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OURIQ

Um diário trasladado

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12
Out17

O Primeiro-Ministro ia, alegadamente, nu


Eremita

Agora que há acusação a Sócrates, vamos ter muito revisionismo para efeitos de preservação da imagem e acertos de contas entre comentadores, que se agruparão da seguinte forma: os socráticos desinibidos, um grupo ainda representado no povo mas cada vez mais rarefeito entre as elites (quase uma abstracção teórica), que junta quem defende a inocência de Sócrates e promove a tese da perseguição política; os socráticos envergonhados, essencialmente uns formalistas de circunstância, a quem dá jeito continuar a lembrar as fugas ao segredo de justiça; os convictamente formalistas, que, independentemente de quem foi acusado, estão preocupados com o funcionamento do Ministério Público, e a metade simétrica deste espectro que comecei a esboçar e não tenho paciência para terminar. Não haverá grande pachorra para estes acertos de contas. O que ontem me pareceu notável foi a total ausência de presunção de inocência nos comentários que ouvi na televisão - a cada cinco segundos, no sofá de sua casa, um telespectador socrático iria gritando "alegadamente" num crescendo de irritação, enquanto ouvia o que eu ouvi - "alegadamente, caralho!" Este é um dos efeitos perniciosos da fuga ao segredo de justiça. Como, a acreditar nos jornais, a acusação confirma as fugas ao segredo de justiça, criou-se uma ilusão de credibilidade que reforçou a convicção de que Sócrates fez mesmo tudo aquilo, o que - com raríssimas excepções - pôs os comentadores a falar como se estivéssemos perante factos consumados e interpretações irrefutáveis Tudo isto é um pouco assustador. Como é assustador especular que, não tendo havido fuga ao segredo de justiça, jamais teriam sido criadas condições para que uma investigação desta envergadura durasse tanto tempo e chegasse a uma acusação, uma possibilidade que não legitima a fuga ao segredo de justiça, antes torna todo este processo ainda mais paradoxal. 

 

Melhor do que o que ouvi ao serão foi o que li esta manhã, de alguém que parece ter alguma autoridade moral para descrever os anos socráticos como a versão republicana da história do rei que ia nu. Alegadamente, claro, pois aqui em Ourique somos todos formalistas convictos desde tenra idade. 

 

O que me traz é constatar que as conclusões a que cheguei não são de quem alguma vez esteve no inner circle de Sócrates, mas de quem, embora tendo tido alguma proximidade funcional a Sócrates (fui eu o responsável pelo parecer negativo ao Freeport, que levou ao meu afastamento imediato do processo e ao bloqueio da minha carreira na função pública até hoje, ao mesmo tempo que os responsáveis por esse tipo de procedimento, ilegítimo, continuam por aí, beneficiando dessa subserviência canina: ainda nestas eleições o responsável mais directo por este exemplo de submissão da administração pública a interesses privados foi o cabeça de lista do PS à Câmara de Bragança), estava longe de ver de perto a actuação de Sócrates. Henrique Pereira dos Santos 

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