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OURIQ

Um diário trasladado

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15
Dez16

Rui Miguel Tovar


Eremita

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obsessão nacional pelo futebol, sem obsessão concorrente à altura que funcione como contrapeso, o baixo custo do jornalismo de opinião e o aparecimento de novos canais de televisão portugueses levaram a que, na última década, a figura do comentador desportivo tivesse passado por uma notável radiação adaptativa, o fenómeno biológico que consiste na formação acelerada de espécies a partir de uma espécie ancestral por ocupação de novos nichos. Não leio a imprensa desportiva, nem acumulo o número de horas como telespectador necessário para elaborar uma taxonomia fina destes novos tentilhões, mas as grandes categorias são fáceis de esboçar: o jornalista desportivo ancestral (Ribeiro Cristóvão e Fernando Correia) e seus herdeiros directos (aqueles três senhores da TVI24, Rui Santos e os impolutos do Jogo Jogado, programa da TSF), o jogador retirado (Futre, Baía, Rodolfo, Álvaro e outros), o árbitro retirado (Pedro Henriques) e o treinador em pousio (Manuel José, Toni e outros), os figurões das "estruturas" dos clubes (Guilherme Aguiar e Rui Gomes da Silva), o comentador de política que também comenta o futebol (Pedro Marques Lopes e Paulo Baldaia), o político que comenta futebol (Helder Amaral, Nuno Encarnação e Eurico Brilhante Dias, mas creio que nenhum deputado da esquerda, tendencialmente mais ascética), o adepto semiprofissional (Pina e aquele senhor que se rodeia de recortes e apontamentos), profissionais de mérito noutras áreas de actividade (Francisco José Viegas, Júlio Machado Vaz, Eduardo Barroso, Carlos Daniel, João Botelho e Rogério Alves), profissionais de mérito duvidoso noutras áreas de actividade (Manuel Serrão e um rapaz  bem falante que noutros tempos cantava em inglês), a mulher bibelô que nada sabe de futebol (Joana Amaral Dias), a mulher conhecedora (Leonor Pinhão e Raquel Vaz-Pinto), e, naturalmente, Pedro Adão e Silva, que forma sozinho a categoria de grande hermeneuta de todos os passatempos. 

 

É fácil desprezar este universo do comentário e, não havendo laços de parentesco, impossível apreciar um indivíduo como Rui Gomes da Silva, mas a diversidade tem pelo menos a vantagem de realçar os mais virtuosos. Ora, um dos meus preferidos entre todos os comentadores é Rui Miguel Tovar (RMT). Tal como refere um actor (4' 14'), frisando as consequências de ser filho de um pai famoso, também em RMT a cara não é um rosto, mas sim uma velha e boa lembrança, a de seu pai, o jornalista desportivo Rui Tovar. Seria porém injusto colar a RMT o estigma do nepotismo, pois se alguma porta o seu pai lhe terá aberto foi a do gosto pelo futebol, que o levou a um conhecimento profundo - quase maníaco - desse desporto. Há uma simplicidade muito empática em RMT, como se pode comprovar nesta sua ida ao programa radiofónico Prova Oral. O episódio tem ainda a curiosidade de mostrar um RMT com uma memória prodigiosa para os factos do futebol, mas falível noutros domínios, pois logo aos 2' 30'' não se recordou do filme que vira na semana anterior e aos 56' 00'' trocou Clark Kent por Clark Gable (embora se apressasse a corrigir o lapso), o que reforça a impressão de estarmos perante alguém com um grau de especialização extrema. Reveladora também é a resposta à pergunta de Fernando Alvim, que não prepara as entrevistas mas sabe transmitir as nossas interrogações mais primárias: e a quem não passou já pela cabeça que a profissão de crítico é trágica, por deixar a suspeita de que só alguém que tentou e falhou ou não chegou sequer a tentar segue esse caminho? Pois bem, RMT nunca se imaginou treinador de futebol e disse-o de um modo tão desarmante que a pergunta perdeu todo o sentido. O jornalista parece conservar uma pureza que muitos dos seus colegas nunca tiveram ou entretanto perderam, por clubite, carreirismo ou mania das grandezas. E é o seu prazer em fazer o que faz que me leva até a tolerar a série Os números do Tovar, uma autêntica máquina de factóides, demasiado aquém da estatística e assustadoramente próxima da numerologia (e.g. "SCP sempre campeão quando ganhou 1-0 no Bessa"). O melhor do futebol são os jogadores? Alguns jogadores e RMT. 

 

 

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  • Eremita

    Bom link. Obrigado.

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    http://www.nyu.edu/classes/gmoran/WILLIAMS.pdf

  • Anónimo

    psiquiatra atento18 de Setembro de 2019 às 14:24O ...

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    Não sei de onde tiraste essa ideia. Ontem, logo de...

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    Sabes que muita gente está perfeitamente convencid...

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