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Um diário trasladado

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13
Mai19

O transtorno de personalidade narcisista vem no DSM-IV


Eremita

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Pastiche

É sempre com melancolia que registo a infalibilidade do meu entendimento do mundo, pois sinto que perdi o direito a um futuro com espanto. Cada triunfo da minha razão, cada previsão que me sai certa – e são tantas! – é um sinal da minha velhice precoce, o preço a pagar por ver mais longe do que os cretinos, os imbecis e as bestas "que procriam" e me esforço em vão por iluminar, eu, vítima de uma justiça divina que me encarreirou na "desautorização progressiva daquilo que nos entusiasmou", como escreveu Virgílio Ferreira, talvez não exactamente desta forma, porque cito de memória e o meu génio tende sempre a melhorar o original - é uma força transbordante que escapa ao meu controlo. Enfim, deixo-vos a minha receita: sempre que quiserem pescar um narciso, só têm de engodar as águas com um elogio. Basta um ou nem isso; partes por milhão de um elogio, ainda que perdidas num mar de críticas severas, serão tão poderosas que ninguém precisará sequer de usar anzol, pois o narciso cairá no vosso regaço em estado de êxtase depois de um prodigioso salto impulsionado a golpe de anca.

Fim do pastiche

Com frequência, o estilo barroco só esconde um pensamento indisciplinado, como os perfumes disfarçavam o mau cheiro dos nobres sem hábitos de higiene. Vejamos vários equívocos, que se emaranham uns nos outros.

 

1. "A literatura é uma guerra” é um clichê, que a definição "a literatura é uma guerra contra o clichê" transforma numa efémera frase autofágica. Vamos esgrimir citações, é isso? Evidentemente, a literatura não precisa de ser uma "guerra", nomeadamente uma guerra contra outros, embora a ideia seduza o adolescente macho que lê Nietzsche, se me permites outro clichê (e ainda não estamos quites). Divago, porque o problema não é o guerrear, mas a falta de literatura. De um crítico poeta espero que malhe com propriedade na poesia de outro poeta e não que malhe no poeta. Descrever como “um estilo literariamente armado até aos dentes” ataques ad hominem gratuitos, desequilibrados, infundados e recorrentes denuncia uma arrogância preocupante. Não fales em literatura. Não blasfemes.

 

2. Escreves: “Em geral, dirige-se [eu] a um terceiro, fora de cena...” Bem, é próprio da escrita em público imaginar-se um terceiro; diria até que tu, com essa tamanha percepção de superioridade, imaginas um terceiro e até um quarto, a posteridade.

 

3. Aquele que se vê como uma figura romântica, revoltada e desalinhada, capaz de todos os excessos, desperta alguma simpatia, sobretudo quando age de acordo com essa imagem. Mas que motivo tenho eu para acreditar? Até ver, serás mais um dos cães que ladram sem morder, porque quem sente necessidade de teorizar sobre a tal “a liberdade de agir como se nada tivesse a perder” e outras patacoadas alinhavadas para deslumbrar imberbes muito provavelmente já se terá dado conta de que talvez não seja capaz de cumprir esse ideal e vá precisando de extravasar o seu desconforto. A tua escrita é muito reveladora, como sucede com os narcisos – descreves-te na forma como insultas os outros e não deve ser por acaso que a imagem do espelho surge duas vezes no teu texto.

 

Ir ao limite é algo que se avalia nas grandes decisões de vida e nos raros e imprevisíveis momentos em que somos postos à prova, não em figuras de estilo e retórica barroca sobre coisa nenhuma e que nada compromete. Afinal, que provas de irreverência anti-sistema tens para mostrar? Quem são os poderosos que já enfrentaste com um “estilo literariamente armado até aos dentes”? Ou que demónios interiores já dominaste com a tua escrita para nosso proveito? Não serás um jornalista manso de irreverência q.b., perfeitamente integrado na sociedade e que vai cumprindo o seu papel? Não tens cultivado o teu círculo de amizades e interesses? Não vais tratando da vidinha como toda a gente que desprezas? Deixemos o "rabo de fora", mas será que não entras também no “jogo de convenções e de ardis”? Já ouvi uma retórica tua muito marcusiana que até pode funcionar para uma plateia inocente, mas que evidências mostras de teres ido ao limite? Onde está o teu desalinho? Espero que tenhas o bom senso de não me indicares o link para um poema teu. Não é Herberto Helder quem quer –  uma grande chatice, reconheço.

 

4. Estimo muito o estilo, inclusive estilos rebuscados. Creio até que Luís Miguel Rosa faz uma defesa muito convincente de um estilo barroco contemporâneo. Sucede apenas que não aprecio o teu estilo prolixo e de insulto gratuito, que revela afectação de um nível caricatural e chega a resultar em humor involuntário, tal a soberba e o desajuste entre a forma e o conteúdo.  

 

5. E, por fim, uns avulsos sobre a falta de rigor e estereótipos patetas.

 

Não percebi de onde veio a “bagagem dinástica”.

 

Arremessar primeiro com "imbecil" (QI 20-50) e depois com "cretino" (QI 50-70) é algo - enfim - estúpido. Para a próxima inverte a ordem dos factores, pois o que fizeste é como começar por descrever alguém como um assassínio e rematar dizendo que se trata também  de um carteirista.

 

Sobre "tostões" prefiro ler o Luiz Pacheco, lamento. Havendo óptimas razões para discutir o capital social do Pedro Mexia, as suas fontes de rendimento e se ganha muito ou pouco é o que me interessa menos. 

 

Não me apresentei de “bata e estetoscópio” porque não é assim que o psicanalista recebe o seu cliente.

 

Já vais tendo idade para perceber que os testes clínicos não excluem o rasgo, a imaginação, a coisa “ardente e tão louca”, enfim, a beleza. Essa dicotomia em que acreditas sempre foi uma tolice, que nas últimas décadas só ganhou terreno pelas piores pulsões corporativas e a necessidade de especialização. De resto, está por nascer um poeta capaz de nos dar uma ideia mais bonita, desconcertante, ousada e transformadora do que algumas teorias de Darwin e Einstein. 

 

Adenda: Game over, Diogo. Terás de encontrar outro entretenimento pois a vida é curta. Não li tudo o que escreveste desta vez, aborreci-me ainda antes de concluir o primeiro terço, mas já deves ter reparado que sucede com frequência aos teus leitores. Terias muito a ganhar se adoptasses o haiku como forma exclusiva de comunicação. Fica o conselho. Um grande abraço. 

 

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