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Um diário trasladado

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22
Mai19

Realismo mágico (17)


Eremita

bola velha.jpg

Nunca consegui passar dos 124 toques na bola sem a deixar cair. O número é embaraçoso. Não abro o Guinness Book há anos, mas o recorde deve andar pelos quatro dígitos. No bairro havia quem chegasse aos 1000 toques. Eu dominava os rudimentos do malabarismo: manter a bola baixa, quase colada ao pé, e estar sempre equilibrado, enquadrado com o esférico. Manter a bola baixa não melhora apenas o controle; aumenta o número de toques por unidade de tempo. E o tempo é importante. Aliás, ainda hoje defendo que o recorde de toques na bola é definido menos pelo domínio técnico do que pela resistência ao tédio ou, se se preferir, a capacidade de concentração. Sucede que esta é uma opinião sem suporte empírico. Como se verá.


Um dia resolvi desafiar um amigo para um duelo de toques. Escolhi-o a dedo: um tipo melhor do que eu mas de excepcionalidade improvável, rapaz para valer talvez uns 200 toques em dia inspirado. Perdi o primeiro embate (198 a 67), o segundo (167 a 90) e antes do terceiro fiz deslizar o meu trunfo da manga: "e se fôssemos contando uma história enquanto damos toques?". Fez-se silêncio e esperei pela facada óbvia em quem expunha o flanco: " bem, tu apenas terias tempo para uma anedota curta...". Mas não. Ele concordou sem se alongar. Era de poucas falas. Na minha cabeça a disciplina que contar uma história implica faria com que eu não cedesse à vadiagem mental que a partir dos 50 toques me atacava e, pelo contrário, perturbaria o meu adversário, incapaz de encaixar a bivalência e de se acomodar à novidade. O preconceito óbvio era que eu seria um "criativo" e o meu adversário um burocrata. Comecei eu, num arranque prudente ao décimo toque, com um "era uma vez..." Não passei dos 45. A história saiu pífia e ficou por concluir. Depois foi a vez dele. Ao quarto toque soltou para o ar: "a vinha foi o presente envenenado que inquinaria quatro gerações e num século conduziria os Andrade à decadência moral e financeira..." Aos 350 toques ainda eu não conseguira fechar a boca de espanto. Diante de mim revelava-se um génio do realismo mágico, que improvisava uma história em flashbacks múltiplos e fazia a trama correr sem hesitações pelas quatro gerações dos Andrade, metendo bruxaria, animismo e nunca trocando os nomes. Nem deixando cair a bola. Havíamos começado pouco depois de almoço. Ao crepúsculo eu ouvia - com irreprimível interesse- a descrição da melhor colheita de sempre dos Andrade. Os Andrade prosperavam, tinham um futuro risonho pela frente e só mais três horas de narrativa poderiam levar aquela história idílica aos abismos antecipadamente descritos. E ele nas calmas, com 4600 toques, sem sequer se excitar nas partes que envolviam o Andrade patriarca e a criadagem mestiça e viçosa. Um génio. 5000 toques. Quando o chamaram da janela para que fosse jantar, passou-me a bola com o pé e eu tentei dominá-la no ar, mas desequilibrei-me. Ele então olhou-me com candura e o que disse foi sincero: "se quiseres continuo amanhã e fazemos disto um folhetim".

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