Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

06
Jul19

O triunfo de João Miguel Tavares


Eremita

Screen Shot 2019-07-06 at 09.16.01.png

João Miguel Tavares (JMT) está a viver o ano da grande consagração. Para quem o acompanha de longe, o discurso no 10 de Junho é a data a recordar, mas quem se dedica ao close reading sabe que o 6 de Julho é ainda mais marcante. Hoje, no Público, José Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, dirigem-se a JMT. Ignoraram-no durante muito tempo, mas o protagonismo de JMT atingiu a massa crítica e a dinâmica é agora a das reacções em cadeia. Os grandes senadores da crónica capitularam e ofereceram o pescoço ao sucessor como lobos vencidos, uma comparação insuficiente para o nosso Valupi, que provavelmente recorreria à imagem da submissão ritualizada em postura receptiva de pseudocópula. Pulido Valente nomeia o vencedor de forma a despachar a coisa sem dor. Pacheco, pelo contrário, oferece resistência negando-se a escrever o nome do cronista, mas acaba por descrevê-lo de uma forma mais inequívoca do que as que encontramos nos concursos públicos feitos à medida do candidato preferido, o que acaba por ter um efeito contraproducente, como um silêncio ensurdecedor. Para os mais velhos, a crónica de Pacheco deve ser lida escutando a sinfonia de Antón García Abri que se ouvia no genérico da série sobre a natureza El Hombre y la Tierra, porque hoje o Público oferece-nos um subtil festim de masculinidade, conflito intergeracional, dominância social, testosterona e cortisol, cheiros intensos e suor velho, dentes e garras, feridas lambidas e uivos agudos. Tã-tã-taã-tã-tã-taã...

Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. (...)

Este [o populismo] caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos). (...)

Mas já passou daí [das redes sociais] para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. (...)

O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso. (...)

No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam. (...)

O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar. (...)


Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão. (...)

Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve.(...)

O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”. (...)

Quando os populistas, os políticos que eles gostam, os partidos que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo. (...)

Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias.  (...) José Pacheco Pereira, Público

3 comentários

Comentar post

Pesquisar

Comentários recentes

  • Sarin

    E Cristina Miranda caberia?

  • Anónimo

    Ainda está online, Eremita, e bem que poderias abr...

  • Anónimo

    Eremita: pensava eu que o link era para as cenas d...

  • Anónimo

    chapada neles

  • Anónimo

    José Sócrates Gonçalves Carvalho Pinto de Sousa, v...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D