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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

23
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (7)


Eremita

Ninguém está a salvo do negacionismo

Um dos grandes equívocos sobre os cientistas diz respeito ao que os move. É por isso que não me canso de recomendar uma cena do filme Life Aquatic, de Wes Anderson. Não descreverei a cena, sugiro que a vejam já (dura pouco mais de um minuto) e retomem depois a leitura... Segundo uma visão lírica,  o cientista é guiado por uma sede de saber pura. Quase nunca é assim. A motivação real de um cientista, sobretudo quando já tem skin in the game, pode ser muito pouco nobre. Muitas vezes, o que o move é a sede de protagonismo e poder, o desejo de provar que são os outros que estão errados e não ele, a competição pela competição, até a vingança. Mas cientistas venais podem fazer ciência virtuosa, basta que não deixem que as suas pulsões corrompam as regras deste jogo. Também nesta querela com HPS seria hipócrita passar a ideia de que me move apenas o desejo de limpar o espaço público do lixo cognitivo que HPS andou a despejar desde Março. Como deve ser evidente, a verdadeira motivação é egoísta: pretendo sobretudo limpar a acusação de mentiroso que HPS me fez repetidas vezes. Mas recorrendo a uma lógica consequencialista,  a minha motivação é irrelevante; o que importa é saber se respeitei as regras do jogo e se consegui limpar o lixo de HPS sem acrescentar lixo meu. Essa avaliação não será feita por mim.

O negacionista é geralmente visto como uma figura marginal, frustrada e rancorosa, que se refugia num mundo alternativo. As suas teses podem ser desconcertantes pela idiotice (e.g., os flat earthers e homeopatas) ou repugnantes pela miséria moral (e.g., os negacionistas do Holocausto). HPS não tem nenhuma destas características. Não o conheço, mas daquilo que fui lendo no Corta-Fitas, imagino-o como um cidadão bem integrado, com uma família e uma carreira profissional reconhecida pelos seus pares, uma prática de cidadania e um inegável gosto pela polémica. Porém, a sua constante negação da evidência no caso da epidemiologia da COVID-19 tem todas as características de negacionismo. Não sendo um negacionista enquanto figura social, praticou negacionismo entre Março e Junho de 2020. Não chega a ser uma diferença subtil de difícil apreensão, sobretudo por existir na nossa língua o binómio ser/estar e fazermos parte de gerações educadas no contexto da discussão sobre o VIH para as vantagens de substituir a catalogação de grupos (os homossexuais e os toxicómanos) pelos comportamentos de risco (o sexo anal desprotegido e a partilha de seringas). HPS não será um negaciomista, ele apenas esteve e eventualmente ainda estará em estado de negação. Esta será uma conclusão batida e seria idiota e contraproducente forçar um paralelo deselegante, mas o caso de HPS fascina mesmo por nos sugerir que ninguém está a salvo deste mal, nem sequer um cidadão de mérito profissional reconhecido, mentalmente equilibrado e com um doutoramento atribuído por uma faculdade de ciências (do Porto). Em condições sociais excepcionais como as que vivemos, pode ser que baste uma combinação rara de soberba e capacidade cognitiva, motivação ideológica, incentivo e cumplicidade de fãs, e ainda algum infortúnio (como o terrível encontro com André Dias no percurso intelectual de HPS) para que o negacionismo grasse em quem menos se esperava.

HPS declarou que se sentia movido pela "coisa inglória e quixotesca de procurar contribuir para a racionalidade na gestão da epidemia em curso". Que tenha decidido fazê-lo com reiterada irracionalidade é um mistério que só ele terá interesse em compreender a fundo, apesar do meu indisfarçável fascínio antropológico por ele. Escreveu também: "que não nos falte coragem para reconhecer isto", num texto de título "Enganámo-nos provavelmente". Mas ninguém se enganou mais vezes do que HPS e a ninguém faltou tantas vezes a humildade de reconhecer as asneiras e a sensatez de parar um pouco para se pôr em causa, interrompendo uma frenética sucessão de textos com todas as características de uma fuga para a frente.

Não mais incomodarei HPS no Corta-Fitas, sobre este ou qualquer outro assunto, nem mesmo se ele começar uma campanha ainda mais grave, como negar o génio de Paco de Lucia. Assim se interrompe uma interacção desagradabilíssima para ambos. HPS acusou-me de “instabilidade emocional” e na altura fiquei ofendido, mas ao reler algumas das nossas trocas de impressões a minha exasperação é notória e este reparo de HPS terá sido uma das suas raras observações certeiras. As mentiras sem acusar qualquer necessidade de reposição da verdade, as manipulações, as omissões, o ultrapassar constante dos limites da interpretação das suas passagens, enfim, as imperfeitas aldrabices com que HPS tentou passar uma tese sem pés nem cabeça eram tão desgastantes como viciantes. Mas aprendi a lição. Por isso, ignorarei o desesperante toca e foge de guerrilha intelectual de HPS, ou seja, as suas respostas incompletas e evasivas. Para voltar a perder mais tempo com este assunto, HPS teria de me processar por difamação ou responder ponto por ponto às acusações que lhe fiz no seu blog e aqui reitero. Como não o fará, caberá a outro a missão de lhe dizer as vezes que forem necessárias que ainda vai a tempo de perceber uma evidência: não reconhecer as tolices que andou a escrever só o limita como interlocutor noutras discussões em que até parecia ter ideias válidas. Insisto nesta ideia: na área dele, eu considerava-o uma autoridade, um conceito cada vez mais útil para nos guiarmos com economia de tempo na cacofonia polifónica em que vivemos. Mas depois de testemunhar a forma vergonhosa como lidou com a epidemiologia, não mais poderei confiar naquilo que escreve sobre o que quer que seja. HPS perdeu um leitor. Quem se derrotou a si próprio não foi o Sars-Cov-2.

Optei por não continuar a maximizar a exposição e número de visitas. Despachei os três últimos textos de uma vez para arquivar o assunto. Porque a vida é curta. 

FIM

 

 

 

 

 

23
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (6)


Eremita

Anti-elitismo de conspiracionismo de circunstância

Com o passar do tempo e a acumulação de evidência quanto à gravidade da COVID-19 e das medidas não-farmacológicas, inclusive as extremas, a posição de HPS passou de periclitante a indefensável. Porém, no ambiente protegido de uma eco chamber de obscurantismo, o homem persistiu na tese. Recuou um pouco, passando a "admitir" "algum" efeito das medidas e fez um deselegante outsorcing de equívocos para o pobre André Dias, mas, talvez para evitar uma ferida narcísica que lhe seria insuportável, não foi capaz de dar a sopradela de misericórdia no imenso castelo de cartas que construiu. Então, a partir de meados de Abril, a sua defesa passou a ser insistir na complexidade e na dúvida. O texto "Não sabemos", como se adivinha, é o melhor exemplo dessa estratégia. Na arte de duvidar, já se conhecia a dúvida metódica, o agnosticismo, o método científico e o teste estatístico. Na Primavera de 2020 surge a grande contributo de HPS para a civilização: a invenção da dúvida narcísica que salva a face. I (bull)shit you not. 

Duvido que HPS tenha feito algum reality check entretanto. Segundo os números oficiais, vamos chegar aos 500 000 mortos de COVID-19 no princípio de Julho. O número real só será conhecido daqui a uns meses ou anos, mas cálculos com base no excesso de mortos por comparação a outros anos nos períodos mais críticos da pandemia sugerem que o número de mortos (directa ou indirectamente resultantes da COVID-19) que teremos de acrescentar neste primeiro semestre não deve ser inferior a 130 mil. Na verdade, como esta análise deixou de fora a China, Índia e a África, e não cobre o primeiro semestre inteiro, a correcção deverá ser bem superior a 130 mil. E assim, num semestre em que o mundo se tentou proteger com medidas não-farmacológicas sem precedentes na nossa memória viva, a COVID-19 terá matado mais de 650 mil pessoas, superando o limite superior da estimativa anual de mortos por gripe mais alta. O que sucederá durante o segundo semestre é ainda uma incógnita, mas não será arriscado prever que chegaremos ao milhão de mortos (o número real, não a contagem oficial provisória) antes do fim do ano, equiparando a COVID-19 em gravidade à epidemia de gripe de 1968. Basta lembrar que, durante o primeiro semestre, só no fim de Março o número de mortos por dia ultrapassou os 3 mil e que vamos entrar no segundo semestre muito provavelmente com mais de 3 mil mortos por dia. A evolução dos números no segundo semestre será em grande parte influenciada por aquilo que vier a acontecer no Brasil (90 mil mortos previstos logo para primeiro mês*), EUA (80 mil mortos previstos para Julho, Agosto e Setembro*), México e sobretudo na Índia (um país imenso e com uma curva preocupante, apesar da aparente baixa mortalidade), bem como o ímpeto com que o Sars-Cov-2 reaparecerá no hemisfério Norte em Outubro, se a sazonalidade se confirmar. Mas há demasiadas incógnitas, como a dimensão do impacto positivo do uso da dexametasona no tratamento dos casos mais graves (menos 10-15% de mortos?), a possibilidade de a imunidade desaparecer rapidamente nas pessoas infectadas, os números verdadeiros na Rússia, China e muitos países africanos, e ainda a (in)capacidade de implementar de novo medidas não-farmacológicas invasivas, tendo em conta o desgaste psicológico na população e a necessidade de não afundar ainda mais a economia.

Perante a quantidade de pequenas e grandes aldrabices que demonstrei, para concluir o exercício a que me propus não seria preciso acrescentar mais nada, mas HPS demonstra ainda duas características muito comuns entre os negacionistas. A primeira é o desprezo pelos especialistas, um anti-elitismo que no caso dele não se enraíza no populismo, parece ser apenas um tique que decorre da sua mania das grandezas e de um equívoco. HPS dá ares de ter apreço pela liberdade de expressão e pels recusa do argumento de autoridade, atribuindo à heterodoxia na ciência  um valor acrescentado que o leva a um relaxamento o grau de exigência com que avalia as vozes heteroxas (a aceitação cega do que André Dias escreveu e disse é um exemplo extremo ). O desprezo pelos epidemiologistas e a modelação manifestou-se recorrentemente nas expressões taxativas com que HPS parecia terraplenar uma disciplina sem ter conseguido sequer convencido o leitor de ter percebido os seus fundamentos e ferramentas mais elementares. Refiro-me a passagens como "Tudo isto é conhecido da epidemiologia" e  "os resultados (a confirmarem-se) são consistentes com o que seria de esperar a partir de cem anos de conhecimento em epidemiologia, totalmente arrasados em dezenas de modelos matemáticos". Há uma dimensão involuntariamente divertida neste tom assertivo e hiperbólico de HPS. Também no seu desprezo pelos modelos há uma tensão cómica entre a notória ignorância e a assertividade. HPS faz distinções incompreensíveis entre abordagens biológicas e matemáticas, não entende o que é um modelo, não distingue entre modelos interpretativos e preditivos, não percebe que a maior parte dos modelos são calibrados a partir de dados empíricos e não conhece a história da modelação em epidemiologia, indo ao ponto de confundir as suas epifanias diárias como descobertas que a disciplina devia passar a integrar. Ele pensa que os epidemiologistas que fazem modelos não estão a par das diferenças de comportamento entre as pessoas, quando há décadas que se fazem modelos que levam em conta a heterogeneidade nas populações e a heterogeneidade geográfica (e.g., um modelo desse tipo com mais de 30 anos e outro com apenas 15 anos mas com o colorido de ser da autoria do Neil Ferguson, o infame epidemiologista que, segundo a mitologia libertária e de anti-cientismo em que HPS marinou, mandou toda a gente para casa no Reino Unido). Salvo erro, HPS só se enamorou de dois modelos: o de Sunetra Gupta, que hoje se sabe estar completamente errado nas suas previsões, sobretudo as mais extremas, pois a 24 de Março sugeria que metade da população do Reino Unido poderia estar já infectada antes de 24 de Março, quando hoje se sabe que os seropositivos em Londres, quase dois meses depois, eram apenas 17%, e o de Gabriela Gomes, em que é sugerido que o limiar para a imunidade de grupo pode estar nos 10-15%, sem que haja qualquer evidência empírica que o suporte. Lamento não ter o talento para dar a HPS a Hitch slap final que ele merece e só me resta imaginar que um dia, em plena refeição com a família ou amigos num qualquer restaurante, HPS ouvirá um  "how dare you?" sonoro de algum epidemiologista alcoolizado, mas suspeito que as suas conclusões sejam demasiado absurdas e o Corta-Fitas não tenha a projecção necessária para que algum epidemiologista saiba quem é HPS e o pudesse levar a sério.

A segunda característica é a a inclinação para as teorias da conspiração, que no caso de HPS pode ser meramente táctica. O totalitarismo da China levou ao aparecimento de três teorias: 1) que a China teve um comportamento criminoso na gestão inicial da pandemia,  tanto internamente como no atraso a informar a OMS, o que hoje parece estar provado; 2) que o Sars-Cov-2 escapou de um laboratório chinês de biotecnologia, de momento uma puríssima teoria da conspiração que continua a animar muitos círculos, mas uma questão que — formalmente — podemos manter no ar; 3) que o número de mortos na China foi muito superior ao divulgado, uma tese cuja sensatez está inversamente correlacionada com a dimensão dos palpites. A posição de HPS sobre esta terceira teoria pode ter contornos de teoria da conspiração, mas não há uma certeza absoluta porque um bullshitter como ele discute com manha e a sua alusão à falta de fiabilidade dos dados da China pode ter sido apenas uma forma de escapar a uma pergunta incómoda. Com efeito, pedi-lhe inúmeras vezes que desenvolvesse a sua tese, mas uma resposta esclarecedora nunca veio. A palavra a HPS:

O que parece certo é que a partir da manobra de propaganda da ditadura chinesa - derrotámos gloriosamente o vírus com a nossa acção firme e decidida -, com a conivência do silêncio da OMS (que deveria ter dito que essa é uma hipótese, embora pouco provável, e que o conhecimento de cem anos de epidemiologia permite admitir que a curva epidemiológica tenha seguido o seu curso natural, tendo sido o vírus a derrotar-se a si próprio...

E ainda esta passagem, breve e bem recente, que foi tudo o que consegui dele:

Se confia na informação sobre a China a única coisa que tenho para lhe dar são os meus pêsames pela morte do seu cérebro.

Não se percebe mesmo se o pensamento de HPS sobre a China se alterou. De início, a sua tese era a da costumeira evolução natural do vírus que absorveu de André Dias. A epidemia iniciou-se em Wuhan em pleno festival da Primavera, uma altura de grande circulação da população na China. Sendo o vírus caracterizado por um R acima de 2 e uma mortalidade de 0,64% (0,50-0,78%) (há outras estimativas com uma dispersão bem superior), pensar que, num grande centro urbano, com uma  população sem qualquer imunidade inicial e em movimento para diferentes partes do país, o vírus  se derrota a si próprio em três meses após ter provocado menos de 5 mil mortos é uma tese incompatível com os tais "cem anos de conhecimento em epidemiologia" e esmagada pela evidência mais recente. Não há qualquer dúvida sobre o assunto. Saberá HPS qual é a percentagem de seropositivos em Wuhan? Está entre os 3,2 e os 3,8%, dependendo do grupo analisado. No resto da China, a percentagem é menor, como seria de esperar. A ideia de que 4% de seropositivos no epicentro de uma epidemia chegam para a parar e estancar a sua propagação para outras áreas da China é tão descabelada que a HPS só resta mesmo a tese de que toda a informação que vem da China faz parte de uma enorme maquinação, inclusive os estudos recentes sobre a seropositividade na população. Se HPS está preparado para assumir plenamente esta linha de argumentação, então passo-lhe o pincel e a paleta para ser ele a dar os últimos retoques no seu retrato de negacionista. Mas as seguintes perguntas são retóricas porque HPS deve ter amuado ao segundo parágrafo deste texto e nunca responderá. Quantos mortos estará a China a esconder? Em vez dos 4 638 oficiais, façamos um exercício. Terão morrido 10 vezes mais, ou seja, 46 380? Há quem defenda esta ideia com base em alguma informação interessante, talvez até credível. Se foi o caso, no ranking de mortos por milhão de habitantes a China saltaria para a posição 42ª, entre a Polónia e a Bielorrússia. E daí? É ainda uma posição que deixa a China na posição dos países que lidaram excepcionalmente bem com o vírus. Como se explicaria então que o vírus se tivesse derrotado a si próprio mais depressa numa China apanhada de surpresa do que nos EUA? HPS adoptará talvez aquela que foi a sua derradeira arma: a análise multivariada paralisante e geradora de dúvida. Há quem faça da complexidade um objecto de estudo, mas, como já frisei, HPS usa a complexidade para forjar uma moratória que adie conclusões para quando já ninguém se lembrar das parvoíces que andou a escrever durante mais de três meses e ele possa ter uma saída airosa. Dirá HPS que os talvez os chineses tenham uma genética que os protege, uma poluição atmosférica que lhes deu resistências ainda por estudar, uma série de zoonoses que ninguém topou e os equipou antes de 2020 com uma imunidade cruzada que os testes serológicos não detectam mas é capaz de neutralizar o Sars-Cov-2. Ou então subirá a parada da conspiração: talvez os chineses escondam ainda mais mortos. Terão sido 100 vezes mais, ou seja, 463 800? Aqui HPS começará a ponderar se lhe interessa seguir com este número, que inflaciona o número de mortos no mundo já para perto de um milhão no primeiro semestre de 2020 e complica ainda mais a comparação com a gripe (friso que estamos a pensar segundo a realidade paralela de HPS em que a comparação directa com os números da gripe é pertinente porque as medidas não-farmacológicas sem precedentes contam pouco). Suponhamos que HPS sacrifica de vez a comparação com a gripe para defender a sua tese central: 463 800 chineses mortos!  É um número que acaba com a tese de que a China pôs em prática medidas não-farmacológicas de uma eficácia excepcional. Mas será que esta suposição faz algum sentido? Seria a China capaz de esconder mais de 400 000 mil mortos? Teria a China andado a oferecer ajuda técnica e ventiladores em Março aos pobres dos italianos e espanhóis quando ainda morriam chineses de COVID-19 só para fingir que estava tudo controlado? Não estaríamos já em pleno delírio xenófobo? Seria preciso desmentir uma série de observadores da OMS, alinhar numa tese trumpista elevada ao quadrado de que a China corrompeu toda a estrutura da OMS e passar um atestado de menoridade à intelligence norte-americana, tão sedenta de anunciar podres chineses, por ter sido incapaz de recolher provas definitivas da tragédia chinesa. Mas ouçam o relato de um afável médico canadiano (observador da OMS) sobre a sua visita à China: parece-vos que foi corrompido pelos Chineses? Com o quê? Dinheiro? Promessas de um cargo apetecível na OMS? Concubinas sublimes superiormente treinadas nas artes da cama? O meu cérebro estará moribundo, mas não sei mesmo como HPS conseguirá explicar os dados da China sem ter de abandonar as suas teses e, em simultâneo, nos conseguir convencer de que o seu cérebro não está sob o efeito de substâncias alucinogénicas ou refém do seu imenso ego, como um adolescente franzino subjugado por um lutador de sumo.

* Estas estimativas parecem-me exageradas tendo em conta a progressão da COVID-19 nas últimas semanas nos EUA e Brasil, mas não sou epidemiologista e é verdade que os números oficiais do Brasil despertam as maiores suspeitas. 

 

 

 

 

22
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (5)


Eremita

A grande ilusão

Para cumprir a promessa de não ir além dos sete textos, outras aldrabices de HPS ficarão por detalhar, como as manipulações de citações de OMS, indo buscar textos pré-COVID-19, e a confusa e tacanha equiparação da crítica à razoabilidade das medidas de confinamento (que nunca questionei) a uma crítica à eficácia das medidas (o objecto exclusivo desta discussão). Espero que se perceba o problema de confundir estas duas críticas. Há décadas que discutimos a razoabilidade do bombardeamento de Dresden e do uso das bombas atómicas no Japão, não a eficácia dessas decisões para quebrar o ímpeto do adversário. Mas há um cúmulo de bullshit, má-fé bazófia que não pode ficar esquecido. Surge no texto "Isto não é matemática", um verdadeiro hino à ignorância. 

Daí a hipótese de que depois da epidemia entrar numa exponencial forte, teremos 12 a 15 dias (sim, pode ser um bocadinho fora deste intervalo, isto não é matemática) até começar a entrar no tal planalto e começar a descer.

Parece bruxaria, porque não tem uma grande complexidade matemática ou teórica. Quando perguntaram a André Dias que modelo estava a usar para dizer isto, limitou-se a responder: nenhum, olho para a curva, e leio-a a partir do que aprendi sobre epidemias.

Qual é a vantagem disto sobre os complexos modelos que tenho visto por aí?

(...)

E, sobretudo, revelou-se muito certeira nas previsões de evolução da epidemia e dos seus efeitos (os Estados Unidos e o Reino Unido apresentaram ontem, pela primeira vez, uma diminuição do número de mortos, o que deve ser lido com a cautela de quem sabe que um valor não é uma tendência). Por exemplo, muito no início, quando o Imperial College estimava 400 mil mortos em Itália, esta forma de pensar falava, grosseiramente, num máximo de dez mil, provavelmente será mais perto do dobro, mas muito mais perto da realidade que os 400 mil do Imperial College. HPS, Isto não é matemática, 6.04.2020

Não vale a pena insistir na circularidade que alicerçou o raciocínio de HPS durante meses. Nas passagens destacadas a amarelo há um lapso. Mas já se percebeu que HPS não assume os lapsos grosseiros que acumula, o que nem sequer chega a ser grave, é apenas triste. Grave é ver um respeitado arquitecto paisagista e figura da gestão do território, que também opina na imprensa e marca presença na televisão quando o país começa a arder, a enganar os leitores que não se dão ao trabalho de verificar as suas fontes. Grave sobretudo para HPS, entenda-se. Porque que conclusão devo eu tirar quanto ao rigor e competência de HPS nos assuntos que não domino, como a gestão dos territórios agrícolas (fogos, eucalipto, desertificação do interior, etc.), quando sobre uma área que domino mais ou menos (nunca trabalhei em epidemiologia, na verdade) descubro um grau de ignorância e manipulação inadmissível? Isto tem um lado cómico e poderia rematar a conversa usando a mesma boutade de alguém sobre Marcelo Rebelo de Sousa: concordo sempre com ele nos assuntos que não domino (cito de memória). Mas há também um lado trágico, porque o que aqui venho detalhando com uma insistência que muitos acharão "paranóica" ou desproporcionada é um exemplo extremo da erosão da confiança no espaço público. Na sua fuga insustentável, HPS vai ao ponto de redefinir a linguagem, como fez nas respostas ao texto de ontem. E quando é um autoproclamado liberal a refugiar-se num newspeak...  

Que a 6.04.2020, quando já havia mais de 15 mil mortos em Itália e ainda se morria às largas centenas por dia, alguém se lembrasse de defender uma "previsão" de 10 000 mortos para aquele país, é um verdadeiro mistério. Sabemos hoje que o número de mortos é já mais do triplo do valor lançado para o ar a golpe de vista (creio que por André Dias). Como se não bastasse, o valor real correspondente ao excesso de mortes na Itália por COVID-19 e outras causas devido à incapacidade de resposta dos serviços de saúde nos últimos meses poderá ficar por volta dos 50 mil. 10 mil vs. 50 mil. Antecipo a crítica: estou a inflacionar o número de mortos porque o valor inclui aqueles que não estavam infectados com o Sars-Cov-2 e morrreram por falta de assistência médica, o que terá sido um erro de gestão e não um efeito directo do vírus. Errado, estou apenas a dar a comer a André Dias e HPS o pão que andaram a amassar: no mundo paralelo de André Dias, (ouvir a partir de 26' 45'') não houve excesso de mortos, assistimos nas imagens da televisão a um "teatro" ou então a um colapso dos serviços provocado pelo medo (mas sem excesso de mortos). Analisar este material retrospectivamente põe o estômago às voltas pela incompetência, alucinação e assertividade sem qualquer fundamento. Não houve nada de novo aqui, pois já demonstrara como HPS subestimou a gravidade da COVID-19. A novidade é que para denegrir o Imperial College  e se valorizar, HPS provavelmente inventou uma previsão que nunca existiu (1),  distorceu as previsões do Imperial (2) e ocultou informação (3). Neste texto, HPS intensificou o bullshiting para níveis surpreendentes numa pessoa com a sua formação e responsabilidades. Vamos decompor.

(1) A invenção de uma previsão: quando HPS escreveu que a equipa do Imperial College previu 400 mil mortos para Itália, teria sido simpático revelar a  fonte. De que cartola tirou ele este coelhão dos 400 mil mortos na Itália? Procurei nos arquivos do Imperial sobre a COVID-19 e, até  6 Abril, só encontrei dois relatórios potencialmente relevantes, o 9 e o 13. No relatório 9 a Itália praticamente não é mencionada e as simulações são feitas para os EUA e o Reino Unido. No relatório 13 há números sobre a Itália. Considerando o número de mortos até 31 de Março, o modelo do Imperial calculou que, no cenário de confinamento que tinha sido implementado, esse número seria 14,000 [11,000 - 19,000]. O número oficial de mortos na Itália até 31 de Março foi 12 428, bem dentro do intervalo do modelo do Imperial — reconheça-se que o intervalo é amplo, mas foi o que se conseguiu tendo em conta a incerteza, pois no Imperial não há génios com o golpe de vista de um André Dias que viu gaussianas perfeitas em toda a parte. O relatório inclui ainda cenários para o número de mortos nessa data na ausência das medidas farmacológicas: 52,000 [27,000 - 98,000]. 52 mil mortos. Tendo em conta os números que hoje conhecemos (os prováveis 50 mil mortos até agora), será uma previsão assim tão absurda ter previsto 52 mil mortos até 31 de Março se HPS e André Dias dirigissem os destino da Itália, isto é, se os italianos tivessem continuado a viver "como habitualmente"? Mas insisto: onde foi HPs descobrir os  400 mil mortos na Itália? Não vasculhei toda a net e não posso ser taxativo, mas a hipótese mais plausível é que André Dias e/ou o sempre-enviesadamente-crédulo HPS usaram para a Itália a simulação feita para o Reino Unido, que aparece na tabela 4 do relatório 9  (410 000 mortos). Dir-me-ão: Eremita, não sejas picuinhas. Afinal, a Itália e o Reino Unido são países de dimensão parecida. Estaria disposto a aceitar esse eventual lapso inócuo se essa descrição fosse completa. 

(2 e 3) Distorção e ocultação: admitindo que a hipótese que lanço no parágrafo anterior está correcta, HPS não cometeu apenas mais um dos seus lapsos, que sofreram entretanto um upgrade para mentira reiterada sempre que alguém lê o que ele escreveu, pois o homem recusa retractar-se. O que ele fez foi enganar consciente e descaradamente toda a gente. Isto porque até HPS, que não deve ler as fontes primárias, tinha a obrigação de saber que os 410 000 mil eram para o cenário "do nothing" (veio nas notícias), pelo que de forma nenhuma pode ser usado como critério para avaliar a qualidade da simulação a partir de números de uma realidade em que muito foi feito. É verdade que HPS não acredita nas medidas não-farmacológicas, mas isso não lhe dá o direito de reinterpretar uma simulação de quem acredita no efeito das medidas. Só que o caso de HPS ainda se complica mais, porque os tais 410 000 mortos são para uma simulação a 2 anos ("total number of deaths seen in a 2-year period") e não até ao fim de Março, meados de Abril, Maio de 2020 ou até à chegada da radiação ultravioleta, para respeitar as ideias do génio que "previu" 10 000 mortos para a Itália. Chega de disparate? Ainda não: no relatório 9, as simulações incluem, além do cenário "do nothing", outros cenários com grau variado de medidas não-farmacológicas ao longo dos 2 anos. E tendo em conta que, na sua primeira investida no Reino Unido, o Sars-Cov-2 já matou 42 647 pessoas,  é muito curioso reparar que, nas simulações a 2 anos,  o cenário para as medidas mais brandas a estimativa já falhou (5 600-48 000 mortos) o cenário seguinte (6 400 - 71 000 mortos) poderá falhar facilmente, mesmo admitindo a sazonalidade e que o vírus não matará tanto nas próximas duas investidas (ainda dentro do período de 2 anos), e só o terceiro cenário (47 000-120 000 mortos) dá alguma garantia de que o número total de mortos em dois anos estará contido no intervalo de confiança. Por outras palavras, três ou quadro meses bastaram para que os cenários previstos pelo Imperial, que foram gozadíssimos por pessoas como HPS, não parecessem irrealistas. O que levará alguém a esconder toda esta informação e, com uma fanfarronice de ignorância e desonestidade intoleráveis, tentar passar por simulação da realidade a poucos meses o que na verdade é uma simulação a dois anos de um cenário imaginado

Se algum académico escrevesse o que HPS escreveu e não se retractasse à primeira oportunidade, seria motivo de chacota na comunidade científica e provavelmente teria problemas com a entidade empregadora. Mas no mundo inimputável dos blogs de um país sem massa crítica de leitores críticos e dado ao nacional porreirismo, a aldrabice não incomoda assim tanta gente.  

Amanhã escrevo sobre a caricatura que HPS fez dos epidemiologistas e a sua visão da epidemia na China. O primeiro exemplo é um caso de anti-elitismo e o segundo de "conspiracionismo", duas características muito comuns nos negacionistas. Mas o anti-elitismo e "conspiracionismo" de HPS não são genuínos, o que  faz de HPS uma variedade resultante do cruzamento de um negacionista puro com um bullshitter puro.

 

21
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (4)


Eremita

Precipitação e viés de confirmação

Uma das características de quem se deixou aprisionar num pensamento circular é a acusação de que a circularidade está nos outros. O pensamento de HPS é a pura definição de circularidade pois ele decretou que as medidas de confinamento não resultam e passou o tempo a negar a evidência contrária. Mas para ele são os epidemiologistas que passam o tempo a mostrar que o confinamento funciona porque não admitem outra possibilidade. Para chegar a esta conclusão, HPS criou uma caricatura que pudesse criticar. Muitas teorias, quando simplificadas na forma de slogan, soam a circularidades. Até um expoente da epistemologia como Karl Popper julgou ter detectado uma tautologia na teoria da evolução: quem sobrevive são os mais fortes... que são aqueles que sobrevivem. Mas como muito bem explicou Ernst Mayr num trabalho clássico sobre a história da Biologia, a teoria da evolução inclui várias dimensões (vídeo curto!) e não é redutível ao bordão the survival of the fittest (que nem sequer foi inventado por Darwin, apesar de ter sido depois por ele adoptado). Esta referência vem com uma esperança: se Kopper foi capaz de mudar a sua opinião sobre a teoria de Darwin, talvez quando tudo amainar também HPS possa rever a sua posição e passar a olhar para os epidemiologistas como cientistas e não membros de uma seita embrenhada num programa metafísico com as mesmas características da psicanálise freudiana ou do materialismo histórico de Engels e Marx, ou seja, praticantes de uma pseudociência que a validação empírica não pode sequer beliscar.

Não cometerei a imprudência de provar que HPS está errado sobre a epidemiologia em geral e as causas que levaram ao controlo da pandemia nos diferentes países por onde o Sars-Cov-2 passou. Seria preciso rever a já abundante evidência à escala dos países (a China e as medidas de confinamento extremo, a Coreia do Sul e o rastreamento maciço, a Suécia vs. países vizinhos,  a correlação entre a gravidade da epidemia e resposta dos governantes, incluindo a hesitação de Johnson, a incompetência de Trump e a loucura de Bolsonaro, já muito próxima do genocídio pela negação evidente e ostensiva da ciência) e também a imensa evidência à escala regional, como o caso de sucesso pela adopção de medidas não-farmacológicas que foi Veneto, na Itália. Este annus horribillis para todos é também um ano milagroso para os epidemiologistas pela qualidade dos dados que estão a ser registados. Não tenho tempo para rever e sintetizar toda esta literatura. Se HPS interpretar esta desistência como uma derrota minha, não perderei depois o tempo que contava poupar a mostrar que o motivo não era esse — seria uma contradição minha idiota e esta série de textos já é, em larga medida, um overkill difícil de justificar. O princípio que ponho em prática é muito simples e, ao contrário das teorias complexas, os princípios resistem bem à redução a aforismos: extraordinary claims require extraordinary evidence (Carl Sagan). Em nenhum momento HPS foi capaz de reunir a evidência necessária para que se pudesse começar a dar algum crédito à sua tese extraordinária. A evidência sólida sobre a ausência de imunidade de grupo e a ausência de evidência sobre qualquer outra causa (poluição atmosférica, radiação ultravioleta, enfraquecimnto do vírus por degenerescência genética, etc.) capaz de explicar as diferentes curvas registadas nos diferentes países leva qualquer pessoa racional a concluir que foram as medidas não-farmacológicas a vergar as curvas, mesmo sem recorrer a argumentos de autoridade ou demonstrações matemáticas complexas e incompreensíveis para o cidadão comum. Basta usar o princípio da parcimónia: a eficácia das medidas não-farmacológicas é o cenário mais simples e não temos nenhuma evidência sólida que nos leve a complicar esta explicação. Não se trata de defender a aplicação sem critério de medidas não-farmacológicas, limito-me a fazer uma simples defesa do bom senso.

Um exemplo claríssimo do pensamento viciado de HPS foi a forma como reagiu às novidades sobre a imunidade de grupo. HPS voltou a mentir há uns dias quando apareceu aqui para afirmar e reafirmar: 

...mas reparei que o texto dizia que eu defendo que as epidemias param quando se atinge a imunidade de grupo.
É mentira.

(...)

É mentira e não tem maneira de dizer o contrário a partir dos textos que escrevi.
Simples.

HPS,  17.06.2020

A lata deste homem é profundamente revoltante, mas chega a dar pena. Comparado a HPS, Pedro não negou que conhecia Cristo assim tantas vezes. HPS só pode estar a ser vítima de uma memória selectiva mais zelosa do que a melhor das enfermeiras na preservação dos sinais vitais num pavão incapaz de reconhecer as asneiras sem arriscar uma apoplexia. Nos últimos dias, dei exemplos graúdos e miúdos da flagrante da incapacidade que HPS tem em assumir os seus monumentais erros. Prometo o exemplo mais indecente para amanhã e o mais ridículo de todos para terça, mas este resolve-se já. A grande dificuldade não é encontrar a agulha no palheiro da abundante prosa de HPS que o desminta quanto à importância que atribuiu à imunidade de grupo; a dificuldade é mesmo qual escolher, já que foram tantas. Talvez esta: 

Mas à medida que há mais gente infectada, portanto, não infectável, a probabilidade do vírus infectar alguém nesses três dias decai rapidamente porque mesmo que chegue aos pulmões dos que já foram infectados, deixa de estar activo porque é anulado pelos anti-corpos, ou seja, o vírus entra num beco sem saída. (não, não é preciso esperar por ter 60 a 70% da população infectada para que isto aconteça, é uma evolução progressiva).

Foi este processo, e não a ditadura chinesa, que parou o alastramento da epidemia na China, na Coreia e na Itália (para os que estranharem, a mortalidade na Itália tem hoje uma sólida tendência decrescente, o que significa que há uma semana atrás a infecção iniciou também uma sólida descida). O Sol e a Fúria, 2.04.2020

Esta passagem é de Abril de 2020. Sabemos hoje que não foi a imunidade de grupo a vergar a epidemia. Porém, não sobram dúvidas de que era essa a tese (ou uma das teses) de HPS. É verdade que ele tinha outras ideias bizarras no início, muito mal definidas e — francamente — incompreensíveis. Mas o que destaco a amarelo é uma definição inconfundível de imunidade de grupo. HPS podia estar convencido de que não seria preciso chegar ao limiar previsto pela equação clássica e se ainda tiver pachorra para me responder só lhe restará frisar que a epidemia começa a abrandar ainda antes desse limiar, seja ele qual for, na sua estratégia assente numa literalidade e picuinhice absurdas. Enfim, se este simples confronto de citações não chega para concluir que estamos na presença de um reiterado bullshitter, o que será preciso?

Apesar de menos urgente do que tapar logo a brecha no dique da razoabilidade que hoje a voz de HPS representa sempre que se manifesta sobre epidemiologia, é muito mais interessante analisar o seu entusiasmo precipitado com o que ia saindo na imprensa sobre a imunidade de grupo no contexto da COVID-19. Há uma dimensão de pequena tragédia nesse entusiasmo. A ilusão de juventude que nos resta a partir de uma certa idade é mesmo o investimento numa aprendizagem nova (de um instrumento musical, de um país que se escolhe para destino turístico, de um prato de cozinha, de uma qualquer área do conhecimento). Mas quando essa aprendizagem apenas revela o grau de enquistamento a que os anos de vida ou circunstâncias particulares nos conduziram, assistimos à negação da juventude.  Falta ao entusiasmo de HPS a candura — além do estado de graça— de uma Catarina Furtado a falar sobre a sua gravidez como se fosse a primeira mulher a ter engravidado no planeta Terra (esta saquei de um blog desaparecido: Perguntar não ofende). Quando ele se entusiasmou com a ideia de heterogeneidade nas populações (que pode baixar o limiar da imunidade de grupo), reagindo como se a sua epifania também assinalasse o momento em que um conceito com décadas de existência tivesse também entrado na consciência dos epidemiologistas, ou quando reagiu em pose taxativa e triunfante aos 14% de seropositivos de Ganglet, na Alemanha, ou ainda quando gritou um sonante "Eureka!" a propósito do modo preferencial de transmissão do vírus, em todos esses casos testemunhámos o deslumbramento de um homem iludido com a aparente confirmação das suas ideias. Veio a provar-se que estava tudo factualmente errado, tudo mesmo, but that's not the point. O que importa frisar é o estado mental de um homem que não só atribuiu à imunidade de grupo o fim da epidemia da COVID-19 como provavelmente em Abril teve sonhos húmidos com a imunidade de grupo. Que ele ainda tenha a lata de afirmar e reafirmar que não disse que as epidemias param quando se atinge a imunidade de grupo é mais um daqueles casos paradoxais em que a pessoa inteligente consegue ser muito estúpida. E se HPS voltar a dizer que menti sobre este assunto, sugiro que se interne num hospício ou se prepare para se defender na justiça de uma acusação de difamação.

Amanhã descreverei a maior aldrabice que HPS escreveu até agora sobre a COVID-19.

18
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (3)


Eremita

Conversa engripada

Comparar a COVID-19 e a gripe foi um exercício popular entre os relativistas da gravidade da COVID-19. A gripe parecia ser o exemplo ideal para ilustrar o aparente alarmismo que alastrara pelo planeta. Tal como a COVID-19, a gripe é uma doença infecciosa viral das vias respiratórias frequentemente fatal entre os mais idosos e que mata muito por ano (99 000-200 000294 000-518000 ou 290 000-650 000 pessoas, considerando três estimativas recentes). Porém, ao contrário da COVID-19, que no fim de Março tinha feito menos de 40 000 mortos oficiais em todo o mundo, a gripe quase nunca abre noticiários e há décadas que não paralisa continentes inteiros. Haveria melhor comparação para expor os dois pesos e duas medidas? Lamento, mas nem sequer em Março a comparação era persuasiva. Tratou-se de mais uma das manobras reaccionárias clássicas e está identificada há muito tempo como uma falácia, apesar de a palavra que agora usamos para a descrever ser um neologismo que apenas ganhou popularidade recentemente: "whataboutism". A fórmula "E daí? Se [a gripe] também [mata] e não [fechamos o país]..." visa pôr a nu uma hipocrisia ou inconsistência do oponente, mas muitas vezes expõe apenas a limitada mundividência de quem faz o reparo. Vejamos. A novidade estimula-nos mais do que a rotina e, quando como novidade temos uma doença altamente contagiosa capaz de matar, é natural que haja uma mobilização de recursos e atenção que não acontece com as causas de morte que se tornaram rotina. Este mecanismo psicológico pode criar injustiças, mas é-nos intrínseco. HPS, que diz saber alguma coisa da teoria da evolução, não desconhecerá o valor evolutivo do medo e a ligação entre o medo e a modulação da memória, a vontade e a mobilização da atenção. Nesse sentido, comparações entre a COVID-19 e a gripe, acidentes rodoviários, mortes atribuíveis à obesidade ou outras entretanto domesticadas pela experiência ignoram a nossa constituição neuro-hormonal, sendo destituídas de sentido. Não decorre desta trivialidade que a política se deva guiar por impulsos primários. A boa política é, muitas vezes, precisamente a arte de contrariar impulsos primários como o tribalismo, tal como a boa literatura é uma war against cliché e a boa ciência poderia ser definida como uma guerra contra o senso comum, como tão bem explicou Lewis Wolpert em The Unnatural Nature of Science. Significa apenas isto: 1) que as comparações ditas óbvias também podem ser primárias, devendo sempre ser questionadas e eventualmente combatidas; 2) que qualquer modelo sem o medo como parte integrante do ser humano não é muito sofisticado. Por isso, a comparação com a gripe foi um daqueles exemplos de hiper-racionalidade tola ou tique de idiot savant sem a menor inteligência emocional ou percepção da condição humana e, cada vez que alguém ensaiava a conversa da gripe, reemergia na minha memória a passagem de algum Lonely Planet onde li que cocos a cair de coqueiros matam mais homens do que ataques de tubarões, que fora escrita como se depois dessa revelação o leitor com fobia de tubarões fosse logo mergulhar de cabeça no mar de alguma remota praia australiana sem barreira de protecção contra o great white shark. Talvez gerações vindouras superiormente inteligentes arquivem na secção de terror ou suspense um filme sobre um coco serial killer de carecas veraneando nas Caraíbas em que o fruto assassino só aparece explicitamente no último terço da fita, mas eu declaro-me na etapa anterior de evolução da espécie e classificaria o filme como um flop ou objecto de culto na linha da obra do trapalhão Ed Wood. Vamos à gripe. 

Havia suficientes incógnitas e indícios em Março para considerar a COVID-19 uma doença potencialmente muito mais letal do que a gripe. Não revelar apreensão, sobretudo no caso de quem está em grupos de risco ou tem amigos ou familiares em grupos de risco, seria uma atitude anormal. Mas a maior parte daqueles que usaram a gripe como termo de comparação desconheciam o buraco onde se estavam a enfiar, porque a comparação é tecnicamente muito complicada. Aceite-se que, no argumento moral com base no número de mortos da gripe contra a obsessão provocada pelo Sars-Cov-2, devemos usar apenas o número de mortos resultantes do vírus da gripe. Primeiro problema: quem começar a ler sobre a gripe percebe que na estatística daquilo a que se chama "gripe" tradicionalmente incluímos também doenças bacterianas, como as pneumonias provocadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, entre outras. Não vale a pena discutir aqui as razões históricas e práticas para esta agregação, que continua a ser debatida entre os especialistas, bastando frisar que qualquer pessoa de boa-fé entenderia que na comparação com a COVID-19 teríamos de subtrair as mortes provocadas por infecções bacterianas, a menos que a comparação fosse uma espécie de Sars-Cov-2 contra os principais os agentes patogénicos que atacam as vias respiratórias, como aqueles jogos que ninguém leva a sério em que a selecção de um país defronta "o resto do mundo". Mas boa-fé é algo que tem faltado a HPS neste debate, como se percebeu quando critiquei a inclusão das mortes por pneumonia de causa bacteriana, que o deixou num característico modo defensivo rígido e irritante. Quando atinge tal estado, a defesa de HPS tem características de infantilismo e obsessão compulsiva, pois assenta na reiteração de uma literalidade extrema (a crítica não é válida se for usado um sinónimo e não a palavra que ele usou) e na desresponsabilização (ele não pode estar a aldrabar porque o gráfico não foi feito por ele, como se o que estivesse em causa fosse o gráfico em si e não a utilização que dele é feita). A incapacidade que HPS tem em assumir os erros óbvios que acumula na discussão sobre a COVID-19 é um verdadeiro mistério, porque há inclusive provas de que no início ele foi capaz de espontaneamente reconhecer em público um erro que publicou na imprensa e de acusar o erro adicional que cometeu na sua emenda. Será por não se sentir obrigado a corrigir o que não chega à imprensa e apenas põe no blog?  Ou será que a partir de um certo nível de irritação, que cedo se instalou entre nós os dois, ele julga que o dever de honestidade passa a ser facultativo? Não vejo outras explicações. 

Mais um exemplo: na ânsia de inflaccionar os números de mortes devidas à gripe de formas progressivamente mais criativas e desesperadas e também de me apanhar em falso, HPS interrompeu um dos seus amuos para escrever:

Abro uma excepção para lhe deixar o link para o relatório do CDC europeu sobre a época de gripe de 2014/2015, não por si, mas porque alguém pode ter interesse em verificar se o que diz nesta matéria tem algum fundamento, permitindo a essas pessoas comparar o disparate de dizer que a gripe mata até 72 mil pessoas na Europa com a conclusão do relatório de que, nesse ano, terão morrido 217 mil pessoas acima dos 65 anos. HPS, 24.04.2020

A precipitação foi tanta que HPS tresleu o relatório e equiparou o número de mortes em excesso no Inverno na Europa (de cidadãos com mais de 65 anos) ao número de mortos por gripe Europa. Com esta operação, o total de mortos na Europa (incluindo todas as idades), que pode ir até aos 72 mil que referi, passou a 217 mil mortos só entre os Europeus acima dos 65. O Inverno está obviamente associado aos picos de gripe mas também a outras doenças com padrão sazonal, como a trombose coronária, o que explica os números. Repare-se que não desconfiar de um número (217 mil) que atribui um terço das mortes de gripe por ano aos europeus acima de 65 anos só pode vir de quem, mesmo com o número global de mortos fresco na memória, não sabe que a gripe mata sobretudo fora da Europa (em termos absolutos e relativos). Enfim, os lapsos são toleráveis. Mesmo um lapso que triplica o número de cidadãos mortos por causa de uma doença é tolerável. E até mesmo a série de lapsos relapsos de HPS é tolerável. Mas como tratar alguém que abandonou depois a discussão sem reconhecer o erro e deixou passar outras possibilidades explícitas de se redimir? HPS,  sempre lesto nas acusações de "desonestidade intelectual" e mentiras, só pode mesmo ser tratado como um bullshitter, porque não tem a menor preocupação com a verdade. 

Até ontem, creio que consegui evitar responder a insinuações de HPS sobre a minha falta de inteligência e o estado do meu cérebro. Gosto de elogiar a inteligência das pessoas que me impressionam, mas só acuso alguém de burrice — como ontem sucedeu — quando estou irritado, arrependendo-me logo a seguir. A inteligência é muito condicionada pela genética e o meio socioeconómico, estando por isso mais perto de ser uma bênção da sorte — como a beleza — do que uma conquista merecedora de aplauso ou um defeito criticável; catalogar alguém como burro é quase tão cruel e absurdo como acusar alguém de ser baixo ou sofrer de hirsutismo. Seria também uma sacanice acrescida fazer insinuações desse tipo quando se discute num campo mais próximo da minha área de formação do que da de HPS. De resto, creio que HPS tem uma inteligência acima da média. O mistério é mesmo explicar como alguém inteligente, com um doutoramento e traquejado em polémicas pode produzir algumas respostas tão estúpidas. Insisto na tese: a inteligência de HPS foi maniatada pela sua soberba. Só isso explica uma conversa digna da casa dos loucos de Os Doze Trabalhos de Astérix, em que eu procuro explicar que é a combinação da possível maior mortalidade (na altura desconhecida) com o estado de provável virgindade serológica universal da população para o SARS-CoV-2 que tornava o vírus potencialmente muito mais perigoso do que o vírus da gripe. HPS, com base em comparações abusivas e precipitadas, e ainda uma lógica demente, concluiu então taxativamente que estes elementos que eu fornecia só reforçavam a tese de que o vírus da gripe era mais perigoso. A lógica dele era a de que, numa situação de — digamos— igualdade de oportunidades, ou seja, sendo a imunidade na população a cada um dos dois vírus a mesma e havendo e medicamentos igualmente (in)eficazes para uma e outra doença, a gripe seria mais mortífera; imaginemos um Cortéz engripado a chegar ao México e um Pizarro com COVID-19 a entrar no Peru: quem sofreria mais, os Aztecas ou os Maias? A resposta, incerta, só é relevante para uma cabeça maniatada e interessada em ganhar discussões tontas à base de formalismos como HPS, porque a verdadeira questão era saber se nas condições actuais o Sars-Cov-2 era ou não mais ameaçador do que os vírus da gripe e os elementos que eu referia faziam o Sars-Cov-2 potencialmente bem mais periogso do que o vírus da gripe.  Reler aquela conversa hoje não capta o nonsense de então, porque a realidade tratou de transformar os "factos" de HPS em falsidades e aquele nonsense desconcertante e de aroma irresistível foi substituído pelo cheiro nauseabundo da comida fora de prazo. 

Para os relativistas da COVID-19, as imagens e relatos terríveis que chegavam de Itália foram uma maquinação dos media que gerou uma retroacção positiva e acabou criando uma alucinação e psicose colectivas. Não sei se é esta também a tese de HPS, cujas reflexões de pendor conspirativo parecem incidir exclusivamente sobre a China (se quiserem detalhes, apareçam na terça-feira), mas junto um relato de um médico italiano que passou por aquela experiência terrível, desvalorizada com manipulações estatísticas grosseiras e desinformação pelos extraordinários André Dias  e Cristina Miranda:  "This is something I never saw in my life (...) The speed of the disease is very high and (while) the risk for individuals is low-ish, two, three, possibly four percent are at risk of death… the number of infected people is so high that globally it's like a war.” Também nos EUA houve relatos terríveis e a mesma perplexidade resultante do confronto entre a experiência no terreno, incluindo a escassez inédita de ventiladores, e as teses que os relativistas iam parindo no conforto de suas casas.

HPS, como todos os relativistas, dedicou-se ainda a um estranho exercício de anatomia patológica gramatical que passava por saber se as mortes eram de (provocadas pela) COVID-19 ou com (associadas à) COVID-19, isto é, se as pessoas morriam por causa da COVID-19 ou por outra causa mas estando, eventualmente por mero acaso, infectadas pelo Sars-Cov-2. Ainda estou para saber se algum destes relativistas teve a coragem de esticar a coisa até ao limite e declarar que a COVID-19 não mata quase ninguém pois a maioria terá morrido de uma doença degenerativa a que chamamos velhice... Este exercício de profundo mau gosto foi também do que de mais faccioso e ignorante se fez nos meses de Março e Abril. Se os relativistas tivessem usado o mesmo critério para esmiuçar as mortes de gripe e com gripe, é bem possível que a coisa deixasse de funcionar a favor deles e tivessem logo passado a outra manipulação. 

Perdeu-se o timing, mas num espírito de formação contínua creio HPS e os restantes manipuladores ainda vão a tempo de perceber que as mortes associadas à gripe não são contadas da mesma forma que as mortes associadas à COVID-19 — em rigor, HPS parece conhecer vagamente este facto, só não avaliou as consequências daí resultantes. Ele, que detesta e despreza os modelos e as estimativas, talvez não tivesse sido capaz de interiorizar que as mortes anuais por gripe que o CDC publica e as que são calculadas para o mundo inteiro não resultam da simples centralização e contagem dos registos (dos pacientes testados e/ou do excesso de mortes associado aos picos de gripe cujo período é definido pelos testes que detectam o vírus). A contagem actual de mortes por COVID-19 será revista em alta e o aumento será substancial, como substancial é a diferença entre as mortes por gripe que vão sendo registadas no momento e a estimativa final. Quão diferentes?

Between 2013-2014 and 2018-2019, the reported yearly estimated influenza deaths ranged from 23 000 to 61 000. Over the same time period, however, the number of counted influenza deaths was be 3448 and 15 620 yearly. On average, the CDC estimates of deaths attributed to influenza were nearly 6 times greater than its reported counted numbers. Conversely, COVID-19 fatalities are at present being counted and reported directly, not estimated Jama Internal Medicine

Os autores depois entusiasmam-se e levam o argumento longe demais ao fazer uma comparação directa entre os números de mortos de gripe e COVID-19 a partir do resultado dos testes respectivos, porque em 2020 o número de testes que detectam o SARS-Cov-2 é provavelmente (enfim, dependerá do país) muito superior ao número de testes que detectam o(s) vírus da gripe. Mas a sua conclusão de que o número estimado de mortos de gripe nos EUA está inflaccionado ou o número de mortos de COVID-19 está subestimando bate certo com várias notícias que dão conta da subnotificação das mortes de COVID-19, sobretudo durante a fase de crescimento exponencial de expansão desta doença. Em resumo, é preciso esperar para fazer estas comparações com um mínimo de rigor. 

A crítica à conversita da gripe podia ter sido feita a partir dos números que hoje conhecemos e não teria sobrado pedra sobre pedra da argumentação de HPS (conto fazê-lo num outro texto). Mas não quis abordar a prosa de HPS de Março e Abril sobre a gripe à luz do conhecimento actual porque aquilo é uma torre inclinada à partida, assente em fundações péssimas (do engenheiro André Dias) e erguida por um empreiteiro manhoso (o mestre HPS). Que não sobre nenhuma dúvida: aqueles textos já eram coisa de alucinado, ignorante ou aldrabão no momento em que foram escritos.

 

 

17
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (2)


Eremita

Bullshitting

HPS não se cansou de martelar nos leitores a ideia de que as medidas não-farmacológicas (extremas) não funcionam e, por isso, para ele mais vale aceitarmos o inevitável (1,2, 3, 4). Não apresentou evidência que sustente esta tese, que parece ser uma convicção entranhada à custa de umas reflexões sem nexo sobre a teoria da evolução e depoimentos de uma mão cheia de cientistas com opiniões heterodoxas. Uma fonte inspiradora de HPS foi um investigador com uma carreira efémera e entretanto retirado (André Dias), que fez uns comentários no Facebook e depois num artigo de jornal e em entrevistas, ganhando algum protagonismo como contrarian. Não o li, mas a fazer fé nesta crítica não terei perdido grande coisa. HPS terá suspendido o juízo crítico porque as teses de André Dias soaram a música celestial para um liberal desejoso de cascar no Estado e davam-lhe alento para prosseguir com a sua fantasia narcísica de paladino da liberdade, iluminado antes do tempo, voz corajosa entre a "carneirada", enfim, uma postura descrita pelo próprio num texto intiulado "Dejá [sic] vu" que, de tão transbordante no deleite e tamanha auto-satisfação desnudada, chega a provocar algum pudor no leitor. A este caldo ideológico e humoral, junte-se ainda uma pitada de estoicismo, assumido ou inconsciente. O culto da inevitabilidade e da capacidade de aceitar a adversidade,  sobretudo na sua versão de estoicismo de sofá e num país que a COVID-19 poupou, é uma manobra reaccionária clássica muito cativante. E terá sido assim que a recapitulação da história em que o rei vai nu mas ninguém diz nada se desenrolou durante meses no Corta-Fitas. Os leitores de HPS procuravam uns shots de indignação, droga viciante que HPS lhes fornecia de bom grado. Maximizar a indignação provocada pela imposição de medidas de confinamento passava por destruir a evidência de que as medidas são eficazes. Ninguém se preocupou em questionar de forma persistente o que HPS escreveu. E quando tentei estragar aquele festim de desinformação, por pouco não me ofereceram pancada.

Há um texto de HPS que gosto de lembrar. Não o faço apenas para o irritar, mas por me parecer que capta na perfeição o estado mental em que ele se encontrava no fim de Março e de onde não chegou nunca a sair, apesar de uma ou outra cedência pontual ao bom senso. Nesse texto, escrito a 30 de Março, HPS prevê o fim da epidemia nos EUA entre 15 e 21 de Abril (de 2020),  previsão que contrasto na imagem seguinte com a realidade em número de mortos (o que me obrigou a acrescentar uns dias à data de 21 de Abril, tendo por base o período médio entre o diagnóstico e a morte por COVID-19).

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Quando confrontado com o falhanço estrondoso desta previsão, HPS defendeu-se argumentando que era uma brincadeira pois no texto faz-se passar por Zandiga. Esta sua ressalva é HPS vintage: ele não  mente, dá uma grande tanga ou — no sempre inspirado e sintético português do Brasil — fala merda.  A única virtude da série de textos de HPS sobre epidemiologia é potenciar o prazer que um leitor retirará depois do clássico On Bullshit, de Frank  Harry G. Frankfurt (quem não tem tempo para ler pode ver esta entrevista). Para este filósofo, ao procurar ocultá-la, um mentiroso patológico tem consideração pela verdade; ele é o pólo oposto da pessoa honesta. Mas para um bullshitter a verdade não é um princípio organizador. Ele opera num eixo diferente e a forma como usa ou abusa da verdade é puramente instrumental; a verdade e a mentira não interessam, o importante é atingir um determinado objectivo. Nesse sentido, um bullshitter é mais nocivo para a sociedade do que um mentiroso. HPS tem sido um perfeito e caricatural bullshitter na sua discussão da epidemiologia. E a sua reacção ao embaraço que resolveu inflingir a si próprio é mesmo verborreia da treta. Neste primeiro exemplo, a previsão traduz o pensamento de HPS sobre epidemias e não é simplesmente possível desvalorizá-la a posteriori sem tirar as devidas ilações sobre o valor da teoria em que se baseava. Ignorar a previsão seria reduzir HPS à condição de inimputável — não foi a opção que tomei, embora reconheça que teria sido a mais prática.

A teoria de HPS diz-nos que, na ausência de uma vacina, a capacidade de o homem controlar uma epidemia é limitadíssima, pelo que é inútil embarcar em medidas extremas. Trata-se de um completo disparate. O Ébola e o Zika, para lembrar apenas duas epidemias/surtos mediáticos, foram bem controlados com medidas não-farmacológicas e a quarentena é uma medida extrema com séculos de existência e mérito inegável. Para HPS, o vírus expande-se de forma exponencial numa população e depois abranda, mesmo que nada seja feito para o contrariar. Isto está certo, porque a frequência de encontros de um novo infectado com pessoas ainda não imunizadas pelo agente patogénico diminui ao longo do tempo. Infelizmente para HPS, está certo mas é irrelevante para o período que importa(va) considerar. Com os dados crescentes de serologia da COVID-19 que vão sendo publicados, não se conhece um único caso em que a diminuição do número de novos infectados ao longo do tempo se explique por se estar a chegar ao limiar da imunidade de grupo (nem sequer aquele limiar que 15% que tanto entusiasmou HPS e está longe dos 60-70% consensuais). Nenhum caso. Um bullshitter como HPS poderá talvez argumentar que os testes de serologia têm uma percentagem alta de falsos negativos e a discussão sobre a qualidade dos testes é pertinente, mas não seria sério introduzir esse ruído na conversa tendo em conta o que já se sabe — aliás, seria até ridículo, porque o principal problema dos testes actuais são os falsos positivos, não os falsos negativos (1, 2). Ele poderá ainda lançar confusão dizendo que as percentagens de seropositivos ao nível do país são abstracções enganadoras porque o que conta é a percentagem de seropositivos nos centros urbanos mais atingidos. Se o fizer, será preciso rever outros estudos e esta série não terá sete textos, serão nove. Não antecipo outra crítica, mas reconheço que HPS sabe ser desconcertante. Enfim, na ausência de uma alteração climática óbvia e comum ou outro efeito generalizável, a diminuição da infecção que foi observada na Ásia e Europa só é explicada pelas medidas não-farmacológicas. A forma e o timing da inflexão das curvas de casos e de mortes em cada país é compatível com estas noções elementares. Entre os múltiplos estudos disponíveis, quem ainda tiver alguma dúvida pode ler um artigo recente e muito curto (na Lancet) que parece ter sido escrito tendo em mente pessoas da estirpe de HPS, pois é baseado na evidência e no bom senso, sem recorrer às simulações sofisticadas de que HPS tanto desconfia. A juntar aos dados de seropositivos que referi (C, na imagem), os autores lembram ainda que a mortalidade per capita estabilizou em patamares diferentes (A), o que é incompatível com a intuição de HPS de que o vírus se destruiu a si próprio, e mostram uma correlação forte entre as mortes por milhão até à adopção do confinamento social extremo e nas seis semanas que se seguiram à adopção do confinamento. Os gráficos A e C são simples de perceber, creio. Já o significado da correlação observada em B não é de apreensão imediata. Mas o que nos diz é que os países que aplicaram o lockdown mais cedo (quando  a mortalidade relativa acumulada até então era ainda era baixa) foram também aqueles em que se registaram menos mortes nas semanas após o lockdown. Se na altura do lockdown a imunidade de grupo estivesse já a fazer efeito, escrevem os autores que  não seria de esperar uma correlação entre estes números (a esperar alguma coisa, seria uma correlação negativa), porque o lockdown não tem efeito no limiar da imunidade de grupo e quanto mais tarde se escolhesse o momento em que separamos os dois períodos em análise mais perto estaríamos da imunidade de grupo e menos mortes iríamos observar no segundo período (o que produziria uma correlação negativa). A fortíssima correlação linear (positiva) é incompatível com a hipótese de que a diminuição dos novos infectados se deveu à imunidade de grupo (a teoria de HPS) e é compatível com a expectativa ortodoxa de que o lockdown é mais eficiente a cortar a transmissão da doença e a diminuir as mortes dela resultantes quando posto em prática quando a transmissão ainda é baixa. 

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16
Jun20

A COVID-19 e o negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (1)


Eremita

 

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Intróito

Na longa série de textos sobre a COVID-19 que Henrique Pereira dos Santos (HPS) começou a publicar no blog Corta-Fitas a 12 Março de 2020 encontramos um exemplo notável de pensamento negacionista. Como o autor ficou muito melindrado com este epítopo e nos últimos meses ganhou o hábito de me acusar de ser mentiroso, sinto-me na obrigação de defender a minha posição e arrumar este assunto de vez. Ao fazê-lo, suspeito que darei a HPS mais um pretexto para se queixar de um "ataque pessoal" e temo atrair para aqui os latidos da matilha de machos beta que rodeiam HPS e me consideram um "psicopata", entre outros mimos, mas não sobra outra alternativa. Para evitar um equívoco que tem sido recorrente, friso que não criticarei as teses libertárias de HPS, nem as suas especulações sobre o impacto do confinamento na economia e qual teria sido a melhor estratégia para lidar com a epidemia. Há  prosa muito estimulante, como as várias reacções ao hoje famoso texto “Lo stato d’eccezione provocato da un’emergenza immotivata” publicado por Giorgio Agamben  a 26 de Fevereiro (1, 2, 3, 4), mas não é o que pretendo discutir. Espero que fique claro que eventuais reacções alarmistas da população, dos media e do Estado quanto à COVID-19, e até uma eventual evidência de que se morre mais da cura do que da doença, ainda que muito mais cativantes como tópicos de discussão para 99% das pessoas do que o rigor científico e o respeito pela verdade no espaço público, são irrelevantes para avaliar a qualidade e honestidade dos textos de HPS sobre epidemiologia. Excluir estas suas legítimas e porventura até sensatas teses da crítica que apresentarei não significa que o liberalismo seja irrelevante para o negacionismo que conto provar. Suspeito até que essa sensibilidade foi determinante para a visão cavernícola de HPS sobre epidemiologia e para a sua desonestidade reiterada, levando-o num primeiro instante a diminuir tanto a gravidade da pandemia como a relevância das medidas não-farmacológicas extremas e, num segundo tempo, a negar constantemente a evidência. Mas é mesmo apenas a negação da evidência que me interessa e não as suas causas. Se recorrerei a algumas interpretações de foro psicológico será apenas para qualificar e justificar a descrição de "negacionista" que tanto incomodou HPS. E para prevenir outro equívoco que consigo antecipar, não está também em causa o currículo de HPS, nem o seu direito a aventurar-se em áreas do conhecimento fora da sua formação académica. Sou biólogo mas não me sinto na obrigação de defender uma suposta coutada dos biólogos. O que conta é a substância da contribuição, não o título académico. De resto, entre muitos dos pioneiros da Biologia Molecular do século XX que admiro, durante aquele período que, de Aristóteles até aos nossos dias, foi provavelmente o período mais importante de toda a história da disciplina, estão vários físicos que de início nada sabiam de biologia. O problema de HPS na sua aventura pela Biologia é que, após três meses, ainda parece saber menos agora do que o pouco que no início demonstrava saber. Não encontro nos textos de HPS nenhum desejo de chegar à verdade, nem sequer a chama da curiosidade que possibilitou a civilização, apenas manipulações para consolidar convicções. Feitas as ressalvas, só me resta avisar que a prosa seguinte é muito longa, muitíssimo aborrecida e que foi uma frustração perceber o tempo que este assunto me tomou. 

Amanhã há mais. O texto só precisa de uns retoques finais, mas ficou tão extenso que só faz sentido publicá-lo num blog se for às mijinhas.

 

 

 

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