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OURIQ

Um diário trasladado

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26
Jan18

Do gozo de pressentir o fim


Eremita

Termino hoje a leitura de O Leão de Belfort. Eis uma vantagem da leitura sobre o cinema e até o seriado televisivo de culto, hoje consumido de uma assentada (binge-watching): sentir que o livro está quase a acabar e antecipar um gozo que mistura o conforto de um dever cumprido, o efeito retroactivo intensificador sobre toda a leitura prévia do livro e a satisfação da curiosidade sobre como termina a história, e cuja intensidade é directamente proporcional ao tamanho do livro. Destes três prazeres, o último é o que menos me interessa. Aliás, este livro de Alexandre Andrade caracteriza-se precisamente pela ausência de suspense e uma grande contenção no uso de tragédias e volte-faces. Por outro lado, é uma novela sobre a importância do segredo, como motor da História e da existência. Conto desenvolver. 

 

 

05
Jan18

8


Eremita

Oitava entrada de Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias... ou A Educação de um Revolucionário... ou Julião: um Percurso Político... ou outro título qualquer. A oitava entrada é a primeira prolepse. Tem ainda a particularidade de pertencer à série Canhotismo e também à série Leituras de Cabotagem, que acabo de criar e me obrigará a um trabalho de catalogação de muitos posts antigos.

 

[prolepse]

 

Julião avançava com rapidez pelo corredor definido, à esquerda e à direita, por quinze secretárias perfeitamente alinhadas, cada uma equipada com um computador. Trinta membros do partido trabalhavam ao teclado e mexiam em papéis e dossiers, não parecendo mais atarefados do que nos instantes que precederam a entrada de Julião. O pé-direito era alto, através do picotado das persianas já se percebia o lusco-fusco da rua e, no interior, a luz ambiente vinha apenas dos trinta candeeiros de secretária, modelos cromados de braço em manga maleável, vintage mas baratos. A atmosfera do longo salão só parecia kafkiana no mobiliário, porque as roupas eram modernas e os treze ou quatorze que não trabalhavam com auscultadores chegavam para criar algum burburinho jovial. Depois de estacar diante da quinta secretária da direita e de pegar numa folha, Julião teve de elevar a voz para que os três que o seguiam com o olhar ouvissem o que lia: 

 - "Anaïs era larga de corpo, morena e atlética, delicada de feições excelente ouvinte, assistente social de profissão, canhota, irónica, paciente até ao infinito, porém implacável com os sonsos e com os presunçosos." Gosto. Mata alguém?

- Ainda não acabei a leitura, mas duvido; é uma personagem simpática. 

- Com força moral?

- Sobretudo bondosa e justa; serve a causa. Mas devo precisar que talvez trabalhe em publicidade, não se percebe bem...

- Não é excessivamente grave.

- De quem é?

- De Alexandre Andrade. O livro chama-se O Leão de Belfort

- Não conheço. É dos nossos?

- Ainda não excluí essa possibilidade, mas até agora nada parece confirmá-la. 

- O costume...

- É um físico, autor de culto.

- Já temos um retrato da... Anaïs?

- Talvez amanhã. 

- Façam-na bonita. 

 

Longe iam os tempos em que, sozinho, Julião passava os serões no seu quarto a compor biografias épicas dos  grandes canhotos da História e a catalogar todas as personagens canhotas que encontrava nos livros, filmes, séries, peças de teatro, quadros, fotografias e banda desenhada. Ele não se contentava com as costumeiras listas de canhotos famosos, incompletas, sem critério nem enquadramento. Queria abarcar o mundo inteiro, compor uma História Universal segundo os canhotos, sobre canhotos e para todos, definitiva pelo rigor, o alcance e o aparato teórico, que precisasse apenas de actualização periódica. Sonhava também com "o panteão dos esquerdinos". 

Continua

 

 

 

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  • Anónimo

    Só no intervalo do 1º parágrafo para o 2º é que de...

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    Vejam a lista de ministros da saúde e os seu currí...

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    Vasco, diz aí ao Eremita para ele transmitir ao Va...

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    Meu lindo, tem dias.

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    schhhh, já passou, pronto, tu és um bocado chato.

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