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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

30
Jun20

Uma conversa sobre Camus


Eremita

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Controlo-me para evitar que o Ouriq se transforme num magazine cultural, porque não é o objectivo e jamais conseguiria chegar ao nível de uma Maria Popova, mas esta conversa sobre Camus e o inacabado Le Premier Homme  — que ainda escuto ao escrever estas linhas — é extraordinária. Se houver francófonos por aí,  aproveitem, a menos que sejam sartrianos ou a figura do pai vos seja indiferente.  

 

 

 

27
Dez19

Das insuficiências do ateísmo


Eremita

Uma criança de quatro anos não perde o sono perante a impossibilidade do Pai Natal. É a finitude da vida que a inquieta e a deixa num pranto inconsolável. A ideia da morte para quem quase não tem a noção do tempo só pode ser a da morte iminente. Perguntava-me ela se iria morrer amanhã e se as pessoas deixariam de morrer se ela se portasse bem. Como se explica que não é assim que o mundo funciona? Convertendo o tempo em distância, fazendo nós num cordel? Usando o número de passos no jogo da macaca? Um passo para o tempo vivido e 20 passos para o tempo que falta viver? Mas será isto solução, se até eu sinto que ela mal começou a viver e já lhe sobram poucos passos? Fico algo ansioso com estes exercícios, começo a pensar que 20 passos é distância que remete para um duelo de pistolas.

Saiu-me mal a fala, um carpe diem com referências ao Rei Leão de remate pouco convicto. Nunca invejei tanto os católicos como esta noite, nem me senti tão incapaz e ridículo. Mentimos à criança sobre o Pai Natal com requintes teatrais para dar substância à mentira, mas dizemos-lhe a verdade sobre a morte. Oh, oh, oh, haverá decisão mais indefensável? Um compromisso absoluto com a verdade seria menos absurdo, ainda que ligeiramente mais cruel. Porque se é para mentir, mais valia mentir duas vezes. E se a lógica fosse a de poupar em mentiras, mais valia sacrificar o barbudo por uma ilusão de eternidade.

Nas últimas décadas, o Pai Natal não se tornou hegemónico entre nós apenas por interesses comerciais, pois foi também um instrumento de secularização. Com esta lavagem cerebral, deitou-se fora o menino Jesus com a água do banho. Pela primeira vez desde há uns bons 30 anos, Cristo faz-me falta e não há Dawkins que me valha. Se o cristianismo é "platonismo para as massas", ou seja, uma simplificação ou infantilização, talvez um catolicismo soft, com as narrativas do Novo Testamento, mas sem o medo e a culpa, sirva melhor às crianças do que a Disney, pois vão sempre a tempo de um desmame autónomo na adolescência.   

Adenda a 31.12.2019: o The New York Times destacou quatro livros infantis sobre a morte. São todos religion free, como convém aos leitores progressistas, mas nenhum dos autores teve a coragem de tratar a morte da criança que lê ou ouve a história. Quem morre é um velhinho ou um bicho e esta fuga ilustra na perfeição o problema que fingem abordar.

29
Nov19

A possibilidade de uma ruiva


Eremita

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Amor, vou pintar o cabelo, ok?

E de repente, sem comprometer a fidelidade, dormir com uma ruiva ganha uma probabilidade talvez não inferior à que teria tido nos meus melhores anos se tivesse feito inter-rail na Escócia, uma probabildade seguramente superior à que levou o seleccionador José Augusto Torres, no já longínquo 1985, a proferir uma frase que não era sequer dele, mas passou a ser. Deste-nos o milagre de Estugarda, Senhor. Peço-te agora muito menos, apenas que vicies os dados no momento de uma escolha. Até chegar a casa, a expectativa será crescente e também eu irei dizendo ao longo do dia, mas como um murmúrio: "deixem-me sonhar".

16
Out19

Disney, Cristo e Nietzsche


Eremita

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Há dois dias, a M. percebeu que vai morrer. Não presenciei o momento, mas a L. contou-me que foi uma verdadeira epifania. A J. também assistiu e deve ter percebido pela primeira vez que não é eterna; se não se pôs a chorar, foi porque a mana já chorava e ela entendeu — com notável estoicismo⁠ — que lhe competia ficar calada e quieta. Na manhã seguinte, na cozinha, só na minha presença, a M. voltou a expressar o seu desagrado, embora sem chorar. 

O cristianismo tende a ser desprezado como uma espécie de platonismo para as massas. Os ateus praticantes vão muito mais longe, pois entendem-no como uma grande aldrabice. Mas que jeito daria Jesus para apaziguar uma pequena alma no momento em que se apercebe de que vai morrer. Nós, como pais ateus, dissemos-lhe a verdade, apenas jogando com a ideia de tempo que as miúdas têm, ou seja, tentando fazer da vaga noção de finitude uma quase eternidade. Este episódio fez-me sentir o que já sabia: as famílias católicas têm um trunfo precioso.

Continua

 

04
Out19

Liberdade


Eremita

Numa outra vida, antes de Ourique, moderei um debate com Mário Centeno e outro com Joaquim Miranda Sarmento. o Centeno de Rio. Curiosamente, só me lembrei disto há instantes. Ai que prazer. Adoro Ourique, continuo a não perceber nada de finanças, e se, em rigor, abdiquei da biblioteca, também afirmo que o melhor do mundo são as crianças, nomeadamente quando dou os beijos e abraços de boa noite nas minhas filhas com cada uma já na sua caminha, o que me dá uma convicção que talvez faltasse ao poeta, mas— enfim — não quero parecer o Louçã.

02
Out19

A chegada das maminhas


Eremita

A chegada das maminhas foi saudada pela irmã mais velha e a mãe, mas as pequeninas não perceberam nada, apesar do seu interesse constante por maminhas, inclusive as do pai, que naturalmente se auto-excluiu daquele ritual de passagem espontâneo, só não saindo da sala porque desaparecer seria fazer-se mais notado,  e ali, na mesa da sala com ângulo de visão para a sala onde as manas cúmplices riam, sem poder partilhar o que lhe ia na mente com as pequeninas ou sequer a mulher, todas ainda na mesa, teve tempo para se surpreender com uma decisão que, de tão definitiva e bem formada, só podia ter sido já pensada e estaria guardada para quando houvesse provas de namoro carnal, sem ter então antecipado que por vezes o corpo a toma as rédeas da vida: assim, com a chegada das maminhas, nunca mais voltaria a acabar a comida que a jovem adolescente deixa no prato. Por sorte, nessa manhã havia terminado uma sandes de queijo banal e não restos mais pecaminosos, como fruta ou marisco, e o conforto dessa lembrança era prova de que a sua exclusão daquele ritual tinha uma dimensão retroactiva. No dia seguinte, lembrou-se de que a macroeconomia roubou a palavra mais adequada para descrever o que se passara com ele na véspera: fora um ajustamento.

29
Set19

Mimetismos


Eremita

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Pesa-me educar as miúdas em Ourique, privando-as de civilização.  Por isso, instruí o moço de recados para que as acompanhe em incursões à capital. Hoje levou-as ao Oceanário e trouxe um total de 64 minutos de gravações, curtos vídeos em que elas, coladas aos vidros dos diferentes aquários, vão comentando a vida animal com grande entusiasmo. Mas o melhor aconteceu ao jantar, já de novo em Ourique. Terminada a sobremesa, puseram-se a brincar com um cacho já quase sem uvas, imaginando que era um dragão-marinho-folhoso, como os que viram de tarde. A Evolução precisou de milhões de anos para produzir o espectacular caso de mimetismo em que um peixe faz de planta e às minhas pequenas bastou um instante para irem de outra planta ao mesmo peixe. Não, não as faz geniais, é só mais um exemplo da sua ligação aos bichos, que por ser tão forte ainda transformará o surpreendido pai num junguiano ou criatura ainda mais mística.

05
Ago19

Sportinguista q.b.


Eremita

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Dedicado ao meu irmão 

A tortura permite avaliar com inigualável rigor aquilo que realmente importa. Ontem, resisti até ao segundo golo do Benfica, mudando a seguir de canal para me alienar diante de uma espécie de Jogos Sem Fronteiras à americana chamado American Ninja Warriors. Assim se prova que o meu sportinguismo não vale um chavo. Em minha defesa, apenas posso prometer que o meu instinto de justiça chegará para me lembrar destas desistências nos momentos de derrota se o Sporting vencer algum título importante, ou seja, nesse hipotético dia espero comemorar apenas com moderação pois a mais não terei direito. Apesar do adepto Benfiquista, essa criatura mimada, sei que o clubismo é um investimento emocional de soma zero ou negativa, e como aprendi a poupar nas desilusões com o Sporting, mesmo duas décadas não chegaram para acumular um saldo que dê para grandes euforias. Mas o que realmente me tira o sono, tal o receio de envergonhar as miúdas e o nome, é a possibilidade de não me comportar com outra tenacidade quando for outra a tortura. É a dúvida que persiste em quem nunca foi posto à prova e já viu documentários: falarias ou não?

19
Jul19

A mão no leme


Eremita

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Será possível traçar uma bissectriz virtuosa entre Rui Ramos e Rui Tavares? O primeiro demonstra que os conservadores são capazes de esquecer o pessimismo antropológico, pois escrevem sobre o racismo com uma retórica pós-racial cega, lírica e tonta, que lhes dá imenso jeito para manter o status quo. Não, o problema não é só a pobreza. O Dr. Ramos que explique como se consegue assegurar igualdade no acesso ao arrendamento a famílias negras de classe média sem beliscar o sacrossanto direito à propriedade privada. O segundo, com uma retórica estafadíssima, faz uma defesa tímida do relativismo, como se usar o exemplo das visões absolutistas e incompatíveis das religiões do livro não fosse primário e a mutilação genital feminina pudesse ter outra interpretação que não o repúdio absoluto e incondicional. A tensão criada por duas visões irreconciliáveis não se resolve facilmente com uma adversativa, que aqui soaria a dobradiça enferrujada. Mais do que a peer pressure, temo o desgaste do tempo, que pode redundar em letargia ou precipitação. Vejo a reflexão sobre estes temas como uma viagem de longo curso em mar aberto (sem bombordo). Não nos indignemos em exibições de virtude antes de chegar a terra firme*. 

* Se antes imaginava estes remates grandiloquentes como se falasse para uma plateia a perder de vista, agora a ilusão é pensar que um dia as minhas duas meninas lerão o que o pai escreveu. Se fosse um intelectual francês, descreveria esta mudança que não muda a aparência como a domesticação da mania das grandezas.

16
Jul19

Estorninhos


Eremita

Não tenho bucket list, é coisa demasiado fatalista, mas se as minhas miúdas cumprirem 10 anos de idade sem ver este espectáculo da natureza ao vivo, terei falhado como pai. Tendo em conta as inúmeras formas de trinchar a humanidade, aceite-se mais esta: aqueles que preferem os rituais de acasalamento das aves do paraíso e aqueles que preferem os bandos de estorninhos. Pertenço ao segundo grupo, sem saber ao certo se a preferência é apenas estética ou reveladora de um colectivismo incorrigível. 

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