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OURIQ

Um diário trasladado

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26
Abr19

Ratazanas (2)


Eremita

bola velha.jpg

O mítico Maracangalha, um parque de estacionamento a céu-aberto e sempre vazio de uma garagem local, era um imenso campo de cimento, particularmente cruel para os joelhos. Um bom guarda-redes ali era louco e só depois herói. O Maracangalha estava reservado para torneios, pois tinha um ar de coliseu romano e deixava sempre alguém todo esfolado e a sangrar, o que melhora qualquer espectáculo. Para peladinhas e jogos dominicais, preferíamos os relvados. Na verdade, estamos a falar de relvados preparados, que tal como o piano preparado prolongam e pervertem os recursos expressivos das simples quatro linhas. Com faias, plátanos e arbustos, atravessado por velhinhas carregadas de compras, perto de uma avenida por onde passavam muitos autocarros e com o lancil do passeio a fazer de linha lateral, jogava-se futebol num cenário digno dos ridículos Jogos sem Fronteiras. Mas, apesar das -"deixa a senhora passar" - interrupções e dos caprichos do campo, habituámo-nos - "ajuda-me aí a subir à árvore" - a jogar ali, sabíamos de cor onde os arbustos e os troncos - "O cabrão do motorista... Lá foi mais uma bola p'ró caralho" - estavam, ao ponto de nunca ninguém ter sido placado pela vegetação - "ressaltos de merda" - numa arrancada -"qual é a tua? Isso é anti-jogo, pá. Sai lá detrás da árvore". Mesmo na madrugada em que decidimos desbastar pela raiz um arbusto com picos, que repetidas vezes nos ferira os antebraços no acto de recuperar a bola, houve uma certa nostalgia. Era um daqueles arbustos que produzem umas bagas alaranjadas e tidas por venenosas, embora fossem apenas amarga. A planta que tinha crescido connosco, literalmente ao mesmo ritmo que nós, o que sempre reforça algum envolvimento emocional. Recorrendo a uma expressão então inexistente, a nossa relação com o arbusto era complicada. Talvez por isso, as nossas machadadas foram frouxas. E quando o guarda nocturno se aproximou e nos perguntou o que estávamos a fazer, vimos ali uma desculpa para abortar o plano, pese embora a resposta cheia de espírito do Afonso - "ratazanas, seu guarda. Têm aqui debaixo uma toca enorme e já morderam o meu irmão mais novo. Vamos inundar isto". O arbusto ferido resistiu-nos. Só viria a ser definitivamente arrancado muitos anos depois, já pelas mãos de outros também do nosso prédio mas que não eram nascidos na noite em que desculpámos o nosso acto de vandalismo frustrado com a ameaça das ratazanas. O que explica o sucesso deles não foi o progresso da tecnologia, mas a simples renovação geracional que cortou pela raiz a ligação ao arbusto e reduziu o problema a um simples acto de gestão do território. Talvez tenha sido a partir desse episódio que passei a associar a geração vindoura a uma avalanche. 

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

 

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