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Ouriquense

17
Abr18

O misticismo

Eremita

O misticismo é fundamental, mas apenas depois de o sistema de rega da horta estar de novo a funcionar. Só que este sentido natural das prioridades não resolve o problema. Quando voltar a ter tempo, regressarei ao tema. De momento, registo apenas uma surpresa: como a paternidade acorda tantas questões que tinha por resolvidas, meus Deuses!

 

Seven Types of Atheism is an impressively erudite work, ranging from the Gnostics to Joseph Conrad, St Augustine to Bertrand Russell. In the end, it settles for a brand of atheism that finds enough mystery in the material world itself without needing to supplement it with a higher one. Yet this, too, is just as much a throwback to the Victorian age as Dawkins’s evangelical campaign against religious evangelism. Authors such as George Eliot, reeling from the death of God, took solace in the unfathomable intricacies of the universe. Gray condemns secular humanism as the continuation of religion by other means, but his own faith in some vague, inexplicable enigma beyond the material is open to exactly the same. Terry Eagleton sobre o último livro de John Gray, The Guardian

 

"Deus é um problema para todos, não é só uma questão para os não-crentes, Deus também é uma questão para os crentes. Deus é uma questão que nos une, não é uma questão que nos separa: Deus está em todos, crentes e não-crentes". Tolentino Mendonça, Público

15
Fev18

Ostras no deserto

Eremita

Hoje, ao acordar, a M. rejeitou o biberão com leite. Protestou bastante e demorei algum tempo a perceber que queria um biberão com rosca verde e não amarela. A cada dia que passa, há uma nova exigência. Tenho confirmado a noção de que os bebés e as crianças gostam - e precisam - de rotinas, mas essa necessidade existe em paralelo com um comportamento caprichoso, imprevisível e errático, que só têm paralelo nas exigências extravantes das super-estrelas do rock.  

21
Nov17

Do snobismo invertido

Eremita

Eu sou um produto, para o bem e para o mal, da escola e da universidade públicas. Nunca andei em instituições privadas. Três dos meus quatro filhos frequentam a escola pública, e a mais nova só não frequenta porque ainda tem cinco anos. Há razões financeiras para esta escolha, pois os filhos são muitos, mas há sobretudo razões de princípio: acredito na importância do ensino público; frequentei-o numa época em que era menos exigente do que hoje e não me dei mal; prefiro que os meus filhos cresçam longe das bolhas elitistas (sem desprimor) que são os melhores colégios privados; acho até que certas limitações próprias da escola pública têm vantagens em termos de autonomia e de resiliência (se os pais desempenharem bem o seu papel); e prefiro investir o dinheiro que poupo na mensalidade dos colégios em actividades extracurriculares, ou a viajar com os miúdos para fora do país nas férias do Verão ou da Páscoa, para ganharem mundo.

Este primeiro parágrafo serve dois objectivos: demonstrar que sei do que falo quando falo da escola pública, e tentar afastar o preconceito de que quando critico Mário Nogueira, os sindicatos ou certos privilégios da classe estou a atacar cada professor em particular. João Miguel Tavares, Público.

 

Existe ainda um objectivo tácito, ó João: queres mostrar que tens autoridade moral para escrever sobre a escola pública. Não surpreende. Segundo muitos, provavelmente a maioria, quem não tem os filhos numa escola pública perde o direito de escrever sobre o ensino público, tal como quem só frequenta hospitais e clínicas privados não se deve pronunciar sobre o SNS. Esta opinião, absurda se pensarmos na lógica que rege a redistribuição da riqueza através dos impostos numa sociedade coesa, em que um cidadão se deve interessar pela construção de uma ponte que provavelmente nunca usará, resulta de uma pressão social exercida pela esquerda e pela direita, que quando se juntam criam a correcção política mais subtil e eficaz. Quando veiculada pela direita, esta opinião é um ataque ad hominem primário para enfraquecer os políticos de esquerda que têm os filhos nos colégios e defendem a escola pública. Quando veiculada pela esquerda, a ideia parece ganhar substância: é importante a classe média ter os filhos na escola pública, caso contário o ensino público entrará em decadência, dizem eles. Daí a necessidade de se gritar ao mundo que os filhos não frequentam "bolhas elitistas" e o pudor das "elites" nas discussões públicas e colunas de jornal quanto ao tipo de escola onde estudam os filhos. Ora, será que quem propagandeia que tem os filhos no ensino público se revela um cidadão exemplar ou simplesmente um inverted snob? No que me toca, a ideia do risco de decadência devido ao abandono do ensino público pela classe média soa-me demagoga - há estudos? - e hipócrita - havendo escolas públicas e escolas públicas, diz-me em que bairro moras e dir-te-ei se defendes esta ideia, camarada. Em todo o caso, primeiro a família e depois a sociedade é uma "razão de princípio". Será então que posso defender a escola pública e desejar que os meus impostos sejam usados para a melhorar, mas estar disposto a fazer tudo o que estiver ao meu alcance, inclusive escrever um romance histórico, para que as minhas filhas frequentem uma "bolha elitista"?  

 

05
Nov17

Regressão

Eremita

Dizem os especialistas que os pais não devem adormecer junto dos filhos pequenos, porque é importante que as crianças vão ganhando autonomia. É chocante que os especialistas não se preocupem também com a perda de autonomia dos pais, pois começo a viciar-me no gesto de meter cada um dos braços por entre as grades das duas caminhas para dar as mãos às minhas bebés e assim adormecermos juntos. 

28
Set17

Schopenhauer não chegou a saber

Eremita

Não é o Facebook, não são as carreiras, não são as relações passadas, nem as cuecas deixadas na casa de banho. Um bebé a chorar o dia todo é o verdadeiro teste de stress de um casamento. 

27
Set17

Um piano

Eremita

piano chegou há uns dias. Um piano a sério, isto é, alemão e centenário, que pertenceu à avó da L. e resolvemos restaurar e afinar. Um piano vertical e modesto, diga-se, para prevenir eventuais injúrias classistas. Muito mais do que a compra de um carro ou ir de férias para o estrangeiro com toda a família, é a chegada do piano que consolida o nosso projecto de família burguesa. Na casa onde cresci, nunca se ligou muito à música. Creio até que, apesar de terem pago as aulas que tive na Academia de Amadores de Música, os meus pais temiam que o meu interesse pela guitarra me desviasse dos estudos. Connosco será diferente. O meu conceito de educação é medieval com uma pitada greco-romana. Interessa a formação moral, o trívio, o quadrívio e a actividade física. Ora, o quadrívio compreende a aritmética, a geometria, a astronomia e a música. Há estudos que demonstram os benefícios da formação musical no desenvolvimento de outras competências, mas que se lixem os estudos. Não quero que as miúdas aprendam Bach para as exibir como macaquinhos habilidosos ou para que se façam boas gestoras, seguindo um plano de optimização de competências; quero que construam uma verdadeira cultural musical, que saibam resistir à horrenda oferta musical com que a sociedade de consumo corrompe as crianças - o Bieber, a Violeta, a Luna, os Coldplay, etc. - e na adolescência não reduzam a música a veículo identitário - que apreciem os The Smiths do seu tempo, mas percebendo o que o novo Johnny Marr faz com a guitarra, e que, como o passar dos anos, identifiquem o jornalista de música pop como uma personagem trágica que envelhece mal. Ainda isto: que não passem pela frustração traumática de uma carreira de concertista falhada, mas se façam melómanas para a vida. 

 

23
Set17

Fart jokes

Eremita

Por volta das seis da manhã, estava eu a ler um belo texto de João Constâncio sobre o pessimismo e niilismo em Nietzsche, precisamente na passagem de contornos schopenhauerianos sobre o conflito entre o nosso papel enquanto membros de uma espécie e indivíduos, uma das gémeas soltou, sem acordar, uma prolongada, sonora e percussiva bufa, mesmo ao meu lado, pois esta noite adormeci no quarto delas, entre as duas caminhas, com a cabeça apoiada numa enorme toupeira de pelúcia. Fiquei então a pensar por que motivo uma bufa minha teria sido menos engraçada e nesta diferença julgo ter encontrado algum conforto existencial. 

21
Set17

Uma recusa cognitiva

Eremita

São cada vez mais evidentes as diferenças de personalidade das nossas gémeas. Uma é mimosa e inocente, a outra arisca e desconfiada. Podia continuar a descrição, mas não o farei. Há um exercício, entre a ficção e a História, que consiste em imaginar o que teria acontecido se um determinado evento histórico não tivesse ocorrido - por exemplo, The Plot Against America é um desses exercícios de história virtual, pois Philip Roth imagina uns EUA em que Roosevelt perde as eleições presidenciais para Charles Lindbergh, o herói da travessia aérea do Atlântico (Norte) que simpatiza com Adolft Hitler (factual). Enquanto ciência, estes exercícios valem muito pouco, pois nunca são conclusivos, valendo talvez como ferramentas para levantar hipóteses, mas o seu apelo é irresistível. Ora, o crescimento de duas gémeas verdadeiras, que tem semelhanças óbvias com uma experiência controlada (duas réplicas saídas da mesma célula), é sobretudo visto como uma espécie de história virtual em tempo real, pois a tentação de extrair conclusões é demasiado grande para chegar a ser ciência. Um pai, apercebendo-se dessa atmosfera assertiva e sentenciosa em redor das filhas, tem vontade de pegar nelas ao colo e fugir como quem abandona uma casa em chamas. Mas o mais insidioso é que o próprio pai não resiste a categorizar, distinguir, notar e correlacionar o comportamento e a personalidade delas. Ele sabe que a presença de duas gémeas aguça a capacidade de observação. Uma nunca é apenas ela mesma, mas também o que a outra não é. Nesse sentido, a experiência está longe de ser controlada. Não há uma gémea padrão com a qual as duas gémeas possam ser comparadas; cada gémea é simultaneamente o controlo e amostra, o que gera dinâmicas complexas. Um pai, ciente de tudo isto, tenta contrariar os seus sentidos e força-se a abandonar linhas de raciocínio, como se o simples facto de descobrir uma diferença fosse indiciador de uma preferência. Ele sabe que se comporta como a feminista que desvaloriza as diferenças entre os sexos e gostaria era de se parecer com aquele demógrafo famosíssimo que explicou a evidência das diferenças raciais como uma ilusão devida ao enorme desenvolvimento da visão nos primatas e no homem em particular. Que bom seria poder culpar os sentidos. 

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