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OURIQ

Um diário trasladado

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22
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (5)


Eremita

A grande ilusão

Para cumprir a promessa de não ir além dos sete textos, outras aldrabices de HPS ficarão por detalhar, como as manipulações de citações de OMS, indo buscar textos pré-COVID-19, e a confusa e tacanha equiparação da crítica à razoabilidade das medidas de confinamento (que nunca questionei) a uma crítica à eficácia das medidas (o objecto exclusivo desta discussão). Espero que se perceba o problema de confundir estas duas críticas. Há décadas que discutimos a razoabilidade do bombardeamento de Dresden e do uso das bombas atómicas no Japão, não a eficácia dessas decisões para quebrar o ímpeto do adversário. Mas há um cúmulo de bullshit, má-fé bazófia que não pode ficar esquecido. Surge no texto "Isto não é matemática", um verdadeiro hino à ignorância. 

Daí a hipótese de que depois da epidemia entrar numa exponencial forte, teremos 12 a 15 dias (sim, pode ser um bocadinho fora deste intervalo, isto não é matemática) até começar a entrar no tal planalto e começar a descer.

Parece bruxaria, porque não tem uma grande complexidade matemática ou teórica. Quando perguntaram a André Dias que modelo estava a usar para dizer isto, limitou-se a responder: nenhum, olho para a curva, e leio-a a partir do que aprendi sobre epidemias.

Qual é a vantagem disto sobre os complexos modelos que tenho visto por aí?

(...)

E, sobretudo, revelou-se muito certeira nas previsões de evolução da epidemia e dos seus efeitos (os Estados Unidos e o Reino Unido apresentaram ontem, pela primeira vez, uma diminuição do número de mortos, o que deve ser lido com a cautela de quem sabe que um valor não é uma tendência). Por exemplo, muito no início, quando o Imperial College estimava 400 mil mortos em Itália, esta forma de pensar falava, grosseiramente, num máximo de dez mil, provavelmente será mais perto do dobro, mas muito mais perto da realidade que os 400 mil do Imperial College. HPS, Isto não é matemática, 6.04.2020

Não vale a pena insistir na circularidade que alicerçou o raciocínio de HPS durante meses. Nas passagens destacadas a amarelo há um lapso. Mas já se percebeu que HPS não assume os lapsos grosseiros que acumula, o que nem sequer chega a ser grave, é apenas triste. Grave é ver um respeitado arquitecto paisagista e figura da gestão do território, que também opina na imprensa e marca presença na televisão quando o país começa a arder, a enganar os leitores que não se dão ao trabalho de verificar as suas fontes. Grave sobretudo para HPS, entenda-se. Porque que conclusão devo eu tirar quanto ao rigor e competência de HPS nos assuntos que não domino, como a gestão dos territórios agrícolas (fogos, eucalipto, desertificação do interior, etc.), quando sobre uma área que domino mais ou menos (nunca trabalhei em epidemiologia, na verdade) descubro um grau de ignorância e manipulação inadmissível? Isto tem um lado cómico e poderia rematar a conversa usando a mesma boutade de alguém sobre Marcelo Rebelo de Sousa: concordo sempre com ele nos assuntos que não domino (cito de memória). Mas há também um lado trágico, porque o que aqui venho detalhando com uma insistência que muitos acharão "paranóica" ou desproporcionada é um exemplo extremo da erosão da confiança no espaço público. Na sua fuga insustentável, HPS vai ao ponto de redefinir a linguagem, como fez nas respostas ao texto de ontem. E quando é um autoproclamado liberal a refugiar-se num newspeak...  

Que a 6.04.2020, quando já havia mais de 15 mil mortos em Itália e ainda se morria às largas centenas por dia, alguém se lembrasse de defender uma "previsão" de 10 000 mortos para aquele país, é um verdadeiro mistério. Sabemos hoje que o número de mortos é já mais do triplo do valor lançado para o ar a golpe de vista (creio que por André Dias). Como se não bastasse, o valor real correspondente ao excesso de mortes na Itália por COVID-19 e outras causas devido à incapacidade de resposta dos serviços de saúde nos últimos meses poderá ficar por volta dos 50 mil. 10 mil vs. 50 mil. Antecipo a crítica: estou a inflacionar o número de mortos porque o valor inclui aqueles que não estavam infectados com o Sars-Cov-2 e morrreram por falta de assistência médica, o que terá sido um erro de gestão e não um efeito directo do vírus. Errado, estou apenas a dar a comer a André Dias e HPS o pão que andaram a amassar: no mundo paralelo de André Dias, (ouvir a partir de 26' 45'') não houve excesso de mortos, assistimos nas imagens da televisão a um "teatro" ou então a um colapso dos serviços provocado pelo medo (mas sem excesso de mortos). Analisar este material retrospectivamente põe o estômago às voltas pela incompetência, alucinação e assertividade sem qualquer fundamento. Não houve nada de novo aqui, pois já demonstrara como HPS subestimou a gravidade da COVID-19. A novidade é que para denegrir o Imperial College  e se valorizar, HPS provavelmente inventou uma previsão que nunca existiu (1),  distorceu as previsões do Imperial (2) e ocultou informação (3). Neste texto, HPS intensificou o bullshiting para níveis surpreendentes numa pessoa com a sua formação e responsabilidades. Vamos decompor.

(1) A invenção de uma previsão: quando HPS escreveu que a equipa do Imperial College previu 400 mil mortos para Itália, teria sido simpático revelar a  fonte. De que cartola tirou ele este coelhão dos 400 mil mortos na Itália? Procurei nos arquivos do Imperial sobre a COVID-19 e, até  6 Abril, só encontrei dois relatórios potencialmente relevantes, o 9 e o 13. No relatório 9 a Itália praticamente não é mencionada e as simulações são feitas para os EUA e o Reino Unido. No relatório 13 há números sobre a Itália. Considerando o número de mortos até 31 de Março, o modelo do Imperial calculou que, no cenário de confinamento que tinha sido implementado, esse número seria 14,000 [11,000 - 19,000]. O número oficial de mortos na Itália até 31 de Março foi 12 428, bem dentro do intervalo do modelo do Imperial — reconheça-se que o intervalo é amplo, mas foi o que se conseguiu tendo em conta a incerteza, pois no Imperial não há génios com o golpe de vista de um André Dias que viu gaussianas perfeitas em toda a parte. O relatório inclui ainda cenários para o número de mortos nessa data na ausência das medidas farmacológicas: 52,000 [27,000 - 98,000]. 52 mil mortos. Tendo em conta os números que hoje conhecemos (os prováveis 50 mil mortos até agora), será uma previsão assim tão absurda ter previsto 52 mil mortos até 31 de Março se HPS e André Dias dirigissem os destino da Itália, isto é, se os italianos tivessem continuado a viver "como habitualmente"? Mas insisto: onde foi HPs descobrir os  400 mil mortos na Itália? Não vasculhei toda a net e não posso ser taxativo, mas a hipótese mais plausível é que André Dias e/ou o sempre-enviesadamente-crédulo HPS usaram para a Itália a simulação feita para o Reino Unido, que aparece na tabela 4 do relatório 9  (410 000 mortos). Dir-me-ão: Eremita, não sejas picuinhas. Afinal, a Itália e o Reino Unido são países de dimensão parecida. Estaria disposto a aceitar esse eventual lapso inócuo se essa descrição fosse completa. 

(2 e 3) Distorção e ocultação: admitindo que a hipótese que lanço no parágrafo anterior está correcta, HPS não cometeu apenas mais um dos seus lapsos, que sofreram entretanto um upgrade para mentira reiterada sempre que alguém lê o que ele escreveu, pois o homem recusa retractar-se. O que ele fez foi enganar consciente e descaradamente toda a gente. Isto porque até HPS, que não deve ler as fontes primárias, tinha a obrigação de saber que os 410 000 mil eram para o cenário "do nothing" (veio nas notícias), pelo que de forma nenhuma pode ser usado como critério para avaliar a qualidade da simulação a partir de números de uma realidade em que muito foi feito. É verdade que HPS não acredita nas medidas não-farmacológicas, mas isso não lhe dá o direito de reinterpretar uma simulação de quem acredita no efeito das medidas. Só que o caso de HPS ainda se complica mais, porque os tais 410 000 mortos são para uma simulação a 2 anos ("total number of deaths seen in a 2-year period") e não até ao fim de Março, meados de Abril, Maio de 2020 ou até à chegada da radiação ultravioleta, para respeitar as ideias do génio que "previu" 10 000 mortos para a Itália. Chega de disparate? Ainda não: no relatório 9, as simulações incluem, além do cenário "do nothing", outros cenários com grau variado de medidas não-farmacológicas ao longo dos 2 anos. E tendo em conta que, na sua primeira investida no Reino Unido, o Sars-Cov-2 já matou 42 647 pessoas,  é muito curioso reparar que, nas simulações a 2 anos,  o cenário para as medidas mais brandas a estimativa já falhou (5 600-48 000 mortos) o cenário seguinte (6 400 - 71 000 mortos) poderá falhar facilmente, mesmo admitindo a sazonalidade e que o vírus não matará tanto nas próximas duas investidas (ainda dentro do período de 2 anos), e só o terceiro cenário (47 000-120 000 mortos) dá alguma garantia de que o número total de mortos em dois anos estará contido no intervalo de confiança. Por outras palavras, três ou quadro meses bastaram para que os cenários previstos pelo Imperial, que foram gozadíssimos por pessoas como HPS, não parecessem irrealistas. O que levará alguém a esconder toda esta informação e, com uma fanfarronice de ignorância e desonestidade intoleráveis, tentar passar por simulação da realidade a poucos meses o que na verdade é uma simulação a dois anos de um cenário imaginado

Se algum académico escrevesse o que HPS escreveu e não se retractasse à primeira oportunidade, seria motivo de chacota na comunidade científica e provavelmente teria problemas com a entidade empregadora. Mas no mundo inimputável dos blogs de um país sem massa crítica de leitores críticos e dado ao nacional porreirismo, a aldrabice não incomoda assim tanta gente.  

Amanhã escrevo sobre a caricatura que HPS fez dos epidemiologistas e a sua visão da epidemia na China. O primeiro exemplo é um caso de anti-elitismo e o segundo de "conspiracionismo", duas características muito comuns nos negacionistas. Mas o anti-elitismo e "conspiracionismo" de HPS não são genuínos, o que  faz de HPS uma variedade resultante do cruzamento de um negacionista puro com um bullshitter puro.

 

3 comentários

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    Miguel

    23.06.20

    Isto já è demasiada areia para a minha camioneta. Deito a toalha ao chão. Ir até à página do André Dias fazer a genealogia da asneira é assim como emoldurar e pendurar na parede a seuquēncia temporal dos "bugs" na construçãoi de um código. Li a resenha do Hugo P. que o Eremita aqui ligou e diverti-me q.b.

    Essa do ECO foi para mim das melhores. Um dia caí de pára-quedas no postal em que o hps anunciava a publicação de um artigo (que eu presumi científico) em que Dias substanciava as suas extraordinárias asserções contra-corrente. Segui a ligação e, para espanto meu, fui dar com um artigo descosido num qualquer jornal online sem revisão científica nem nada. Percebi que nem valia a pena começar a dar atenção a um espectáculo tão mal amanhado. Mas isso sou eu que sou um ganda snob.

    https://www.youtube.com/watch?v=yFdYZQmQtcs
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    Anónimo

    23.06.20

    E que responsabilidade tenho eu que numa discussão que é social e política vossa excelência presuma que um artigo que pretende discutir as opções sociais e políticas de gestão de uma epidemia seja científico?
    Dito de outra maneira: o que tenho eu com o seu umbigo e a sua ideia de que o seu mundinho é o mundo?
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