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OURIQ

Um diário trasladado

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19
Abr18

Socratologia da vaidade


Eremita

Quem diz que o xadrez jogado ao mais alto nível é o cúmulo do desperdício de inteligência, não lê o Valupi. O que Valupi escreveu depois da transmissão das imagens do interrogatório em que Sócrates solta toda a sua ferocidade na cara do Ministério Público é um texto de grande inteligência (digo-o sem ironia ou segundas intenções). O momento foi oportuno. Se mesmo quem desconfia de Sócrates (como eu) se impressionou com a sua combatividade e coragem under pressure, só podemos  tolerar o êxtase com que o melhor dos socráticos nos explica o desempenho do engenheiro. Alguma noção do ridículo fez com que Valupi esclarecesse que, apesar de Sócrates se comportar naquelas imagens como se não tivese "nada a esconder, nada de que se envergonhar", "também sabemos que é possível enganar os polígrafos". Mas o entusiasmo de Valupi acaba por o trair, pois apesar das ressalvas o tom do seu texto é triunfante, como se Sócrates tivesse arrasado a acusação com factos e argumentos irrebatíveis, quando o que vimos foi essencialmente um homem indignado. Valupi viu, ouviu e alucinou algo mais: " A sua exaltação [a de Sócrates], que não é falha de carácter mas traço de personalidade, também vai aí buscar ímpeto e gana. O que vimos nos fragmentos das entrevistas confirma o que saía no esgoto a céu aberto logo no dia a seguir aos interrogatórios. O MP nada mais tinha na mão do que os envios de dinheiro para Sócrates por Carlos Santos Silva. Estes são factos". Esta passagem extraordinária ignora outros interrogatórios já conhecidos, em que Sócrates se sente encurralado e avança explicações absurdas para as transacções com dinheiro vivo de que beneficiou (por alegadamente desconfiar dos bancos), ignora que Carlos Santos Silva confirmou o código verbal usado pelos amigos para acordar transferências de dinheiro, ignora um notável "traço de personalidade", descrito por Sócrates como vaidade (que o fez comprar resmas dos seus próprios livros para inflaccionar as vendas e lhe aumentar o prestígio social) mas que é sobretudo o Q.E.D. da tese de que Sócrates é um aldrabão notável. Ignora muito, muito mais, nomeadamente a grande narrativa do MP, mas o que refiro foi já confirmado pelos arguidos e estes factos são motivo suficiente para qualquer indivíduo desconfiar de Sócrates e desejar que o julgamento seja esclarecedor (independentemente do juízo que faça do MP e da Imprensa). Sem surpresa, também a autora de Um Jeito Manso se sentiu inspirada pelo show de Sócrates e legitimada pelo bizarro julgamento em praça pública montado nos últimos dias pela SIC (de interesse público muito pouco óbvio) para ignorar as evidências. Algures no texto, a autora assegura-nos que os outros dizem que não é "burra" e que tem formação académica e profissional adequada para exercícios que envolvam "lógica, a análise científica de hipóteses, a construção de modelos". A passagem é suculenta por confirmar o narcisismo fascinante de quem a escreveu, mas é também reveladora de um equívoco. A polarização que Sócrates gera não agrega indivíduos de acordo com as suas capacidades cognitivas, isto é, uns iluminados com a inteligência suficiente para perceber a engrenagem da perseguição política e uns incapazes mentais com sede de punir as elites e facilmente instrumentalizados. A polarização resulta mais da emoção do que da razão. E o impacto da sentença na imagem pública de cada um nós, tendo em conta a forma como nos temos posicionado ao longo dos anos nesta discussão, tem uma relevância avassaladora. Naturalmente, os atingidos devem considerar esta interpretação intrusiva, pois trata-se de um processo de intenções, mas é a única forma que encontro de explicar a amnésia selectiva dos grandes defensores de Sócrates. E é uma conclusão que faz com que Sócrates deixe de ser o único vaidoso, mas continue a ser o único aldrabão. Contas feitas, ganha a humanidade. 

 

PS: Como a autora de Um Jeito Manso, que naturalmente se tem por celebridade dos blogs, julga que a menciono na esperança de que ela me retribua o link e assim eu ganhe "visualizações", convém lembrar duas coisas: 1) a irregularidade com que aqui escrevo diz alguma coisa sobre as exigências da agricultura de subsistência e muito sobre a importância que atribuo às estatísticas do blog (só os narcisos viciados em atenção escrevem todos os dias, pois a ausência de prosa fresca leva a um decréscimo imediato das visualizações que gostam de exibir em contadores e injectar na veia logo pela manhã); 2) a verdadeira estrela mencionada no texto é o Valupi, sendo a autora uma simples personagem secundária. Enfim, apresento-lhe as minhas desculpas por este P.S. só lhe dar mais umas 3 ou 4 visualizações, pois é verdade que um post independente lhe iria render umas 6 ou 8. Por outro lado, como a obsessão pelas visualizações me lembra as conversas da criança e da adolescente que vivem comigo, posso afirmar com alguma certeza que a  autora de Um Jeito Manso sobrestimou a sua idade mental no seu post e, como as mulheres gostam sempre de parecer mais novas do que na realidade são, creio que verá na minha conclusão uma recompensa. 

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    RFC

    21.04.18

    Quem se quiser divertir à borla, siga directamente para o Aspirina B.

    ______

    Grande bebedeira, encornado?!, ó Valupi!
    Ah, e já pintaste as fuças de preto?
  • Sem imagem de perfil

    Eric

    23.04.18

    É engraçado que o tipo está a ser atacado pela troupe do Aspirina B, o que sendo divertido mas não é para admirar! A seguir, in situ.

    ______

    Ó Valupi, já se viu que esta malta está ressacada (hoje é Segunda, caraças!).

    Dá-lhes mais um pipo de vinho, olha pode ser um outro ataque ao bandidos do MP sobre o Manuel Pinho e em defesa do teu-mais-que-tudo-José Sócrates e do seu amigo Ricardo Salgado. Boa?

    Suspeito, não sabe do quê, até prova em contrário | Aspirina B

    Nota. Sei que já escreveste um lindo post cujo título é ainda mais lindo que aquele eloquentemente longo parágrafo, mas, ainda assim, se calhar e tal.

    Será este episódio algo sem importância cívica, política ou social? Não, impossível. O silêncio que o encobre revela uma sociedade que já transitou em julgado a culpa de um grupo de cidadãos. Nesse grupo está Manuel Pinho, figura que é fácil de ridicularizar e ofender. Saber que foi constituído arguido sem saber porquê, sem se poder defender e, como também apareceu publicado, apenas para evitar a prescrição de um inquérito, não causa escândalo, sequer solidariedade ou mínima preocupação. Na prática, testemunhamos um ostracismo generalizado que foi e é desejado por este Ministério Público de Joana Marques Vidal. Acham, e com toda a razão, que é meio caminho andado para prolongarem um exercício de poder que, a confirmar-se a versão de Sá Fernandes, corresponde a uma prática despótica. Saber como chegámos a este estado não é operação cognitivamente exigente, pois existe uma campanha intensa para linchar publicamente todos os alvos que possam contribuir para a exploração caluniosa de Sócrates com objectivos comerciais e/ou políticos. Pinho alia a ligação a Sócrates à ligação ao BES, transportando uma nuvem de culpabilidade que não passará nunca, nem mesmo que saia ilibado dos imbróglios legais onde está metido. Ainda por cima é rico, logo, fogueira com ele.
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