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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Jun19

A poção de Panoramix (23)


Eremita

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Estamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que sugere sermos vítimas de uma ilusão. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha, ainda que seja apenas uma edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Se eu escrevesse tal livro⁠ — coisa que não farei⁠ — dividiria a alcunha em quatro tipos. Há a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano. Temos a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa. Existe a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não. E guardei para o fim a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. Deixo a cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.


Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica, pois como éramos imberbes só pode ser do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de preparação física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Tudo é relativo e os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos quantidades inconcebíveis de pastilhas efervescentes coloridas: "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Mas continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: era a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles miúdos tímidos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam num prédio de magistrados. Só que N., comnhecido por ter um raciocínio escorreito, lembrou-se de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.


O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais escrupulosos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, atacou a raiz do problema. Chamou-nos e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:


- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e nos últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.


- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?


- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito. Sem dopping!

 

As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e abraçá-lo também. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido entre todos os que moravam naquele prédio e entretanto cresceram.

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

19
Jun19

O silvo da gadanha (22)


Eremita

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No princípio do Verão chegavam uns homens envergando as fardas tristes dos empregados da Junta de Freguesia. Vinham com longas gadanhas, que usavam para aparar a relva do nosso campo. Anos depois estes homens seriam dispensados, reciclados, relocalizados ou sumariamente despedidos por causa das segadoras mecânicas. Os meus amigos ficaram fascinados pelas máquinas, que eram vermelhas e pareciam uns karts lentos, mas eu desconfiei logo à primeira interacção, quando os vi a cortar a relva no sentido do comprimento do campo. Tanto o meu pedido para orientarem as máquinas no sentido da largura como a pergunta de saber se seria possível desenhar as barras de contrastantes tonalidades de verde dos campos oficiais — "ia ajudar no fora de jogo…"—, foram recebidas com enfado. Disseram-me para não os incomodar e que tinham ordens para poupar as máquinas e não abusar das curvas (se as orientassem no sentido da largura do rectângulo de jogo acabariam por ser obrigados a curvar mais vezes). Era gente nova e apressada, seguramente com um segundo emprego. Tive logo saudades dos segadores a força de braços, que eram homens de meia-idade e ali no nosso relvado pareciam rejuvenescer. Às vezes traziam as mulheres com eles, que colhiam a relva cortada e a punham em grandes sacos de serapilheira de plástico. Almoçavam sempre à sombra do mesmo plátano novo e comiam uma merenda preparada em casa. Impressionava-me a técnica com que cortavam a relva, os movimentos curtos, interrompidos sem cadência definida por um mais amplo, que cortava o silêncio com um silvo. A lâmina, enorme e curva como um sabre árabe, tinha já fendido inúmeras vezes a biqueira das bocas que calçavam. Um dia deixaram-me brincar com uma gadanha, sempre de olho em mim e vigiando os meus os movimentos. Mesmo assim experimentei uma irreprimível sensação de poder e no dia seguinte estava lá de novo, para brincar com eles outra vez. Creio que foi por causa daquelas tardes que depois demoraria tanto tempo a perceber a personificação da morte na forma da ceifadora de vidas. Para mim uma gadanha era, antes de mais, um brinquedo.


Brinquedos seriam também as duas das máquinas de cortar relva negligentemente abandonadas pelos técnicos durante uma pausa para umas cervejas. A oportunidade surgiu já após a minha desagradável interacção com eles e a tal justificação de evitar fazer curvas com as máquinas. O nosso plano inicial era usar as máquinas para cortar a relva no sentido da largura do campo, mas a sede de vingança acabou por tomar conta de mim e consegui convencer o meu parceiro a abusar das curvas ainda mais: "olha, pá, vamos antes começar no centro do campo e cortamos isto aos círculos concêntricos, não achas? Afinal, quando foi a última vez que alguém deixou de marcar um golo por estar fora de jogo, hã?

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

17
Jun19

Vangelis no subúrbio (21)


Eremita

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A janela do quarto escancarada, a persiana corrida pela metade e a aparelhagem puxada ao limite, debitando música para a rua, eis uma circunstância tipicamente suburbana. Só que jogar ao som dos Joy Division dava-nos pouco alento. Não perseguíamos os passes em profundidade. Com os Iron Maiden ficávamos frenéticos e violentos. Uma vez alguém pôs os Smiths, mas aí interrompemos a partida para poder ouvi-los melhor, sentados na relva. Foram acontecimentos episódicos. Até que surgiu G., um cinéfilo incipiente que se mudara para o nosso prédio. G. tinha um plano: gorducho e feioso, queria chegar ao estilo aristocrático do Ardiles e não olhava a meios. Deslumbrado com o Fuga para a Vitória, acreditou que o futebol podia transformar-se com uma banda sonora. Foi então que durante meses aturámos a experimentação do moço. Da nona às cantatas de Bach, passando pelos violinos de Smetana, a discoteca do pai de G. – melómano e erudito – foi passada a pente fino, até ao dia em que G. pôs um vinil de  Schönberg a tocar e antes de chegar ao campo já lhe tínhamos partido o vidro da sua janela como retaliação; não havia dodecafonistas nos Olivais Sul. Mas nem isso o demoveu. A finta de um Ardiles imenso na escuridão do cinema Império perseguia-o. Seria também no cinema que G. encontrou a solução, enquanto via o Chariots of Fire. Praticar desporto ao som de Vangelis é kitsch, dirá o leitor. Ouvir Vangelis é kitsch, atalhará. Impõe-se um ponto de ordem: há uma cinematografia que sobrevive da exploração do prazer inconfessável que é vibrar pelas vítimas, mártires e heróis. Vangelis é a expressão acústica dessa trafulhice, mas com o mérito de prolongar o êxtase transitório que tende a coincidir com o momento em que o protagonista dá a volta ao seu destino. Quando G. colocou a banda sonora de Chariots of Fire, passámos todos a levitar, como se voássemos baixinho – se me é permitido roubar esta expressão. O tempo desacelerou, os nossos gestos tornaram-se grandiosos e vistos em câmara lenta, como se estivéssemos a ser imortalizados em tempo real. G. galgou os lances de escada e quando saiu do prédio percebeu que tinha acertado. Antes de entrar no campo, despiu a sweatshirt com algum dramatismo, revelando a sua camisola listada a azul-celeste e branco. Foi como Osvaldo Ardiles que deu o primeiro pontapé. O sonho durou dois dias, até o pai lhe ter proibido o Vangelis no hi fi topo de gama.

06
Jun19

O futebolista total (20)


Eremita

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O conceito de futebol sempre foi mais consensual do que o de futebolista total. Nos anos oitenta, a noção de futebolista total estava desacreditada. Com um discurso onde a palavra "portanto" pontuava frases feitas, o craque não primava pela eloquência. Era também ainda popular uma anedota sobre Eusébio que metia tremoços, racista e revivalista. Mas, livres de preconceitos, o que a prática nos dizia era que a qualidade futebolística não morava nas pernas, mas percorria o corpo todo e, consequentemente, só podia emanar da cabeça. Alguns dados empíricos de relevo: D. era de longe o melhor jogador do bairro. Fintava, rematava de todas as maneiras, roubava bolas e passava como mais ninguém. Os pés de D. eram mágicos. Sucede que também os pulsos de D. eram magníficos, quando jogava matraquilhos. E os dedos de D. eram sublimes, quando jogava Subbuteo e, mais tarde, futebol no computador. Concretizando, D. era um jogador total, e onde houvesse uma terminação nervosa, acontecia futebol. É por isso que nos custa mais assistir à degradação moral de um Garrincha ou um Maradona do que a uma tragédia que apenas atira o futebolista para uma cadeira de rodas. Um xadrezista com as duas mãos amputadas não deixa de ser um xadrezista. Com um futebolista paraplégico pode suceder o mesmo.

05
Jun19

Um guardião fetichista (19)


Eremita

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Talentos superiores têm um absoluto desprezo pela História. Às vezes é só arrogância, outras vezes excentricidade pura. O nosso guarda-redes, por exemplo, pensava que "Yashine" era uma variedade de haxixe mais barata. Não coleccionava fotografias do Schumacher, nem sofreu quando o alemão quase matou um francês. Tão-pouco rejubilou. O miúdo tinha era uma relação descaradamente fetichista com as bolas. Desconfiávamos que ele não gostava de futebol, mas era excelente entre os postes e imbatível nas imediações da baliza. Nos primeiros tempos, só as penalizações por antijogo não faziam dele um jogador perfeito. Nunca ninguém ficara tantos segundos no chão, sobre a bola, soltando - diziam alguns defesas, com embaraço - gemidos e sussurros. Podíamos estar a perder, mas a cena repetia-se. E era coisa tão íntima que nenhum de nós tinha coragem para o interromper. Com o passar dos anos e o despontar de uma sexualidade mais exigente, o nosso guarda-redes foi acumulando caprichos. Primeiro dispensou as luvas. Depois começou a trazer uma bola extra, que acariciava durante as nossas ofensivas. A seguir trouxe duas bolas. Três bolas. Um pequeno harém de bolas. Bolas da Adidas, irrepreensivelmente esféricas e novas, bolas de borracha deformadas e sujas, bolas vazias, com o côncavo da mórula, bolas vermelhas levíssimas, que o vento empurrava para longe dos postes. Foi o descalabro moral e desportivo. O guarda-redes caíra em tentação e ninguém nos livrava das derrotas. Perante tantos objectos de desejo, para quê arriscar uma estirada? Arranjámos um substituto, um fulano normal, de gosto canónico pelo futebol, que exigia que o tratássemos por Zoff e tinha o quarto forrado a posters da Onze. Brutal contraste com o quarto do nosso antigo guarda-redes, cada vez mais libidinoso e a transferir o fetiche por bolas por uma tara por mamas. Seguindo a espiral de decadência, soubemos anos depois que o rapaz andou a servir copos num bar de alterne, antes de emigrar para a Califórnia, perseguindo uma ideia revolucionária e patenteada: substituir a silicone pela câmara-de-ar.

31
Mai19

A espada de D.(19)


Eremita

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Muito se aprende dentro dos elevadores. Duas pessoas que mal se conhecem, numa viagem do rés-do-chão ao oitavo andar podem não trocar uma palavra, mas o espaço exíguo e a monotonia da paisagem que desfila vão forçá-las a uma interacção silenciosa, feita de olhares que se evitam e de uma subtil redefinição do posicionamento de ambas, como se pisassem um tabuleiro de xadrez no chão e fossem pedras de um jogo em fase derradeira. A mais aguda dessas pressões viria eu a sentir quando tinha o hábito de subir até ao quarto andar à procura de um amigo e M. aparecia no último instante, não deixando que a porta se fechasse antes de se esgueirar para dentro do elevador como se o estado sólido ganhasse por instantes a maleabilidade dos corpos líquidos; nunca ninguém voltará a entrar num elevador de forma tão graciosa. Durante o percurso eu ia corando com os pensamentos pecaminosos que aquele corpo inspirava, um corpo mais velho e irrepreensivelmente cinzelado, ao ponto de não parecer dali. Aquilo nem no cinema se via, mas ela tratava-me como uma criança. A minha vontade era que o elevador parasse e ficássemos presos, que a luz faltasse e eu então ganhasse coragem para lhe tocar. Iria depois ter ocasião de reparar que este delírio, julgado tão íntimo e pessoal, faz afinal parte do cânone das fantasias sexuais de adolescentes e outros, sendo esta mais uma daquelas constatações que causam primeiro alguma paranóia, como se alguém nos tivesse roubado o segredo, depois alguma desilusão, pois não somos tão únicos como pensáramos, e por fim algum consolo, visto percebemos que partilhamos uma perversidade universal. Como se sabe, por vezes a ordem destes estados de alma varia, podendo inclusive os três surgir ao mesmo tempo, embora haja quem experimente apenas um durante toda a sua vida.

 


Pouco bafejado pela sorte, na única vez que o elevador encravou a sério, a pedir a intervenção de uma equipa de bombeiros, eu estava na companhia de D., um tipo catita e o melhor jogador do prédio, mas apenas isso. Vínhamos de uma peladinha e ainda algo animados pelo jogo. O elevador encravou precisamente entre dois andares, deixando-nos com a desagradável sensação do emparedamento, pois nenhuma das janelas das portas imediatamente acima e abaixo era visível. Não entrámos em pânico e eu consegui controlar um pico de claustrofobia. Como a campainha do alarme estava avarida, limitámo-nos a lançar dois ou três gritos de alerta. A nossa situação não era dramática. Cedo deram por nós e sabíamos que em breve iríamos sair dali. A tentativa infrutífera de nos passarem algumas bolachas Maria pela frincha de uma das portas deve ser vista apenas como uma pulsão para acrescentar dramatismo ao episódio. Ainda assim, ficámos umas três horas lá dentro e, quando as circunstâncias forçam o convívio, há um pacto implícito que nos faz mais francos e, uma vez reposta a normalidade, nos obriga a um voto de silêncio sobre o que se contou. Da conversa de circunstância, D. foi lentamente escorregando para zonas mais sombrias. "E se este é o meu momento de glória? E se depois acaba?". "O quê?". Ele insistiu: "Se isto é o ponto alto da minha existência... Se vou ficar para sempre como o melhor jogador do bairro e nada mais volta a acontecer na minha vida?". "Pelo menos foste o melhor do bairro. Muitos há que..." "Mas o problema é esse, pá. E se esta fama local me suga as energias e me deixa satisfeito?". "Bem, sabes que se guardares as taças tens sempre forma de provares as glórias passadas..." "Não gozes. Não quero ter o meu momento de glória demasiado cedo, percebes?" "Pá, essas coisas não se esgotam". "Achas?" "Acho". Talvez não achasse. Já havia percebido que há uma certa tendência para reduzir uma pessoa de génio ao seu génio, tirar-lhe todas as outras dimensões e depois usar um juízo crítico implacável para a destruir, só porque nunca mais conseguiu chegar ao nível do passado ou entretanto apareceu alguém melhor. É esta a desforra dos medíocres. Mas nunca tinha pensado como a pessoa de génio se analisa e de que forma o génio lhe pode pesar. D., a partir da segunda hora era um tipo amargurado. Nunca mais esqueci aquele diálogo. Salvos pelos bombeiros, nos dias seguintes voltaríamos a jogar. D. continuou naturalmente a ser o melhor, só que eu passei a olhar para ele de outro modo e mal conseguia disfarçar o receio. Não havia forma de deixar de ver a tal espada de Dâmocles a pairar sobre D., sempre a apenas uns dedos de distância e ziguezaguendo com ele, mesmo durante os seus slaloms mais desconcertantes.

24
Mai19

O Adónis da Bavária (18)


Eremita

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A aversão que tive por marcas chegou ao ponto de arrancar as etiquetas da roupa, um acto com uma ideologia subjacente e conscientemente estúpido. Um único nome resistiu a tal purga: Adidas. Ainda hoje é a única marca desportiva que me atrai. Era costume imaginar uma fábrica imensa da Adidas na Europa central, a regurgitar chuteiras e ténis Nastase 24 horas por dia. Os meus operários tinham a fisionomia e o arcaboiço bem torneado que via nos murais, mas não eram torneiros mecânicos da Lisnave nem gente da Marinha Grande; não sopravam o vidro, enchiam bolas de futebol. Muitas vezes sonhei que espreitava a fábrica do cimo de uma colina, ponto alto de uma aventura pela Europa a cravar boleia a camionistas e a enfiar-me dentro de carruagens de mercadorias. Consigo hoje imaginar sem dificuldade formas mais estimulantes de um miúdo gozar a clandestinidade na Europa Central. Em minha defesa, só posso lembrar que não escolhemos os sonhos. De resto, não falo de uma idiossincrasia. O fascínio pela Adidas era epidémico. Um colega tinha uns Nastase perpetuamente imaculados e pregava longos sermões em quem tivesse estado perto de os sujar. Este rapaz falava com os ténis e dera-lhes não sei se um ou se dois nomes próprios. Conheço uma mão-cheia de outros casos a roçar a demência.

 


Pensar na Adidas comporta alguns riscos, como se alguém tivesse indexado uma série de recordações a esta palavra, sem discriminar entre as que são delicadas e aquelas perfeitamente inócuas. Fico agora a pensar nuns calções da Adidas azuis-escuros com riscas brancas. Foi no Verão, fazia um calor insuportável e jogávamos à bola na praia mas longe do mar. O tipo dos calções era alemão. Sem que pudesse perceber o que estava a acontecer, de repente pareceu-me tratar-se de um belo rapaz. Gostei de o ver com os calções, fixei-lhe as coxas bronzeadas, quase não mais olhei para os outros. Temendo que notassem o meu interesse, optei logo por abandonar a partida, inventando uma desculpa qualquer. O episódio perturbou-me. Ainda não tinha currículo sexual, provas dadas. Assumia-me como heterossexual, claro, gostava de raparigas, mas talvez como se gosta de bichos exóticos; do Mico Leão, por exemplo. Não havia propriamente tensão erótica. Era ainda um miúdo quando o Adónis da Bavária apareceu a estragar-me as férias grandes. No regresso à escola vinha com a atenção redobrada e muita apreensão. Por sorte, era tradição começarmos o ano lectivo logo com uma peladinha depois das aulas. A entrar pelo meu corredor surgiu então um tipo com os mesmo calções azuis da Adidas, um ar também germânico, forte e loiro, arianíssimo mas ainda bronzeado da praia. Só podia ser um teste, mas não comentei a coincidência por falta de cúmplice. No momento capital envolvemo-nos numa disputa de bola em corrida e caímos um sobre o outro. Nos instantes de lucidez que se seguiram senti-me cientista e cobaia partilhando o mesmo corpo. Apressei-me a registar mentalmente todas as impressões daquele contacto físico: uma dor lombar, um insuportável cheiro a suor masculino, uma total falta de delicadeza, um desconforto geral, mas apenas físico. No resto, só indiferença. Sorri de contentamento quando ele ainda estava por cima de mim. O rapaz estranhou e levantou-se logo, a marcar-me com o sobrolho carregado. E eu a sorrir, sempre a sorrir. A minha orientação sexual resolveu-se naquela tarde. O que fazer com as recordações que envelhecem mal, como este alívio, hoje datado?  Sou pela inviolabilidade da memória. Daí a uns meses a Cristina entraria na minha vida e começaria a sofrer do desgosto de amor. 

22
Mai19

Realismo mágico (17)


Eremita

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Nunca consegui passar dos 124 toques na bola sem a deixar cair. O número é embaraçoso. Não abro o Guinness Book há anos, mas o recorde deve andar pelos quatro dígitos. No bairro havia quem chegasse aos 1000 toques. Eu dominava os rudimentos do malabarismo: manter a bola baixa, quase colada ao pé, e estar sempre equilibrado, enquadrado com o esférico. Manter a bola baixa não melhora apenas o controle; aumenta o número de toques por unidade de tempo. E o tempo é importante. Aliás, ainda hoje defendo que o recorde de toques na bola é definido menos pelo domínio técnico do que pela resistência ao tédio ou, se se preferir, a capacidade de concentração. Sucede que esta é uma opinião sem suporte empírico. Como se verá.


Um dia resolvi desafiar um amigo para um duelo de toques. Escolhi-o a dedo: um tipo melhor do que eu mas de excepcionalidade improvável, rapaz para valer talvez uns 200 toques em dia inspirado. Perdi o primeiro embate (198 a 67), o segundo (167 a 90) e antes do terceiro fiz deslizar o meu trunfo da manga: "e se fôssemos contando uma história enquanto damos toques?". Fez-se silêncio e esperei pela facada óbvia em quem expunha o flanco: " bem, tu apenas terias tempo para uma anedota curta...". Mas não. Ele concordou sem se alongar. Era de poucas falas. Na minha cabeça a disciplina que contar uma história implica faria com que eu não cedesse à vadiagem mental que a partir dos 50 toques me atacava e, pelo contrário, perturbaria o meu adversário, incapaz de encaixar a bivalência e de se acomodar à novidade. O preconceito óbvio era que eu seria um "criativo" e o meu adversário um burocrata. Comecei eu, num arranque prudente ao décimo toque, com um "era uma vez..." Não passei dos 45. A história saiu pífia e ficou por concluir. Depois foi a vez dele. Ao quarto toque soltou para o ar: "a vinha foi o presente envenenado que inquinaria quatro gerações e num século conduziria os Andrade à decadência moral e financeira..." Aos 350 toques ainda eu não conseguira fechar a boca de espanto. Diante de mim revelava-se um génio do realismo mágico, que improvisava uma história em flashbacks múltiplos e fazia a trama correr sem hesitações pelas quatro gerações dos Andrade, metendo bruxaria, animismo e nunca trocando os nomes. Nem deixando cair a bola. Havíamos começado pouco depois de almoço. Ao crepúsculo eu ouvia - com irreprimível interesse- a descrição da melhor colheita de sempre dos Andrade. Os Andrade prosperavam, tinham um futuro risonho pela frente e só mais três horas de narrativa poderiam levar aquela história idílica aos abismos antecipadamente descritos. E ele nas calmas, com 4600 toques, sem sequer se excitar nas partes que envolviam o Andrade patriarca e a criadagem mestiça e viçosa. Um génio. 5000 toques. Quando o chamaram da janela para que fosse jantar, passou-me a bola com o pé e eu tentei dominá-la no ar, mas desequilibrei-me. Ele então olhou-me com candura e o que disse foi sincero: "se quiseres continuo amanhã e fazemos disto um folhetim".

17
Mai19

Um tapete de Arraiolos (16)


Eremita

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Fartei-me de fintar sobre um tapete de Arraiolos. A textura do tapete presta-se a realçar o efeito que damos à bola e um tapete é um tapete, capaz de amortecer uma queda. Não é descabido pensar no tapete como substituto da relva. Ainda hoje penso que a oficialização do tapete de Arraiolos nos jogos da primeira liga faria do futebol um jogo mais nosso e ressuscitaria uma indústria, tal seria a procura de metro quadrado de tapete virgem à segunda-feira. Cheguei a esta conclusão por acidente. Na casa a divisão mais espaçosa era a sala, onde havia um belíssimo tapete de Arraiolos, de uns dois metros por três, que juntava em tons de azul animais e motivos geométricos. Estando sozinho, não resistia a encenar umas jogadas. O verbo é exacto. Sozinho ninguém consegue jogar à bola. Não que seja impossível. Podemos ficar a dar toques ou a chutar a bola contra a parede. O problema é o impulso megalómano, a fantasia que toma conta de nós. Na presença de outros a coisa fica refreada. A sós, inventamo-nos à medida de um Eusébio. Eu entrava na sala com uma bola meia vazia e submissa, em fintas à Chalana, a sentar russos no tapete, e armava depois um petardo à Sousa, apontando ao canto superior mais distante do sofá e ficando a gozar o risco de a bola poder deixar em cacos o tesouro da família que era uma terrina da Companhia das Índias. Às vezes dava-me para ser mais subtil, à Jordão, e olhava para as almofadas como se lhes perguntasse: "para que lado querem?" Tudo era feito enquanto relatava a jogada e imitava o som ensurdecedor de uma multidão em delírio. Depois festejava e abraçava todos os meus companheiros inventados. Abraçava-me, claro. Foi um vício terrível, o dos abraços a mim próprio, mas que me deu uma envergadura de ombros apreciável. Por causa dos ombros tornou-se depois hábito perguntarem-me se eu fizera desporto. E eu dizia que sim, mas sem entrar em grandes detalhes. Perante o ar meio desconfiado com que ficavam cedo, comecei a mentir. Ainda hoje consta que pratiquei imensa natação. Não valia a pena complicar, não fossem descobrir que uma vez derrubei mesmo a terrina. O tesouro, se hoje ainda subsiste, é graças às propriedades de amortecimento do tapete de Arraiolos e a algum talento meu para manusear um daqueles tubos de cola de propriedades cientificamente provadas.

16
Mai19

Afonso Melo (15)


Eremita

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Há duas décadas, os oito ou nove anos que A. leva de avanço valiam muito mais do que agora. Era um tempo marcado pelas canções de Paul Simon, Camarate e uma febre incipiente de escrita, que deixou muitos de nós em delírio. A febre deu em fartura, a julgar pelo número de jornalistas que saíram daquele prédio. Conto pelo menos cinco, que hoje são nomes conhecidos da imprensa e da rádio. Ao fundar a Cocas, uma revista de humor, crónicas e cartoons, feita de páginas A4 dobradas e agrafadas na lombada, A., que escrevia com graça e desenhava bem, não podia desconfiar ter iniciado um movimento sem paralelo nos restantes prédios dos Olivais. À Cocas seguiu-se a Lince, que contava com o talento de um futuro pintor. Veio depois a Urso. Ambas as publicações eram honestas mas nunca chegariam ao brilhantismo e impacto da Cocas. Guardo duas frustrações vagamente traumáticas desse período. A primeira: como escrevi a página de curiosidades de um dos números da Lince, marcou-me saber que Bjorn Borg ganhar oito escudos por segundo no princípio dos anos oitenta. A segunda: nunca ter contribuído para as edições a preto e branco da Cocas. Não sei onde A. e os seus colegas preparavam a revista. A Lince era feita numa das caves do prédio, em clima de rivalidade, o que chegou a resultar em alguns golpes palacianos e no roubo de uma edição completa da Cocas, pronta a ser posta em circulação.

 

Quando não estávamos a escrever, jogávamos à bola. A devoção ao futebol inglês era a segunda idiossincrasia do 484 da Avenida cidade de Luanda. A tragédia do Heisel Park ainda estava para chegar e o campeonato inglês era um bom campeonato, mas ainda hoje ninguém consegue explicar a recusa do Calcio, quando já naquela altura todas as estrelas jogavam no campeonato italiano. Mais: em 78 a Argentina havia ganho o Mundial; em 82 fora a vez da Itália, mas o Brasil brilhara. A verdade é que um núcleo duro de 4 aficionados insistia nas virtudes do futebol à inglesa: passes em profundidade, cruzamentos e golpes de cabeça. O modelo a seguir era o kick and rush. No campo, ensaiávamos cantos e um cabeceamento à Ian Rush por cima da trave valia por três golos à Gomes. Chuva miudinha e céu cinzento era o tempo desejado, por ser mais à ingalesa. O relvado ficava escorregadio e como o campo era bastante inclinado os cortes de carrinho eram irresistíveis. A lama das clareiras sujava depois os equipamentos e no fim era um gozo regressar a casa deixando rasto nos patamares. Enfim, a Dona Patrocínia, a porteira, talvez não fosse da mesma opinião, mas parecia que aqueles nacos de lama recortada pelos pitões das chuteiras tinham histórias para contar. É que a lama, que às vezes nos chegava até à boca num respingo e nos cobria a cara, tinha um cheiro que apelava a uma discreta geofagia quando o sector defensivo podia relaxar um pouco. e também uma textura medicinal, que ajudava a acalmar a pele sempre que o couro da bola nos feria a cara, quando falhávamos um cabeceamento ou simplesmente levávamos com um petardo nas trombas. Estes aficionados do futebol britânico estavam bem documentados.Talvez tudo tivesse começado com o rapaz que fazia tabelas à régua para preencher com todas as estatísticas do Liverpool. O Tejo entrava-lhe pela janela mas de todas as paredes do quarto dele vinha o sorriso de Kenny Dalglish. Comparado com aqueles rapazes, o Rui Tovar era um amador. Para efeitos de palmarés, a entrega ao estilo inglês de pouco serviu. O quarteto britânico era extremamente perdulário e acabava por ser derrotado em quase todos os jogos. Porém, após nove jogadas falhadas surgia sempre uma que nos reconciliava com o futebol: D. no miolo do terreno desembaraça-se de dois adversários, lança V. pelo corredor direito… que vai quase até à calçada… cruza em arco para a cabeça de A. II… que remata ao tronco da faia (poste esquerdo); A. recupera, torna a distribuir para o corredor direito, V. centra de imediato, A. enquandra-se com o esférico, aplica um volley à Kenny Dalglish e -por uma vez - a bola não parte os vidros da vizinha do quinto andar mas entra em arco pelo canto superior direito da baliza da ciganada.

 

Do grupo, o meu preferido era A. Comecei a gostar dele dentro das quatro linhas. Temperamental, com olhos claros e melenas à revolucionário, parecia mais um jogador italiano e envergava até uma camisola da Juventus, o que era uma afronta ao estilo de futebol que o grupo idolatrava. Detalhes. A. era, sobretudo, justo e correcto. Em jogos que juntavam miúdos de 10 anos e adolescentes de 17 e 18, o abuso da força era uma constante, da carga de ombro ao pontapé vingativo, passando pela simples ameaça. A., que era dos mais fortes entre os mais velhos, nunca tratou mal a canalha e estas coisas ficam gravadas, agigantando-se com o passar do tempo. Como se não bastasse, de noite, quando ainda só ficávamos pelas imediações do prédio, ele, regressando da cidade, trajando a preto e branco, já com toda a competência do boémio e com aquele andar naturalmente cambaleante ainda mais marcado, juntava-se a nós e demorava-se em relatos. Os bares ainda nos eram desconhecidos e ele tomava ares de mensageiro de outros mundos. Quando deixámos de ser vizinhos, os oito ou nove anos continuavam a fazer diferença. Muitos anos depois, é reconfortante saber que ele ainda anda por aí a respirar futebol, quando já ninguém joga à ingalesa, a começar pelos próprios ingleses.

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