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Um diário trasladado

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27
Dez17

Publicitários: não há pachorra


Eremita

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Não tendo visto a série que o Valupi comenta, permitam-me lançar um apelo para que acabem as séries e demais produtos culturais sobre o universo da publicidade feitos por publicitários, ex-publicitários ou outros indivíduos. Mad Men pode ter sido uma apoteose, mas foi apenas mais um produto de uma tendência que se eterniza. Nos anos noventa, os meus olhos inocentes consumiram a série Thirtysomething com genuíno interesse, embora o que os jovens publicitários ambiciosos faziam em casa me interessasse mais do que os seus desafios profissionais. Lembro também o bestseller 99 Francs, do francês Frédéric Beigbeder. E preferia não me ter lembrado agora do "tio Olavo", uma personagem insípida criada por Edson Athayde, o grande "génio" da publicidade a trabalhar em Portugal. Outros produtos haverá, mas estes bastam para o desabafo. Basta de impulsos criativos de publicitários em crise pessoal. Basta de reflexões autobiográficas sobre a profissão emblemática da sociedade de consumo, que transforma jovens "criativos" em adultos amargurados. Não queremos mais nenhum acerto de contas com o mundo da publicidade. Chega. Se já tivemos a escola de Frankfurt a cascar no capitalismo durante décadas e agora temos o Arménio Carlos, não se percebe o que a perspectiva autobiográfica e confessional de um (ex-)publicitário vem acrescentar ao mundo. O mundo da publicidade é fascinante? Também a rotina de um homem do lixo é fascinante. Em todo o caso, daria uma série catita, pois o lixo é uma porta de entrada na vida de qualquer um e as luzes dos semáforos na penumbra urbana prestam-se a uma bela fotografia. Tese: qualquer universo profissional é potencialmente fascinante e convertível em série ou romance. O que a publicidade tem de particular, além produzir criativos frustrados com cura de 5, 10, 15 ou até 20 anos e um grande talento para vender coisas, é a proximidade aos meios de produção audiovisual, nada mais. Publicitários, encarem a possibilidade de o vosso mundo não ser tão interessante como o imaginam, nem assim tão trágico-cómico. 

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