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Ouriquense

06
Jun18

Sobre uma barata

Eremita

Acumulo cinco funções domésticas em regime quase exclusivo: preparar um pequeno-almoço frugalíssimo para quem madruga, lavar a loiça, levar o lixo até um contentor ou ao ecoponto da vila, espezinhar baratas e velar pelo sono das mais novas das nossas meninas. Trata-se de um conjunto de competências herdeiro da tradição, pois espezinho baratas movido por uma responsabilidade de macho protector que me força a vencer uma repulsa natural pelo insecto rastejante, mas que incorpora já a segunda vaga do feminismo, ainda que a minha recusa em calçar as habituais luvas da loiça cor-de-rosa possa ser entendida como um comportamento atávico ou de quem "tenta ser tão progressista quanto pode, mas desde que não precise de se esforçar muito" (Lou Reed).

 

A minha competência como exterminador de baratas tem sido posta em causa de um modo recorrente ao longo de vários anos. É uma campanha vil, caluniosa, persistente, implacável, ingrata. Acusam-me de não ser suficientemente rápido a responder aos apelos e de nada me serve frisar que só aceito a tarefa se estiver calçado. Ora, se ainda admito que certas situações, como estar despido num quarto com um gato em movimento, causem grande desconforto apenas ou sobretudo aos homens, esmagar uma barata com a planta do pé desnuda, para sentir na pele a quitina crocante e logo depois o frio da hemolinfa do insecto, é algo que causa uma repulsa universal e que não se exige a ninguém, excepto em casos de vida ou morte. Ontem, após ter falhado um gesto de dificuldade considerável, as críticas subiram de tom e revestiram-se de um inusitado grau de detalhe técnico. Caro leitor, acusaram-me de não ter calculado a trajectória do meu pé tendo em consideração o movimento de fuga do insecto. Só me resta recorrer ao Ouriquense para repor a verdade. 

 

A barata apareceu depois do jantar. Para calar as más línguas, adianto que bebi água à refeição. E friso a dificuldade do gesto: não só o axadrezado do chão da cozinha se presta a ilusões de óptica que perturbam a mira, como a barata se encontrava algo dissimulada num dos ladrilhos pretos, muito perto do rodapé e com 180 graus de possíveis trajectórias de fuga. É completamente falso que tenha atacado o insecto sem ter calculado o seu mais previsível movimento de fuga dianteiro na direcção de uma abertura entre os móveis, isto é, que tivesse apontado o pé para a posição da barata e não para a posição em que a barata se encontraria quando o meu pé estivesse prestes a assentar no chão. Falso. Não só calculei, como registei no cérebro aquele momento, pensando: "eu estou a computar a trajectória previsível do meu alvo, diante desta indefesa barata a minha superioridade cognitiva será esmagadora". Não era simples bazófia interior, era mais uma espécie de presciência de quem sabia que podia ser chamado a dar explicações e precisaria de uma memória viva, inquestionável, hiperconsciente, capaz de resistir à erosão provocada pela poderosa máquina judaico-cristã de culpabilização cujas engrenagens se põem a mexer sempre que há alguma suspeita genérica e tensão no ar, levando-me inúmeras vezes a gritar, inclusive em repartições públicas: "I'm Spartacus!" Comecei por ver a barata, mas a imagem logo passou a ser a de um cyborg com rudimentos de física newtoniana e visão assistida por software de processamento de imagem que junta vectores aos objectos e mostra contadores em tempo real na parte mais periférica do campo visual. Como nos filmes, portanto. A verdade é que falhei, mesmo pensando inicialmente que a tinha esmagado. A barata escapou-se seguindo a trajectória previsível, pelo que o meu erro não foi de planeamento, mas de execução - no fundo, a história da minha vida, que fez com que viesse parar a Ourique e não à Ivy League da academia norte-americana. Mas como explicar isto tudo sem perder a cabeça? Como alimentar uma discussão conjugal sobre a arte de matar baratas, quando a sociedade só nos preparou para discussões sobre a posição da tampa da sanita? Irritei-me, claro. À evidência de decrepitude física quiseram juntar uma estupidez que renego e foram injustos, mas a consciência de estar a discutir como se espezinha uma barata funcionava contra mim: "... se eu morrer neste preciso momento de exaltação, como serei recordado?" 

 

Adília Lopes imortalizou as baratas no seu famoso poema "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas", que já foi alvo de interpretações profundíssimas. Em entrevistas, aprendemos que as baratas da Adília lhe aparecem na cozinha, exactamente como a barata de ontem. Na nossa casa, felizmente, não entram gatos, mas por causa das minhas baratas andam a brincar com os meus sentimentos há muitos anos. 

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