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OURIQ

Um diário trasladado

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27
Fev18

Ser "queer" ou não ser


Eremita

Pareceu-me oportuno voltar ao "coming out" passivo de Adolfo Mesquita Nunes. A minha posição não se alterou, pois continuo a julgar que há vantagens óbvias quando políticos e outras figuras públicas assumem a sua orientação sexual - quanto a este assunto, tenho uma posição utilitarista. Mas entretanto António Guerreiro publicou dois textos (1, 2) sobre este episódio, em que critica os termos usados por Adolfo Mesquita Nunes e o apoio generalizado, de evidente auto-satisfação e "virtue signalling", que as declarações do político e advogado despertaram (enfio o barrete). São dois textos singulares entre nós, por não terem um pingo de homofobia, antes pelo contrário. A singularidade da posição de Guerreiro prova-se pela incompreensão que gerou entre os desatentos e pela reacção de alguns dos mais destacados homossexuais públicos da pátria, como Miguel Vale de Almeida e Eduardo Pitta, que, percebendo imediatamente a argumentação de Guerreiro, fizeram comentários críticos que só podem ter sido para ele mas sem o citar, ou seja, como se ele fosse um proscrito que atraiçoou a causa (3, 4). 

 

segundo texto de Guerreiro é o mais pertinente e esclarecedor. Ele revolta-se contra "o ideal que consiste em tornar a homossexualidade tão integrada e tão assimilada que se torna indiferente". Esta posição só parecerá excêntrica ou caprichosa a quem não estiver a par do que Guerreiro anda a escrever há muito tempo, como a sua crónica sobre a "homossexualidade heróica de Pasolini", nem das discussões sobre estes temas que, há quase três décadas, decorrem nos EUA, remontando a Foucault, o pai dos "queer studies", que em tempos disse, para que não houvesse dúvidas: "il faut s'acharner à être gay". Veja-se a troca de argumentos entre Martha NussbaumMichael Warner, de 2010, sobre o direito dos homossexuais ao casamento, cujo interesse ultrapassa em muito a circunstância de esta ser, muito provavelmente, a primeira vez que a California Law Review é citada a partir de Ourique. Nussbaum e  Warner são académicos prestigiados que constroem uma discussão muito sofisticada e, embora militante, sem o sectarismo que tende incubar ataques ad hominen, processos de intenções e interpretações de contornos psicanalíticos que só introduzem ruído. Fazendo a transposição para Portugal, Nussbaum representa as vozes do progressismo ortodoxo (Pitta, Vale de Almeida, a ILGA, etc.) e a sua defesa do casamento entre os homossexuais é exaustiva e exemplar. Warner, o homossexual que critica a posição de Nussbaum, representa Guerreiro, que ousou criticar a ortodoxia progressista e reclamar um direito à diferença que ele vê condenado à extinção pelo modo como tem sido feita a inclusão social dos homossexuais. Warner entende o casamento civil como um ritual sacralizado, expressão de uma lei "cripto-cristã" que, na sua essência, perpetua a heteronormatividade e que, consequentemente, os homossexuais não devem fazer do direito ao casamento a sua grande batalha política, sob pena de estigmatizarem ainda mais aqueles homossexuais que não se revêem no modelo, nomeadamente os mais promíscuos. 

 

Continua. Isto vai dar muito mais trabalho do que tinha estimado, mas publico já a introdução, pois de outro modo não consigo libertar a cabeça para a agricultura e a captação de fundos públicos do PDR2020 - é a chamada "vidinha". Quando acabar abro os comentários.

 

 

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