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OURIQ

Um diário trasladado

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17
Mai19

Sandra (4)


Eremita

[Publicado a 25.4.2017]

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Sandra lê com irreprimível gozo que na Malásia, ao abrigo da Sharia, um homem pode divorciar-se da mulher pelo SMS, desde que a mensagem seja clara. Comenta a notícia com a mãe, que se indigna com a reacção da filha e aproveita para lhe dar um sermão sobre a violação dos direitos das mulheres “nesses países”. A resposta sai-lhe lacónica - "Mas têm telemóvel, mãe..." – antes de sair porta fora. Sandra crescera com as novas tecnologias e via no SMS uma forma de comunicação única. SMS enviada era SMS recebida e lida naquele preciso momento, nisso se distinguindo da carta, do postal, do bilhete escrito e até do correio electrónico. Nem extravio, nem tempos de espera. Uma certeza instantânea. Por mais voltas que o destinatário desse, a mensagem chegaria ao seu bolso ou à mala e, para Sandra, era natural partir do princípio de que seria lida de imediato, mesmo na ausência de resposta. Tal entendimento pode gerar ansiedade, mas para Sandra trazia uma vantagem. Ela namorava um homem mais velho, divorciado, com muitas responsabilidades profissionais e que gostava de se deitar cedo. Sandra tinha ternura pelo seu homem, apreciava o conforto emocional e material, bem como o que ele lhe ensinava. Ele amava-a, pelas razões que levam um homem a amar uma mulher. Pernoitavam amiúde, embora com irregularidade, e muitas vezes ela enfiava-se na cama sem o acordar. Sandra apreciava a noite e sabia-se cortejada. Rara era a semana em que, na escuridão de um bar ou numa pista de dança, não se sentia tentada a ceder à tentação. E raro era o mês em que não concretizava esse desejo.

 

Na cronologia fina do desejo, há um derradeiro lampejo de lucidez que precede o momento em que o impulso vence. Sandra aprendera a reconhecer esse instante e a certificar-se de que, onde quer que estivesse, não lhe faltaria rede. Enviava então uma SMS ao seu namorado, sempre a mesma mensagem, em que pensara aturadamente: "É melhor estarmos afastados por uns tempos. Adoro-te. Beijo". Parecia-lhe a fórmula ideal, que interrompia o namoro sem fechar portas e demonstrava respeito pelo companheiro, por ser redigida sem abreviaturas. Enviada a mensagem, entregava-se livremente aos prazeres que antecipara. Ainda de madrugada, regressava a casa do namorado, abria a porta com cuidado, descalçava-se, entrava no quarto, procurava o telemóvel dele, certificava-se com alívio de que a mensagem não havia sido lida e apagava-a. Deitava-se então sem a habitual carícia terna e suave no namorado, guardando algum lençol de distância. Assim se passaram vários meses e só uma noite de insónia do seu namorado quase deitou tudo a perder. Ao chegar a casa, ele tinha os olhos inchados de tanto chorar, mas parecia já recomposto e envergando a armadura do orgulho. Percebendo tudo, cabisbaixa, a rapariga pediu que ele a aceitasse de volta. Foi quanto bastou para que a armadura caísse por terra sem interrogatório. Só já cama ele acusou receio: "estavas a brincar, não estavas?", ao que ela respondeu: "não, querido, mas hoje de madrugada já tinha mudado de ideias. Foi uma precipitação minha". Havendo na sua frase duas verdades a flanquear uma omissão, o saldo na consciência de Sandra era positivo. Com saldo positivo e o anúncio nessa semana de cobertura de rede total para o país, o futuro dos dois parecia ainda mais promissor.

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