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OURIQ

Um diário trasladado

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30
Dez17

O panegírico do ano


Eremita

Para potenciar o impacto da citação que vos proponho, a sua leitura deve ser acompanhada pela escuta de um dos seguintes  temas e sem qualquer poluição sonora envolvente (desligue a televisão, feche-se num quarto ou até na casa de banho, que beneficia a acústica):

 

The Gael, do escocês Dougie MacLean, celebrizada como banda sonora do filme The Last of the Mohicans.

 

Uma charopada sonora em estilo "épico hollywoodiano".

 

A Moldau, de Smetana. Caso seja esta a sua escolha, recomendo que inicie a leitura precisamente 40 segundos depois do começo da música. 

 

Percussionistas japoneses (tambor taiko).

 

E Vangelis, claro, um músico muito apreciado pelos socialistas, aqui representado pelo incontornável tema de Chariots of Fire. 

Comece a leitura apenas após ter ouvido o início da música que escolheu. Se pretender ler o texto uma segunda vez, seja ousado e mude a música. 

 

E Costa, no meio disto? Sou insuspeito, pois não lhe aprecio o estilo e certas decisões, certas companhias. Mas é cristalina a sua alta qualidade de estadista e de servidor público. Ao se oferecer para o cargo de primeiro-ministro, para lá da motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo, o que mais impressiona é a radical diferença entre a complexidade e esforço da sua função e a displicência e irresponsabilidade dos directores de imprensa, jornalistas-comentadores e demais publicistas com poleiro em órgãos profissionais e ditos de “referência”. São pessoas que, muito provavelmente, nunca aceitariam passar por experiência similar, ou que lá chegadas não aguentariam nem a milionésima parte do que o currículo de Costa prova que aguenta. Todavia, cagam sentenças a metro e ao peso, saturando a mancha da opinião publicada na imprensa escrita e audiovisual. Aliás, são os mesmos aqui e ali, ubíquos e repetitivos. A sua produção verbal é uma logomaquia narcísica – inevitáveis e salubres excepções à parte. Sem saberem, sem olharem para o chão que os suporta, na sombra dessa montanha diária de sectarismos e inanidades refulge imperceptível a heróica vocação daqueles que aceitam sujar as mãos e a esperança nas muralhas da cidade. Valupi

 

Quanto à "motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo" que fez como que Costa se tivesse "oferecido" para o cargo de primeiro-ministro, eu diria que foi a ambição; não associo nenhuma carga pejorativa à ambição, antes pelo contrário, mas surpreende-me que alguém pretenda transformar uma evidência em mistério insondável. O resto do parágrafo é ainda mais surpreendente. Prova que a grande obsessão de Valupi, afinal, não é Sócrates e talvez seja mesmo a defesa do Estado de Direito, mas aceitemos provisoriamente que é o PS. Mostra também que Valupi, o analista político implacável, sabe escrever prosa poética (notável o crescendo da última frase). E demonstra que podemos apresentar lapalissadas com tanta competência que soam a coisa original e até válida. É da ordem das coisas que um Primeiro Ministro tenha trabalhos hercúleos, sobretudo quando o comparamos com a pacata existência e o pequeno alcance dos seus críticos na imprensa, mas é absurdo usar o desígnio de um PM para diminuir os seus críticos e a pequenez destes para o engrandecer. O trabalho de um crítico, como o de um ministro, avalia-se por comparação com o trabalho dos seus pares, como é evidente. O exercício a que Valupi se presta só não assusta por aparecer num blog, pois tem tudo para ficar a matar num editorial do jornal oficioso do governo de um país de democracia musculada, como Angola ou a Rússia. Bom ano, Valupi! 

3 comentários

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    Eremita

    31.12.17

    Creio que não me expliquei bem. A "teoria dos dois níveis não comunicantes", como lhe chamaste (já nos tratamos por tu, certo? Bom ano!) é essencial à crítica. Quando falha, o resultado são pérolas de sapiência como o "queria ver-te fazer melhor..." ou a ideia de que o pobre coitado é forçosamente alguém que não conseguiu singrar na carreira daqueles que julga, tendo sido obrigado a reinventar-se como crítico ou professor. A comparação do Valupi reitera estas formas primárias de crítica dos críticos e dos professores. Mas basta lembrar que James Wood não precisou de escrever um grande romance para se tornar um grande crítico de literatura e que Augusto M. Seabra não tem uma carreira de concertista. Por isso, creio que é evidente que os níveis podem não comunicar e reforço a ideia: não devem comunicar, caso contrário (entre outros efeitos perniciosos), os melhores estariam sempre a salvo de críticas pois ninguém teria autoridade para o fazer. Não é como executante da arte/actividade que critica que o crítico deve ser julgado, como se se tratasse de um duelo entre - no caso concreto - Costa e os jornalistas e colunistas que o criticam com as armas escolhidas por Costa (a prática da política ou uma suposta autoridade moral). Para mim (mas esperançoso de isto não ser uma idiossincrasia), a eventual carreira política de Henrique Monteiro nas associações de estudantes dos anos 70 é irrelevante para formar opinião sobre as suas crónicas. Dito isto, nem sequer se percebe muito bem a exaltação de Valupi, pois Costa, quando comparado com os 4 PMs que o precederam, tem óptima imprensa.
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    caramelo

    01.01.18

    Eremita, o exercício do poder é fundamentalmente diferente do exercício da arte, motivo pelo qual não existe uma constituição que diga que "todos os cidadãos têm direito a tocar rachmaninoff ou a fazer um sfumato". Todo o critico do poder é, como qualquer outro cidadão, detentor de poder e, em sociedades mais evoluídas, invocado mesmo para o seu exercício efectivo, a participação na vida pública. Não é por isso totalmente descabido dizer "queria ver-te fazer melhor". Mas o ponto central nem sequer é este, mas sim o do efectivo poder dos críticos do poder, que não se pode menosprezar e nisso estão numa situação semelhante ao do crítico de arte e ao crítico gastronómico: podem, de facto, fazer e destruir carreiras. Talvez se lhes deva então exigir pelo menos tanto rigor como aquele que se exige aos titulares dos cargos, pelo menos na proporção do ascendente moral que se arrogam, por se julgarem afastados da sujidade do poder.
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