãe, mas as pequeninas não perceberam nada, apesar do seu interesse constante por maminhas, inclusive as do pai, que naturalmente se auto-excluiu daquele ritual de passagem espontâneo, só não saindo da sala porque desaparecer seria fazer-se mais notado,  e ali, na mesa da sala com ângulo de visão para a sala onde as manas cúmplices riam, sem poder partilhar o que lhe ia na mente com as pequeninas ou sequer a mulher, todas ainda na mesa, teve tempo para se surpreender com uma decisão que, de tão definitiva e bem formada, só podia ter sido já pensada e estaria guardada para quando houvesse provas de namoro carnal, sem ter então antecipado que por vezes o corpo a toma as rédeas da vida: assim, com a chegada das maminhas, nunca mais voltaria a acabar a comida que a jovem adolescente deixa no prato. Por sorte, nessa manhã havia terminado uma sandes de queijo banal e não restos mais pecaminosos, como fruta ou marisco, e o conforto dessa lembrança era prova de que a sua exclusão daquele ritual tinha uma dimensão retroactiva. No dia seguinte, lembrou-se de que a macroeconomia roubou a palavra mais adequada para descrever o que se passara com ele na véspera: fora um ajustamento.

29
Set19

Mimetismos


Eremita

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Pesa-me educar as miúdas em Ourique, privando-as de civilização.  Por isso, instruí o moço de recados para que as acompanhe em incursões à capital. Hoje levou-as ao Oceanário e trouxe um total de 64 minutos de gravações, curtos vídeos em que elas, coladas aos vidros dos diferentes aquários, vão comentando a vida animal com grande entusiasmo. Mas o melhor aconteceu ao jantar, já de novo em Ourique. Terminada a sobremesa, puseram-se a brincar com um cacho já quase sem uvas, imaginando que era um dragão-marinho-folhoso, como os que viram de tarde. A Evolução precisou de milhões de anos para produzir o espectacular caso de mimetismo em que um peixe faz de planta e às minhas pequenas bastou um instante para irem de outra planta ao mesmo peixe. Não, não as faz geniais, é só mais um exemplo da sua ligação aos bichos, que por ser tão forte ainda transformará o surpreendido pai num junguiano ou criatura ainda mais mística.

05
Ago19

Sportinguista q.b.


Eremita

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Dedicado ao meu irmão 

A tortura permite avaliar com inigualável rigor aquilo que realmente importa. Ontem, resisti até ao segundo golo do Benfica, mudando a seguir de canal para me alienar diante de uma espécie de Jogos Sem Fronteiras à americana chamado American Ninja Warriors. Assim se prova que o meu sportinguismo não vale um chavo. Em minha defesa, apenas posso prometer que o meu instinto de justiça chegará para me lembrar destas desistências nos momentos de derrota se o Sporting vencer algum título importante, ou seja, nesse hipotético dia espero comemorar apenas com moderação pois a mais não terei direito. Apesar do adepto Benfiquista, essa criatura mimada, sei que o clubismo é um investimento emocional de soma zero ou negativa, e como aprendi a poupar nas desilusões com o Sporting, mesmo duas décadas não chegaram para acumular um saldo que dê para grandes euforias. Mas o que realmente me tira o sono, tal o receio de envergonhar as miúdas e o nome, é a possibilidade de não me comportar com outra tenacidade quando for outra a tortura. É a dúvida que persiste em quem nunca foi posto à prova e já viu documentários: falarias ou não?

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