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20
Jul17

Sapiência e decência


Eremita

O discurso de André Ventura é despudoradamente eleitoral. Provavelmente saiu de um focus group que lhe diz que as suas possibilidades eleitorais estão nos segmentos ressentidos dos estratos mais baixos das classes médias que lutam arduamente para ter um nível de vida de mínima qualidade e que não atribuem as suas dificuldades às injustiças do mundo mas aos seus companheiros de sofrimento que estão um ou dois patamares abaixo e vivem em habitação social, recebem transferências sociais, têm vidas precárias. O que inspira André Ventura é a convicção de que as correntes sociais de estigmatização podem ser a sua oportunidade eleitoral.
Não me custa a acreditar que o jurista, professor universitário, etc André Ventura não fosse racista. Por isso mesmo o seu comportamento político é repugnante. Por não sair das catacumbas da ignorância de onde sai o PNR... Paulo Pedroso

 

Paulo Pedroso pode estar certo e não sobram dúvidas de que faz uma análise política convencional, com um grau de sofisticação muito sedutor, pois o leitor pela-se sempre por um processo de intenções: André Ventura não será um racista mas um oportunista, um cínico, um manipulador, enfim, um populista. Pode ser, sei lá eu. No que reparei mesmo foi num pressuposto elitista no raciocínio de Paulo Pedroso, que incomoda bastante no contexto em que escreveu. Segundo Pedroso, uma pessoa com instrução não pode ser ou - para ser mais rigoroso - provavelmente não será racista. Trata-se de uma ideia que até pode ter algum suporte empírico estatístico naqueles inquéritos em que os sociólogos estratificam as populações segundo o grau de instrução, mas não faltam exemplos de intelectuais associados a movimentos racistas ou xenófobos, dos primórdios da História aos dias de hoje. Independentemente dos números e da estatística, não podemos fazer aquilo que os franceses designam por "essencialisation", i.e., julgar os indivíduos por atacado, como meros exemplares de um grupo a que colámos um rótulo qualquer. Trata-se de uma regra preciosa, difícil de praticar por ir contra a nossa intuição e lógica probabilística, mas que é a única que nos permite lutar contra o racismo e o preconceito sem ignorar a realidade, sempre complexa e por vezes cruel. Por isso, analisar um comportamento aparentemente racista partindo de um pressuposto d'essencialization é, salvaguardadas as devidas distâncias, como praticar um crime para prender um criminoso.   

 

 

 

6 comentários

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    Eremita

    22.07.17

    O que escrevi é mais uma picuinhice do que uma petição de princípio, porque no essencial estou de acordo com o que Paulo Pedroso escreveu. Por outro lado, não me parece nada improvável que o tempo de uma geração bastasse para fazer aparecer em Portugal um discurso com laivos xenófobos ou racistas entre as elites. Sublinho "laivos" porque, já que estamos a trocar falácias, o teu "racista retinto" é um espantalho e a alusão a 1933 a típica "reductio ad Hitlerum". Não é preciso ir tão longe, nem recuar tanto no tempo. Veja-se o discurso de uma série de intelectuais franceses, nomeadamente a evolução do pensamento de Finkielkraut e Bruckner, hoje muito críticos do multiculturalismo e, segundo muitos, racistas. Não são panfletistas de blog, marginalizados pela imprensa (como o antissemita Alain Soral), mas académicos com palco na academia e na sociedade. Portugal não é a França, essencialmente porque não tem uma comunidade islâmica numerosa, mas imaginemos novas guerras em Angola e Moçambique e um contexto político internacional que levasse à entrada de 1 milhão de refugiados africanos em Portugal num curto período de tempo. A academia portuguesa iria então fornecer ferozes críticos do multiculturalismo semelhantes a Finkielkraut e Bruckner ou tens dúvidas? Paulo Pedroso teria dúvidas, o que me parece de uma candura insustentável. Já quanto à experiência eleitoral de Ventura e Passos em curso em Loures, nada tenho a acrescentar ao que Pedroso escreveu.


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    Valupi

    22.07.17

    Consta que Freud terá dito que "por vezes, um charuto é só um charuto". Então, às tantas, nem sempre uma referência à Alemanha de 1933 tem de ser uma "reductio ad Hitlerum".

    Continuo sem saber o que é para ti um racista. O facto de, "segundo muitos", fulano e beltrano terem fama de racistas não me resolve o problema. E isso de serem franceses só o complica.

    O essencial, se é de essências e essencializações que falamos, está no "etc" do Pedroso. Nessa abreviatura encontramos a sua candidatura a uma câmara pelo PSD. O ponto onde começa a questão e aonde ela regressa no que à tua hermenêutica de Pedroso diz respeito. Consegues imaginar um trajecto político que tivesse levado um conhecido "racista", ou que fosse "meio-racista", ou mesmo "só-uma-beca-racista", a essa posição de candidato social-democrata em 2017? Se sim, vais ser o próximo Nobel da literatura.
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    Eremita

    23.07.17

    Valupi, tu és um grande chato, pá. A minha definição de racista é a que encontras em qualquer dicionário. Podemos depois começar com subtilezas, como definir a fronteira entre o racismo e a crítica ao multiculturalismo ou a uma etnia em concreto, como fez o Ventura. Para a crítica que fiz a Pedroso, é irrelevante esclarecer se Ventura é um racista ou não.

    Não percebo o que descobriste de tão importante no "etc." do Paulo Pedroso. É um "etc." que vem depois de "jurista" e "professor universitário", pelo que eu concluo que o "etc." se aplicará a outras características diferenciadoras que o afastam do povo indiferenciado, ajudando a que Paulo Pedroso não considere Ventura um racista. Pelos vistos, concordas com o preconceito de Pedroso, o que me leva a pensar que tens os juristas, os professores universitários e sobretudo os candidatos a autarcas (o teu "etc." "essencial") em muito boa conta. São realmente criaturas incapazes de um comportamento racista. Aliás, se a filha de um qualquer candidato às aurtárquicas aparecer em casa do pai com um namorado novo, negro ou cigano, é evidente - mas evidente! - que o rapaz será recebido com enorme simpatia e nenhum conflito interno, nem incómodo, nem preocupação acrescida, porque é impensável que um autarca do PSD (ou de qualquer outro partido, acrescento) seja "só-uma-beca-racista". Sei que alinho no estereótipo que condeno, mas é só pela piada: valupi, se é para oferecer garantia de urbanidade, antes jurista do que autarca, pá; antes professor universitário, antes até um professor de politécnico. Foi pior a tua emenda do que o soneto do Pedroso. Guarda lá o "etc." ou ainda corres o risco de roubar aos defensores de Gentil Matins a palma da hermenêutica absurda. Queres mesmo continuar a discutir esta picuinhice? Eu concordo com o Pedroso no essencial e sinto que estamos a gastar demasiadas palavras.
  • Sem imagem de perfil

    Valupi

    24.07.17

    Eremita, o texto do Pedroso não define o que seja o racismo e, por extensão, não elabora sobre a tipologia dos seus putativos teóricos e praticantes. Logo, não podemos saber se o autor subscreve a tese que lhe atribuis: "uma pessoa com instrução não pode ser ou - para ser mais rigoroso - provavelmente não será racista". Nada de nada de nadinha de nada existe no texto que sustente a tua atribuição.

    Definir o que seja o racismo é o problema político por excelência da questão. E o que trazes para o debate é uma sacada de quinquilharia, começando pelos verbetes e acabando na esplêndida confusão da História francesa e sua herança colonial (o Pacheco, no último artigo, elenca os temas chave nesse território). Onde fica o Ventura, e quejandos, no meio dessas balizas? O racismo consiste em verbalizar qualquer tipo de comentário negativo sobre um grupo morfo-étnico distinguível do verbalizador? Ou será que os racistas se apanham pelo cheiro?

    Muito mais facilmente vejo o Pedroso a defender a tese simétrica daquela que lhe imputas, a de que só com muita e muita instrução se consegue ser racista. Porque para se ser racista é preciso o mesmo que para se ser qualquer outra coisa ideologicamente definida: é preciso pensar, definir, teorizar. Os que se limitam a serem "racistas" pela sua prática (os traficantes de escravos de "raças" diferentes das suas, os que compravam ou ainda compram os escravos de "raças" diferentes das suas, os que discriminam pessoas de "raças" diferentes das suas no local de trabalho) podem não ter intenção ideológica nesses comportamentos. Por exemplo, o mesmo sujeito pode discriminar no local de trabalho o preto, o gordo, o careca, o baixote, o feio e o gago. Faria sentido recorrer à categoria racismo para explicar as suas acções? Porém, se esse sujeito se juntar a outros e conseguirem instituir um regime de "apartheid", usar a categoria racismo seria inevitável e imediato, posto que as leis são uma expressão concreta do pensamento.

    Parece-me que ferves em pouca água, e depois disparas em muitas direcções. Isso é feitio ou tique retórico?

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    Eremita

    24.07.17

    "Eremita, o texto do Pedroso não define o que seja o racismo e, por extensão, não elabora sobre a tipologia dos seus putativos teóricos e praticantes. Logo, não podemos saber se o autor subscreve a tese que lhe atribuis: "uma pessoa com instrução não pode ser ou - para ser mais rigoroso - provavelmente não será racista". Nada de nada de nadinha de nada existe no texto que sustente a tua atribuição."

    Não tenho mais tempo a perder com o disparate que escreveste. A vida é curta, valupi. Olha, faz assim: apresenta a minha "tese" sobre a frase do Pedroso a dez amigos teus e vê o que eles dizem. Eu desisti.

    Francamente, ganhas por exaustão do adversário. E quem dispara em todas as direcções és tu. Limitei-me a defender a tese inicial do post, que não me parece ousada, e tu resolveste embirrar e agora até invocas com o arqui-inimigo Pacheco, como se eu precisasse de lições de ti ou dele sobre a França, país onde vivi 5 anos de vida adulta (é um argumento de autoridade, pois é, mas a pachorra tem limites). Não acrescentaste nada que me convença a mudar de opinão e o resto é mera picardia. A sério, não insistas, isto é mesmo cansativo. Podes interpretar o meu cansaço como cobardia intelectual ou o que te deixar mais feliz, mas sinto mesmo que esta discussão se tornou ridícula ao segundo comentário.
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