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OURIQ

Um diário trasladado

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17
Dez16

Saudades do que não li a tempo


Eremita

Bem avançada vai a leitura de Os Irmãos Karamásov, traduzida pelos Guerra. Como Dostoiévski não é um estilista da frase, o romance pede imersão completa durante longos períodos, quase uma impossibilidade quando há bebés e uma família para sustentar. É um livro para lermos nas férias grandes e na adolescência, livres de obrigações e cheios de dúvidas. Sinto que teria delirado com a conversa entre Alioska (um monge aprendiz) e o seu irmão Ivan (um ateu), caso entretanto não me tivesse fartado dos debates sobre a existência de Deus, em que são trocados argumentos para que no fim fique tudo na mesma. Nada de relevante para este debate aconteceu depois de o russo escrever a sua obra-prima, mais de duas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, de Darwin. Desde então, seja por uma vontade natural de insurreição, anticlericalismo de esquerda ou adesão ao positivismo, cada geração assegura uma dose fresca de jovens ateus, carregados de passionate intensity. Comigo o percurso passou pelo inevitável Why I am Not a Christian, de Bertrand Russell. Muitos anos depois, voltei a interessar-me pelas polémicas, mas menos pelo fundamento dos argumentos (que, repito, não são novos) do que pela retórica e o fenómeno sociológico que são os "novos ateístas" (Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett), o que revela o meu conformismo e a impressão de que, como jamais nos livraremos delas, mais vale uma religião velha na mão do que duas novas à solta. Que dizer, então? Talvez isto: o livro três abre com a morte de um monge cujo corpo começa a feder durante as cerimónias fúnebres, levantando suspeitas sobre antecipada santidade do defunto. Não sei se esta minha revelação é um spoiler, se o eventual futuro leitor de Os Irmãos Karamásov me rogará pragas depois de ler estas linhas ou esboçará um sorriso ao ler as linhas de Dostoiévski e me derá razão quando afirmo que se trata de um episódio sublime. Mas se apenas o assombro pela técnica sobrevivesse à perda das convicções, seria terrível. Felizmente, sobra também a lembrança do período em que a existência de Deus era uma questão inquietante. E isso basta. 

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