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OURIQ

Um diário trasladado

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20
Jun20

Sobre o padre António Vieira


Eremita

mw-960.jpgfonte

No Eixo do Mal, Daniel Oliveira reduziu a recente vandalização da estátua do padre António Vieira a um pequeno incidente de proporções exageradas pelos media. Não sei se terá sido só isso. Já não é a primeira vez que uma estátua de António Vieira aparece nas notícias como alvo de movimentos e contra-movimentos, e só assumindo algum excepcionalismo luso se poderia esperar que em Portugal não acontecesse o que vem sucedendo já há algum tempo em todos os países com passado colonial ou esclavagista. O meu desejo é que a estátua de Vieira sobreviva a esta gente. Por isso, preocupa-me a fragilidade da defesa de Vieira que tenho lido e ouvido por aí, em que a informação essencial é sonegada com um descaramento inesperado. Li este texto de António Carlos Cortez, túrgido de referências aos intelectuais incontornáveis que trataram estas questões e que menciona o célebre Sermão de Santo António aos Peixes e o amor que Vieira tinha pelos índios, mas sem qualquer alusão às ideias hoje problemáticas de Vieira. Ouvi o Pedro Mexia num exercício de citação selectiva (o inevitável Sermão à Confraria dos Pretos da Bahia), que também deturpa o pensamento relevante de Vieira para a polémica em curso. E li o texto de Bruno Cardoso Reis, que arranca de forma desastrada com considerações sobre o valor estético da estátua, o que me leva a pensar que o Bruno abriria um texto sobre o caso Marega comentando sex appeal do sorriso do jogador. Não sei se estes defensores de Vieira escondem as passagens críticas do prosador por inabilidade ou se seguem alguma agenda em que a defesa de Vieira não pode comprometer a Igreja Católica, uma tese que sou incapaz de generalizar e que nem sequer consigo atribuir com convicção a Mexia, um conhecido católico. Trata-se de um verdadeiro mistério. Eu diria que uma defesa competente de Vieira faz-se sempre a três tempos, primeiro mostrando as passagens críticas, a seguir explicando a doutrina da Igreja que vigorava naquela época e os interesses de Vieira, e só depois demonstrando o génio literário e a empatia q.b. de Vieira pelos mais vulneráveis. Enfim, não pretendo meter a retórica alheia numa camisa-de-forças demasiado apertada; se servir o vosso estilo, troquem a ordem destes tempos desde que não se saltem nenhum. Felizmente, ainda há algum jornalismo em Portugal para contrabalançar as pulsões mancas da opinião publicada, como este competentíssimo artigo de Mário Lopes, no Público, sobre a vida e pensamento de Vieira.

Continua. Ainda hoje: memória versus História e indivíduos versus instituições. Agora vou correr.

 

 

 

 

3 comentários

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    Eremita

    20.06.20

    Não pretendi branquear a vandalização das estátuas. Creio que existe uma moldura penal para estes casos e este não deve ser excepção por causa da polarização que existe na sociedade (fictícia ou real). Também não quis passar a ideia de que existe apenas uma posição a tomar sobre a figura de Vieira ou a manutenção das estátuas. Admita-se uma discussão aberta sobre os méritos e defeitos do padre e até - levando o argumento ao absurdo - um referendo sobre a permanência da estátua. Apenas resmunguei por causa do modo como aqueles que estão do meu lado andam a defender a minha posição. Creio que não têm sido competentes.
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo

    24.06.20

    Continuamos à espera, vandaização de estátuas? Schiii, Eremita que confusão que anda aí por casa... Entretanto, uma dica.

    RESTAURATION DU FILM « LES STATUES MEURENT AUSSI » (CHRIS MARKER, 1953)
    Hervé Pichard - 2 mai 2018

    Les Statues meurent aussi, coréalisé avec Alain Resnais en 1953, est
    l'un des rares films de Chris Marker, tournés sur pellicule 35 mm, qui
    n'avait pas encore été restauré. Il nous paraissait indispensable de
    faire revivre cette œuvre unique et majestueuse, alors que la plupart
    des films du cinéaste dont La Jetée, Le Joli mai, Sans soleil, sont
    aujourd'hui numérisés. Les Statues meurent aussi a été restauré par
    Présence Africaine et la Cinémathèque française avec le soutien du
    CNC, au laboratoire Hiventy.

    Les deux réalisateurs, éternels témoins de l'Histoire, accompagnés du
    chef opérateur Ghislain Cloquet, proposent un documentaire charnel et
    impertinent sur l’« art nègre », la beauté des œuvres et leur rôle
    dans la culture africaine en perdition, provoquée par la colonisation
    française et l’influence irresponsable des Européens.

    Le film, censuré pendant dix ans, critique ouvertement, dans sa
    dernière partie, le comportement colonialiste français, insistant sur
    l’inégalité entre les Noirs et les Blancs.

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