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OURIQ

Um diário trasladado

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11
Abr19

O pai que abandona os filhos


Eremita

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A notícia de que quase um terço dos adolescentes deixam de ver o pai depois do divórcio apanhou-me desprevenido. Julgava-me na era do pai premium, o pai que muda fraldas e é praticamente sueco no envolvimento que tem com o filho. Admito que andava iludido pelos  baby blogs escritos por homens, os livros que preparam o pai para o nascimento do filho , o Henrique Raposo a exibir na imprensa o seu extraordinário heroísmo, a sua sapiência, a sua virtude enquanto pai (pub) ( 1, 2, etc.), enfim, por todo um novo caldo cultural que deve muito à exibição da vida familiar nas redes sociais. Mas surpreende-me a desistência dos pais, esse triste desenlace, sobretudo por saber que a vontade de ter um filho pode ser fortíssima (talvez por ter passado mais de uma década sem concretizar esse desejo). É dessa altura este texto:

Laundry Blues 

[Nova Iorque, 2.07.2006, publicado pela primeira vez no extinto MI; republicado com pequenas modificações]

Gosto de lavar roupa. É uma rotina que se desenrola com uma periodicidade suficientemente espraiada para que não se torne entediante. Tem também tempos de espera - de lavagem e secagem - que dão para ler dois ou três artigos. E há um elemento de regeneração no processo que me enche de esperança. Com a roupa lavada parece que tudo volta a valer a pena e não ficaria espantado se me dissessem que deixar os antidepressivos passa muito pela escolha de um bom amaciador.


O lugar também conta. Tenho ainda presente o efeito quase hipnótico das revoluções dos tambores das máquinas de uma lavandaria parisiense e algumas conversas que troquei com os emigrantes que por lá passavam, gente que falava francês de todas as formas menos a correcta. Aqui em Nova Iorque há menos convívio, apesar de a lavandaria ser na cave do prédio. Não me dou com os vizinhos e os instantes de alguma intimidade só ocorrem por acidente. Como quando trouxe um babete perdido na minha trouxa de roupa. Ou quando descobri uma meia minúscula entre os lençóis. Percebi que a roupa de bebé tem especial vocação para fugir de casa e levantei uma hipótese: são os próprios bebés a colocar, com perícia, velcro nas suas peças de roupa, fazendo bandeiras de sinalização dos seus babetes e garrafas com mensagem das suas delicadas peúgas. Azuis e cor-de-rosa. Menino ou menina, todos se devem aborrecer com o excesso de mimo dos jovens casais. Eles querem ser salvos, pressinto-o. Foi avisado e pertinente ir escrevendo estes textos, uma tentativa feliz de sublimação do desejo de prole, caso contrário já teria raptado um puto. Outros não tiveram idêntica prudência e incorrem em comportamentos moralmente dúbios ou mesmo ilegais.


Encontrei um exemplo inesperado há uns dias, precisamente quando deixava a lavandaria. Num dos placards de anúncios, alguém anunciava (traduzo): "Adopção: casal sem filhos pretende adoptar uma criança com quem partilhar um futuro radioso. Pagamos as despesas médicas e legais. Vamos ajudar-nos mutuamente". Não sou ingénuo ao ponto de ignorar aquilo que algumas pessoas estão dispostas a propor para conseguir uma criança e o que outros estão dispostos a aceitar para ganhar algum. Porém, na minha inocência, nunca pensei poder ver tal anúncio num prédio de classe média de Manhattan. Não imagino nenhum dos meus vizinhos disposto a conceber uma criança por caridade ou para responder às encomendas. Sempre pensei que um arranjinho destes se faz entre gente bem instalada e pobres remediados. Pode ser que ainda seja assim e que este casal se estivesse a dirigir às amas e às mulheres-a-dias. Ou que tivesse optado por uma campanha massificada. Ou que seja simplesmente estúpido. O certo é que o anúncio me incomodou. Cheguei até a ter saudades dos tambores das máquinas de Paris, daquela desaceleração que parece um rewind e me transportava para outro tempo (algo que as opacas máquinas de lavar daqui não permitem). Talvez por isso tivesse aberto o frasco do amaciador já no elevador, encostado o meu nariz e aspirado com alguma intensidade. Um fulano que entrou nesse preciso momento lançou-me um olhar reprovador, mas há algumas vantagens em não me dar com os vizinhos e nem o cumprimentei à saída. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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