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Ouriquense

23
Mai18

Roth por Bruno Vieira Amaral

Eremita

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Roth em 2018 (NYT)

A questão da misoginia é aparentemente mais complexa. Em certos livros (O Animal MoribundoA HumilhaçãoA Mancha HumanaTeatro de Sabbath ou O Fantasma Sai de Cena) são recorrentes as fantasias sexuais que envolvem um velho e mulheres mais novas e como o ponto de vista é o do homem a acusação de misoginia tornou-se quase obrigatória. É como se os narradores fossem frequentemente possuídos pelo espírito de Fiódor Pávlovitch Karamázov, o pai Karamáv:

“Um sensualista depravado. Um velho libertino solitário. Um velho com as suas raparigas novas. Um grande palhaço que instala um harém de mulheres dissolutas na sua casa.”

Estas palavras encontram-se em O Animal Moribundo [2001]. É assim que David Kepesh, narrador e protagonista do romance, e que apareceu pela primeira vez no gogoliano The Breast [1972], descreve o personagem de Dostoiévski e, de certo modo, se descreve a si mesmo. Aos sessenta anos, Kepesh é uma sumidade cultural que há muitos anos optou levar uma vida licenciosa em que o prazer é o fim último. A relação com Consuela Castillo, uma jovem de 24 anos de origem cubana, abala os fundamentos da sua vida de sátiro. Roth teria de ser muito ingénuo para não antecipar eventuais leituras auto-biográficas. Afinal, como o próprio reconheceu, a sua vida tinha sido isso.

Acontece que a insistência em fantasias sexuais senis, bem como a relevância do sexo na sua obra, estão tingidas por cores outonais, assombradas pela velhice e pela proximidade da morte, de um modo mais melancólico em livros como Indignação e A Humilhação, e de modo mais abrasivo em Teatro de Sabbath e O Animal Moribundo, livros cuja eloquência raivosa, segundo Coetzee, é “deflagrada pela brutal resistência do mundo à vontade humana ou pela perspetiva de aproximação da extinção.” Bruno Vieira Amaral, Observador

 

Tenho muitas dúvidas quanto ao valor do paralelo entre Fiódor e os narradores do Roth tardio. Não vejo nos bonecos do americano a paranóia, instabilidade e impulsividade do russo e todos devemos ter presente que a atracção sexual é um grande homogenizador, isto é, quando vistos exclusivamente por esse prisma, até homens - e mulheres, claro, e mulheres - com personalidades distintas podem parecer-se. O que sempre me pareceu algo deprimente, mas também uma chave para se perceber o sucesso deste Roth tardio, é a previsibilidade do universo sexual do homem que envelhece, a constante atracção dos seus velhos pelas mulheres jovens e - como se não bastasse - pelas mulheres jovens de sensualidade estereotipada, da Consuela de origem cubana (a latina boazana) à modelo dinamarquesa de Everyman (a escandinava boazona). Deposito no envelhecimento de Michel Houellebecq alguma esperança, a expectativa algo louca de ver a "misoginia" do francês sublimada por uma criatividade mais disruptiva do que a que gera o universo das fantasias sexuais de Roth, tão calibrado para o gosto da burguesia. Será Houellebecq - o que seria surpreendente, mas vale a pena viver sem esperanças infundadas? - a escrever sobre a atracção sexual pelos velhos, não como parafilia, mas uma espécie de revelação que escapou ao convencional Philip Roth?

 

Quanto à eterna questão do grau de dissimulação de Roth na voz dos seus narradores, time-out, por favor, ou, se preferirem, alto e pára o baile. A ficção foi a forma que encontrámos de partilhar os nossos pensamentos sem nos implicarmos excessivamente e tudo o resto, do estlilo ao enredo, é supérfulo. Mas não será isto evidente? Para quê recomeçar sempre este debate como se nada tivesse já sido apurado desde a invenção da escrita cuneiforme, para não recuarmos aos primeiros relatos de transmissão exclusivamente oral? Perguntar a um escritor se a sua escrita é autobiográfica é apenas uma convenção para começar uma conversa, tão irrelevante enquanto busca de conhecimento como lançar um desabafo sobre a humidade atmosférica, a pluviosidade, a temperatura do ar e até a altura da ondulação de noroeste na esperança de que alguém pegue na deixa e quebre um silêncio pesado. Para mim, Roth foi sobretudo um exímio soliloquista - penso em certas páginas de The Professor of Desire. E é isto. Enfim, vão ler, vão ler, porque me parece que a crítica literária no Observador nada fica a dever à imprensa de referência e isto não é fácil de admitir para um homem de esquerda, mas somos por Ourique, pelos valores do Iluminismo e também pela meritocracia. 

 

 

 

 

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