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10
Jun19

Sensatez e egocentrismo no 10 de Junho de JMT


Eremita

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Por motivos que não interessam, só conheço bem um discurso de 10 de Junho, o de Manuel Sobrinho Simões. Por isso, não me sinto capaz de contextualizar a prestação de João Miguel Tavares. Quem o lê no Público não encontrou nada de novo ao ver e ouvir a leitura daquelas páginas, o que não é um defeito, e a sua tese da ausência de excepcionalidade dos Portugueses resulta muito sensata e refrescante quando temos na presidência alguém que nos infantiliza ao dizer insistentemente que somos os melhores do mundo. Só estranhei o egocentrismo. É verdade que JMT se fez passar por alguém do povo que nunca foi corrompido pelas elites e o seu discurso teve uma aura de compassionate populism*, o que lhe deu um crédito de simpatia imediato, ao ponto de arriscar a quadratura do círculo de se apresentar de início como um exemplo de sucesso, o do moço humilde da terra que a ela regressa a convite do Presidente da República para discursar à nação, e no fim como um alvo de crítica das elites por não ter currículo para discursar num 10 de Junho. Aproveitar o púlpito para um ajuste de contas, a revelar uma ferida no ego que o seu humor autodepreciativo dos meses precedentes não fazia supor tão profunda, obrigou-o a uma reflexão tola sobre o que é ter currículo, que de tão sentimentalóide terá deixado em lágrimas de emoção a mais inútil das criaturas. Tamanho egocentrismo pareceu-me muito desajustado, entre outros motivos porque já estava preparado para julgar o discurso pelo seu mérito intrínseco e não pelos eventuais deméritos do seu autor e os muitos anticorpos que gera à esquerda. A fragilidade de JMT obrigou-me à reflexão mesquinha de que o moço da terra, mesmo não tendo sido corrompido pelas elites da capital, para o brilharete de hoje talvez tenha beneficiado de ser amigo próximo do assessor cultural de Marcelo, o que não deixa de ser uma porta vedada ao povo a que JMT se quis colar, por afinidade real ou para virtue signaling. Enfim, mais do que pelas origens humildes, talvez seja pelas contradições e exibição de um ego vulnerável que JMT tão bem nos encarnou. Em todo o caso, senti-me representado, o que causa desconforto. Para o ano, escolham o António Damásio, pois os currículos estratosféricos, de tão inalcançáveis, criam um efeito de alienação q.b. que nos deixa absolutamente tranquilos, como convém nos feriados.  

* Reciclo, sem sugerir qualquer paralelo, um adjectivo muito caro a alguns conservadores norte-americanos.

 

 

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