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Ouriquense

06
Mai18

Socratologia dos Equilíbrios Pontuados ou o ónus do PS e a Dádiva de Sócrates

Eremita

O desquite entre Sócrates e o PS deu origem a um curioso fenómeno que designarei por efeito Vale de Azevedo de descompressão social de tipo invertido (eVAdstinv). O que é um eVAdstinv, além de parecer um acrónimo eslavo? Recorde-se que João Vale de Azevedo não foi incomodado pela Justiça enquanto era presidente do Benfica e só depois de abandonar o clube começarem os seus problemas, sem que o Benfica tivesse sido excessivamente penalizado. No caso de Socrates e do PS, a situação parece inverter-se. Sócrates continua em maus lençóis, no imediato a sua situação não se agravou e o homem até voltou a marcar uns pontos no campeonato "larger than life" que algum jornal devia organizar anualmente para estimular decisões pessoais de grande potencial cinematográfico. Já o PS parece uma perdiz gorda no primeiro dia da época de caça. A imprensa de direita faz um autêntico festim, com os cronistas que tiraram cursos de escrita criativa ao rubro (um equipara o PS a um bordel, outro a "uma superfície contínua dobrada sobre si mesma"), a sempre previsível Helena Matos em êxtase vingativo, o moralista Rui Ramos a moralizar... O momento é de tal forma único que até Maria Luís Albuquerque apareceu e teve a lata de mencionar contratos swap.

 

Estes têm sido também os dias em que todos reclamam precedência na arte de ter topado logo Sócrates, com João Miguel Tavares à cabeça (who else?) ou o mérito da estocada final em Sócrates, como se pode ouvir pelo tom de auto-satisfação de Pedro Adão e Silva e dos seus parceiros no Bloco Central da TSF, que daria para um tratado sobre a nossa triste condição humana. Mas mais impressionantes têm sido as manifestações públicas de higiene mental que misturam actos de contrição tímidos (como ouvimos dos líderes do PS), raiva, orgulho, vaidade e vingança - sinceramente, não sei por que motivo as pessoas perdem tempo a ver telenovelas se a vida real nos oferece isto. Os exemplos são tantos, nos jornais, blogs, podcasts e televisões, que é impossível tudo abarcar. Acima de toda esta gente paira Luís Campos e Cunha, esse sim um homem que inegavelmente topou Sócrates a milhas e o enfrentou, demitindo-se, e de quem ainda não se ouviu uma palavra de braggadocio, que seria inteiramente merecida, porque deve ser mesmo alguém muito, muito decente. Mas destaco duas crónicas representativas destes notáveis últimos dias em que a História parece ter acelerado: a de Vicente Jorge Silva (VJS)  e a de António Barreto (AB). A primeira é um exemplo do tipo de crónica que se tolera dado o teste de stress que Sócrates é para um país, as suas instituições, a imprensa e todas as pessoas que com ele se cruzaram. VJS dá-se inclusive ao embaraço de recorrer à autocitação para que não fique nenhuma dúvida de que topou Sócrates a milhas, até mesmo antes de ele ter chegado a PM (curiosamente, não cita as razões que terá apresentado em 2004, quando abandonou o PS, mas diz-nos que foi por ter antecipado o "socratismo triunfante"). Está bem, Vicente, és o maior e vamos fazer uma colecta para te erguer uma estátua no Funchal. Adiante. A crónica de AB é bem mais preocupante, bastando talvez citar a primeira frase: "O mais provável é que o PS esteja a caminho do fim". Tratando-se de uma verdade, pois ninguém caminha para o seu princípio e não há partidos eternos, basta para afirmar - sem panos quentes - que AB é um péssimo cronista, um catastrofista sem o estilo notável que redime outro grande demiurgo do caos, Vasco Pulido Valente. A incapacidade que um dos sociólogos mais prestigiados do país revela para fazer análise social é um mistério,  sobretudo se tivermos em conta a sua inquestionável inteligência, experiência de vida relevante e cultura. No Machina Speculatrix (via Valupi), Porfírio Silva faz um enquadramento psico-analítico muito pertinente, que explica a crónica de AB. Não poderia estar mais de acordo com a interpretação e também com o que Porfírio Silva escreve sobre o perigo desta prosa catastrofista, aglutinadora, refém das emoções, a que AB e outros se têm dedicado. 

 

Nos anos setenta, os paleontólogos Stephen Jay Gould e Niles Eldredge avançaram a teoria evolutiva do Punctuated Equilibirum, segundo a qual os organismos com reprodução sexuada quase não mudam ao longo de extensos períodos de tempo geológico (períodos de stasis) e, pontualmente, no espaço e no tempo, passam por grandes mudanças fenotípicas (morfológicas, porque é o que o registo fóssivel regista, mas provavelmente também fisiológicas e de outro tipo). Em resumo, durante muito tempo nada acontece, há depois uma enorme agitação e de novo se estabelece um período de stasis, em que as espécies diferem da stasis anterior. Esta teoria surgiu, em parte, em oposição à visão gradualista - defendida por Darwin - de uma evolução por acumulação lenta e contínua de pequenas alterações e tem um paralelo óbvio na epistemologia de Thomas Kuhn, que no livro A Estrutura das Revoluções Científicas (1962) já tinha argumentado que a ciência não progride por simples acumulação de factos, mas por "mudanças de paradigma" (esta conhecida expressão foi ele que inventou), quando a teoria vigente que impôs um período estável e calmo (de stasis) não é mais capaz de explicar a realidade e emerge um novo paradigma. Regressemos à socratologia: a desvinculação de Sócrates do PS libertou uma quantidade brutal de energia que estava acumulada nas consciências, rompendo com a stasis que durava desde a prisão preventiva do ex-PM. As consciências estarão agora diferentes, mas se a stasis não se tiver transformado noutras dimensões mais relevantes para o país, terá sido uma oportunidade perdida. Chegou a hora de desfulanizar a discussão.

 

A oportunidade de atacar o problema da corrupção é única. Se o PS entender não começar esse combate já no próximo congresso, estará a cometer um erro. O que se espera do PS, depois das afirmações de vergonha, que mais não foram do que um ritual de proscrição, é que comece a fazer política para combater a corrupção. O caso Sócrates obriga o PS a tomar a iniciativa e só vale a pena  lembrar os outros casos que afectam o PSD e o PP se a intenção for mesmo avançar para um pacto de regime de combate à corrupção; se, ao invés, a ideia for por em prática uma consciente "paralysis analysis" , seria demasiado imoral, demasiado estúpido, demasiado exasperante ir na conversa. A oportunidde é irrepetível. Rui Rio fala de "banho de ética" mas nada fez até agora. Marcelo percebeu há muito o problema. Cristas tem uma veia populista que pode ser virtuosa neste contexto. O PS está sob fogo cerrado. De Santos Silva, Silva Pereira e Vieira da Silva (uma perturbadora repetição do nome "Silva") nada se espera, estão demasiado associados a Sócrates. De Carlos César já se percebeu que nada podemos esperar. Mas da nova geração do PS, nomeadamente de Fernando Medina, João Galamba, Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes, e de figuras importantes como Ana Gomes, Paulo Trigo Pereira e - a propósito - Porfírio Silva, espera-se muito e mais do que textos meramente defensivos, ainda que correctos. De António Costa, sinceramente, não sei o que esperar, pois o seu maquiavelismo torna-o insondável quanto a este tema, mas não será insensível ao ar do tempo. Por isso, da imprensa e do colunismo também se espera muito mais. Bater num morto político como Sócrates é uma actividade que, a partir de agora, começará a dar cada vez menos retorno mediático, mas que continuará a ser uma tentação durantre muitos anos. Alinhar na lógica sectarista da mera disputa partidária é outra tentação de que muitos não se libertarão.  A grande questão é: quando vamos começar a discutir medidas concretas de combate à corrupção?

  

Hitler's Gift é o nome de um livro de título provocador que descreve a fuga de cientistas brilhantes da Alemanha para o Reino Unido e os EUA. A minha esperança é que algum um dia se escreva um livro intitulado A Dádiva de Sócrates. A menos que o leitor seja um dos últimos maluquinhos socráticos que insistem em exercícios patéticos de suposta defesa da "presunção da inocência" mas mais não são do que manifestações de uma arrogância e narcisismo que impedem o reconhecimento do óbvio ou lhes perturbam a interpretação da realidade, creio que se percebe facilmente a que dádiva me refiro. Que não se perca a energia libertada neste eVAdstinv, pois não é renovável. 

 

 

 

 

  

 

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