Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Jan17

Recomendações de leitura


Eremita

1. Através do blog Chove, dei com mais um lamento de um mártir do politicamente correcto. Começa a ser uma praga. Desta vez foi Alberto Gonçalves, que entendeu haver substância para um ensaio. Não me vou repetir, apenas friso o consolo de perceber que um dos cronistas mais elogiados do burgo repete os argumentos do costume, é vago nas enumerações dos casos de censura que terão feito com que "uma impressionante quantidade de gente [visse] as suas vidas arruinadas por pisar a linha justa", vai ao absurdo de equiparar o politicamente correcto ao "fascismo", e, sempre sobranceiro, parece ignorar que, nos últimos 50 anos, no mundo ocidental, a extensão de direitos a minorias étnicas, às mulheres e a pessoas com orientação sexual minoritária foi uma conquista do centro-esquerda e da esquerda. Onde estavam os conservadores e liberais? Ninguém sabe. A sua grande causa veio depois e é a luta contra o politicamente correcto, isto é, alguns delírios do feminismo, algum excesso de susceptibilidade dos homossexuais, atitudes que qualquer pessoa sensata entende, por corresponderem à última fase de um processo de universalização de direitos, uma fase em que o pêndulo cumpriu já o desejado longo e difícil caminho até ao centro e, não podendo parar de imediato, porque a inércia não é apenas um fenómeno da Física, oscilou um pouco para o outro lado. Que venham então os Gonçalves travar este movimento pendular, até porque é um dirty job e alguns idiotas úteis terão de o fazer, mas sem sobrancerias e alguma noção do ridículo, porque o mais difícil, o empurrão inicial que libertou o pêndulo, não foi dado por eles.    

 

Segundo percebi, Alberto Gonçalves teve durante alguns minutos a conta bloqueada por ter escrito: "contas por alto,cerca de 38.6% dos músicos que aprecio são ou eram mariconços". Soa familiar. Mas ainda haverá empatia para os censurados do Facebook, se são, digamos, "tão 2012"? Não será "poucochinho" para um veterano polemista profissional como Alberto Gonçalves apresentar o Facebook como inimigo e pretexto para um ensaio? Será que não foi processado por nenhum poder da pátria, nem - sei lá - acordou uma manhã com a cabeça de um cavalo decapitado dentro da cama e os lençóis empapados de sangue? E o enésimo cronista que recorre aos jornais ou à televisão para se queixar das redes sociais, sem se dar conta do seu privilégio, quem o atura? Se Alberto Gonçalves não quer ter arrelias, basta-lhe sair do Facebook e libertar-se da agremiação regida pelo puritanismo americano e a delação institucionalizada, onde ele voluntariamente se foi enfiar. São opções. Não sou de intrigas, mas aqui, por exemplo, sem que façam de mim uma vítima do politicamente incorrecto, posso exibir mamocas e pipis, algum paternalismo eurocentrista e até zoofilia sexista, como exemplifico com este desenho de Katasushika Hokusai intitulado "O sonho da mulher do pescador" (uma profissão realmente ingrata): 

 

Screen Shot 2017-01-17 at 22.19.31.png

 

Enfim, é talvez pertinente colocar a hipótese de que Alberto Gonçalves andava a pelar-se por uma censura e foi fazer traquinices no Facebook. Eis o problema dos paladinos do anti-politicamente correcto: são quem mais hoje depende da brigada do politicamente correcto, pois se esta não existisse ficaria à vista de todos que eles nunca foram politicamente incorrectos. 

 

2. Mais substancial é este texto de António Marujo sobre o jornalismo, que li num post fraterno do Cibertúlia. Ou melhor, não é tanto a análise de Marujo, mas sermos lembrados de que um profissional maduro e competente, que é um dos poucos jornalistas especializados em temas religiosos que temos, está desempregado, salvo erro há já algum tempo. Com tantos incompetentes indiferenciados nos media, este caso deixa-me perplexo e até envergonhado*.

 

* O Judeu leu e está de acordo, o que para mim é quase um Q.E.D., pois, como se diz, temos divergências de fundo. 

 

 

1 comentário

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Pesquisar

Comentários recentes

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D