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Um diário trasladado

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05
Out18

Ronaldo: já ninguém tem dúvidas


Eremita

Há três regras fundamentais do Estado de Direito, sem o qual este é uma pura ficção: 1º quem acusa, prova; 2º quem é acusado tem de ter direito ao contraditório em, pelo menos, iguais circunstâncias de quem o acusa; 3º não pode haver crimes sem prescrição, isto é, em condições normais, o direito a agir criminalmente contra uma pessoa não pode ser eterno, sob pena de quem tem essa faculdade poder transformar a vida de qualquer um num inferno.

(...)

Por mim, assumi a seguinte regra: sempre que uma figura pública – seja qual for – se vir confrontada com acusações de actos sexuais impróprios supostamente perpetrados contra mulheres «inocentes», rodeadas de equipas de advogados que juram pela sua infelicidade causada pelo acusado, estarei sempre ao lado deste último. Se, ainda por cima, anos tiverem passado sobre os supostos actos em questão, defenderei a condenação criminal da acusadora, em sede de «denúncia caluniosa». rui a. 

 

Na sua forma extremada, o movimento #MeToo parte do princípio de que as mulheres dizem sempre a verdade. Rui a., que não aprecia o #MeToo, resolveu partir do princípio oposto. É nestes momentos de grande ebulição social, com facções dominadas por ideologias opostas, que o bom senso tende a desaparecer do espaço público, ficando a berrar as Capazes e a Helena Matos.

 

As três regras fundamentais do Estado de Direito fazem todo o sentido. Mas que eu saiba, a primeira e a segunda referem-se ao funcionamento da justiça, não à formação da opinião, e não há nenhuma evidência de que estejam a ser violadas pelos tribunais ou pela imprensa. Quanto à terceira, a prescrição, convém lembrar que não se aplica no nosso país ao genocídio, aos crimes de guerra e aos crimes contra a humanidade. Tendo em conta os escândalos sexuais envolvendo padres e encobertos durante décadas pela Igreja, bem como o que se vai sabendo sobre o que leva muitas vítimas de violação a ficar em silêncio, não me chocaria que se abrisse uma discussão sobre a possibilidade de agir criminalmente a qualquer altura no caso de crimes sexuais; haverá certamente desvantagens e vantagens. 

 

O caso Ronaldo é muito curioso por se tratar do herói da nação. Nos últimos dias, descobrimos que abundam no país especialistas em engates de bar, direitos, liberdades e garantias em quartos de hotel, gramática em contexto libidinoso, incluindo muitos doutorados no significado da negação e até da quadrupla negação, uma área de enorme dificuldade técnica, bem como teóricos - mas com leituras muito selectivas e pouca cultura cinéfila -  que negam a possibilidade da sodomia sem consentimento. 

 

Pondo de parte todos os argumentos disparatados, apenas julgamos saber que uma mulher contratada por um hotel para entreter os clientes no bar foi para o quarto de Ronaldo, que aí terão acontecido coisas, que a mulher apresentou queixa na polícia e haverá fotos documentando lacerações no ânus, que alegadamente Ronaldo afirmou que a mulher disse "não" várias vezes durante o acto sexual e que o futebolista terá depois comprado o silêncio da mulher. O tempo dirá se estas informações se confirmam. Confirmando-se, a carreira de Ronaldo acaba. Perderá o contrato com a Nike, será despachado pela Juventus e irá fazer mais uns milhões na Arábia Saudita ou na China, países impermeáveis ao #MeToo. Não se confirmando, Ronaldo verá restaurada a sua imagem e a mulher só será lembrada como oportunista. Opiniões convictas neste momento, num sentido ou outro, são precipitadas.  Mas lidar em público com a dúvida é tão difícil como manter a mão num fogo, pois quem tem dúvidas não tem likes

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