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Um diário trasladado

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15
Set18

Mais um uivo de Lobo Antunes


Eremita

 

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Temos* uma relação complicada com Lobo Antunes e a sua obra, mas ficámos* contentes com a sua entrada na La Pléiade. É verdade que a influência da cultura francesa  no mundo e em Portugal diminuiu vertiginosamente e para qualquer português com menos de 50 anos que não esteja ligada aos livros ou à França a importância dada a esta notícia é incompreensível, pois não vale um tweet - parafraseando um antigo colega de ignorância desconcertante: o que é Che Guevara? Quem é Bossa Nova? Esse Pléiade deve ter gajas mesmo boas a dançar em cima das colunas de som... É inegável que entrar nesta colecção da grande literatura mundial é uma enorme honra, como se percebe consultando o catálogo das 809 obras entretanto publicadas. Grande notícia, Marcelo já puxa o lustro a mais uma condecoração, viva Portugal. O único problema foi Lobo Antunes ter feito de Lobo Antunes. Eu iria até mais longe: Lobo Antunes caricaturou-se. Qualquer humorista de segunda categoria que tivesse de escrever umas piadas para um sketch de Eduardo Madeira sobre esta notícia iria pôr Lobo Antunes a dizer o que o escritor efectivamente disse: "É muito maior do que o Nobel". Admito que estivesse a ser sincero e a afirmação é perfeitamente defensável dentro de um universo geográfico, cultural e geracional limitado, mas o que sobressai é o grau de ressabiamento e a obsessão, tão avassaladora como a do capitão Ahab. O que diria Melo Antunes destes recorrentes uivos a propósito do Nobel? Não sabemos, mas sabemos que um homem se recolhe quando quer lamber as suas feridas. Não nos estragues a festa, Lobo Antunes. 

 

* Este plural majestático é de tipo experimental. Sempre desconfiei do académico que recorre ao plural majestático. É uma daquelas convenções ocas e talvez até contraproducentes, pois não cria a pretendida impressão de modéstia e gera algumas dúvidas: haverá no autor um desejo inconsciente de desresponsabilização? Ouvirá ele vozes? Por outro lado, o que mais me vem irritando na prosa, excluindo o abuso da terceira pessoa do presente do indicativo do verbo ser, uma palavra que soa como aquelas buzinas rocas que indicam uma resposta errada e matam qualquer melodia, é o protagonismo à boleia da celebridade, a inscrição das nossas vidinhas na vida de alguém com uma reputação maior do que a nossa, a ausência de tacto que nos leva a aproveitar um óbito para relatar a nossa banalidade. Mas não sei onde está a justa medida, como se estabelece um vínculo que não cause irritação no leitor. Parece-nos ser um daqueles talentos que o respeito pelas convenções não substitui. 

 

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