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OURIQ

Um diário trasladado

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15
Fev17

Os virtuosos do amor


Eremita

[Em actualização permanente até 26.2.2017]

 

Sem tempo para a bloga, deixo apenas uma entrada, ao correr da dactilografia e em registo de note to self, sobre a declaração de amor de Miguel Esteves Cardoso (MEC) a Maria João, sua mulher, publicada ontem, muito possivelmente por ter sido o dia de São Valentim. A Portugal não têm faltado intelectuais públicos especializados no amor, como o mencionado MEC, a explicar o amor desde para aí 1984, Pedro Paixão, um escritor e figura pública muito apreciado nos anos 90 e princípio deste século, hoje algo desaparecido e a escrever livros (como um ensaio sobre Darwin que apenas eu li) ignorados pela crítica,  o inevitável Lobo Antunes das cartas à mulher enviadas de África, e o poeta e serial blogger (nova paixão, novo blog? A doutrina divide-se) Pedro Mexia, só para não sair de Lisboa, nem ir buscar grandes amantes mortos, como o O'Neill. Também haverá mulheres, mas - como se perceberá - estou-me nas tintas para elas. Trata-se de um grupo muito heterogéneo no culto que fazem da mulher, que pode ir do amor puro, simples e generoso de Esteves Cardoso ao amor pontuado pela misoginia e o ressentimento, algo entre um Pavese mais soft e um Houellebecq mais pudico, como se lê em alguns texto de Pedro Mexia.  Escrever coisas...

 

Será que nós, os simples de espírito sem o ofício da paixão por escrito, que não voltámos a arriscar um verso depois da pós-graduação, lemos as declarações de amor dos virtuosos do amor sem sobressalto? Sem sermos tomados pela dúvida? Como não, se podem ser tantas? A mais clássica, domesticada pelo intelecto, ainda sem revelar grande fragilidade, apesar de erguida como um dique holandês: amará ele o ser amado ou o seu estado de enamoramento? E logo depois todas as outras, rompendo irremediavelmente o dique: seria eu capaz de amar como ele ama? Alguma vez alguém me amou como ele ama? O que pensará o meu amor ao ler o que eu estou a ler? Mas por quem se tomam estes gajos, para andarem pelos jornais a exibir arrebatamento e provas de extrema sensibilidade? Julgam que tamanho amor os eleva? Ou será que até lhes agrada a equiparação ao homem avantajado que adora passear-se no balneário nu e demoradamente, consciente do impacto do seu caralho bamboleante na cabeça dos outros homens?   Usar um comentário à crónica de MEC como exemplo da reacção dos "simples de espírito". Complexificar.

 

Juntar algo mesmo desconcertante (ajuda-me, Senhor). Concluir frisando o apreço por MEC, Paixão e Mexia (revelar as fugazes interacções com cada um deles? Para quê?). 

 

Continua

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