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OURIQ

Um diário trasladado

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19
Jun19

O silvo da gadanha (22)


Eremita

bola velha.jpg

No princípio do Verão chegavam uns homens envergando as fardas tristes dos empregados da Junta de Freguesia. Vinham com longas gadanhas, que usavam para aparar a relva do nosso campo. Anos depois estes homens seriam dispensados, reciclados, relocalizados ou sumariamente despedidos por causa das segadoras mecânicas. Os meus amigos ficaram fascinados pelas máquinas, que eram vermelhas e pareciam uns karts lentos, mas eu desconfiei logo à primeira interacção, quando os vi a cortar a relva no sentido do comprimento do campo. Tanto o meu pedido para orientarem as máquinas no sentido da largura como a pergunta de saber se seria possível desenhar as barras de contrastantes tonalidades de verde dos campos oficiais — "ia ajudar no fora de jogo…"—, foram recebidas com enfado. Disseram-me para não os incomodar e que tinham ordens para poupar as máquinas e não abusar das curvas (se as orientassem no sentido da largura do rectângulo de jogo acabariam por ser obrigados a curvar mais vezes). Era gente nova e apressada, seguramente com um segundo emprego. Tive logo saudades dos segadores a força de braços, que eram homens de meia-idade e ali no nosso relvado pareciam rejuvenescer. Às vezes traziam as mulheres com eles, que colhiam a relva cortada e a punham em grandes sacos de serapilheira de plástico. Almoçavam sempre à sombra do mesmo plátano novo e comiam uma merenda preparada em casa. Impressionava-me a técnica com que cortavam a relva, os movimentos curtos, interrompidos sem cadência definida por um mais amplo, que cortava o silêncio com um silvo. A lâmina, enorme e curva como um sabre árabe, tinha já fendido inúmeras vezes a biqueira das bocas que calçavam. Um dia deixaram-me brincar com uma gadanha, sempre de olho em mim e vigiando os meus os movimentos. Mesmo assim experimentei uma irreprimível sensação de poder e no dia seguinte estava lá de novo, para brincar com eles outra vez. Creio que foi por causa daquelas tardes que depois demoraria tanto tempo a perceber a personificação da morte na forma da ceifadora de vidas. Para mim uma gadanha era, antes de mais, um brinquedo.


Brinquedos seriam também as duas das máquinas de cortar relva negligentemente abandonadas pelos técnicos durante uma pausa para umas cervejas. A oportunidade surgiu já após a minha desagradável interacção com eles e a tal justificação de evitar fazer curvas com as máquinas. O nosso plano inicial era usar as máquinas para cortar a relva no sentido da largura do campo, mas a sede de vingança acabou por tomar conta de mim e consegui convencer o meu parceiro a abusar das curvas ainda mais: "olha, pá, vamos antes começar no centro do campo e cortamos isto aos círculos concêntricos, não achas? Afinal, quando foi a última vez que alguém deixou de marcar um golo por estar fora de jogo, hã?

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

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