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OURIQ

Um diário trasladado

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17
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (2)


Eremita

Bullshitting

HPS não se cansou de martelar nos leitores a ideia de que as medidas não-farmacológicas (extremas) não funcionam e, por isso, para ele mais vale aceitarmos o inevitável (1,2, 3, 4). Não apresentou evidência que sustente esta tese, que parece ser uma convicção entranhada à custa de umas reflexões sem nexo sobre a teoria da evolução e depoimentos de uma mão cheia de cientistas com opiniões heterodoxas. Uma fonte inspiradora de HPS foi um investigador com uma carreira efémera e entretanto retirado (André Dias), que fez uns comentários no Facebook e depois num artigo de jornal e em entrevistas, ganhando algum protagonismo como contrarian. Não o li, mas a fazer fé nesta crítica não terei perdido grande coisa. HPS terá suspendido o juízo crítico porque as teses de André Dias soaram a música celestial para um liberal desejoso de cascar no Estado e davam-lhe alento para prosseguir com a sua fantasia narcísica de paladino da liberdade, iluminado antes do tempo, voz corajosa entre a "carneirada", enfim, uma postura descrita pelo próprio num texto intiulado "Dejá [sic] vu" que, de tão transbordante no deleite e tamanha auto-satisfação desnudada, chega a provocar algum pudor no leitor. A este caldo ideológico e humoral, junte-se ainda uma pitada de estoicismo, assumido ou inconsciente. O culto da inevitabilidade e da capacidade de aceitar a adversidade,  sobretudo na sua versão de estoicismo de sofá e num país que a COVID-19 poupou, é uma manobra reaccionária clássica muito cativante. E terá sido assim que a recapitulação da história em que o rei vai nu mas ninguém diz nada se desenrolou durante meses no Corta-Fitas. Os leitores de HPS procuravam uns shots de indignação, droga viciante que HPS lhes fornecia de bom grado. Maximizar a indignação provocada pela imposição de medidas de confinamento passava por destruir a evidência de que as medidas são eficazes. Ninguém se preocupou em questionar de forma persistente o que HPS escreveu. E quando tentei estragar aquele festim de desinformação, por pouco não me ofereceram pancada.

Há um texto de HPS que gosto de lembrar. Não o faço apenas para o irritar, mas por me parecer que capta na perfeição o estado mental em que ele se encontrava no fim de Março e de onde não chegou nunca a sair, apesar de uma ou outra cedência pontual ao bom senso. Nesse texto, escrito a 30 de Março, HPS prevê o fim da epidemia nos EUA entre 15 e 21 de Abril (de 2020),  previsão que contrasto na imagem seguinte com a realidade em número de mortos (o que me obrigou a acrescentar uns dias à data de 21 de Abril, tendo por base o período médio entre o diagnóstico e a morte por COVID-19).

Screenshot 2020-06-15 at 00.21.54.png

fonte

Quando confrontado com o falhanço estrondoso desta previsão, HPS defendeu-se argumentando que era uma brincadeira pois no texto faz-se passar por Zandiga. Esta sua ressalva é HPS vintage: ele não  mente, dá uma grande tanga ou — no sempre inspirado e sintético português do Brasil — fala merda.  A única virtude da série de textos de HPS sobre epidemiologia é potenciar o prazer que um leitor retirará depois do clássico On Bullshit, de Frank  Harry G. Frankfurt (quem não tem tempo para ler pode ver esta entrevista). Para este filósofo, ao procurar ocultá-la, um mentiroso patológico tem consideração pela verdade; ele é o pólo oposto da pessoa honesta. Mas para um bullshitter a verdade não é um princípio organizador. Ele opera num eixo diferente e a forma como usa ou abusa da verdade é puramente instrumental; a verdade e a mentira não interessam, o importante é atingir um determinado objectivo. Nesse sentido, um bullshitter é mais nocivo para a sociedade do que um mentiroso. HPS tem sido um perfeito e caricatural bullshitter na sua discussão da epidemiologia. E a sua reacção ao embaraço que resolveu inflingir a si próprio é mesmo verborreia da treta. Neste primeiro exemplo, a previsão traduz o pensamento de HPS sobre epidemias e não é simplesmente possível desvalorizá-la a posteriori sem tirar as devidas ilações sobre o valor da teoria em que se baseava. Ignorar a previsão seria reduzir HPS à condição de inimputável — não foi a opção que tomei, embora reconheça que teria sido a mais prática.

A teoria de HPS diz-nos que, na ausência de uma vacina, a capacidade de o homem controlar uma epidemia é limitadíssima, pelo que é inútil embarcar em medidas extremas. Trata-se de um completo disparate. O Ébola e o Zika, para lembrar apenas duas epidemias/surtos mediáticos, foram bem controlados com medidas não-farmacológicas e a quarentena é uma medida extrema com séculos de existência e mérito inegável. Para HPS, o vírus expande-se de forma exponencial numa população e depois abranda, mesmo que nada seja feito para o contrariar. Isto está certo, porque a frequência de encontros de um novo infectado com pessoas ainda não imunizadas pelo agente patogénico diminui ao longo do tempo. Infelizmente para HPS, está certo mas é irrelevante para o período que importa(va) considerar. Com os dados crescentes de serologia da COVID-19 que vão sendo publicados, não se conhece um único caso em que a diminuição do número de novos infectados ao longo do tempo se explique por se estar a chegar ao limiar da imunidade de grupo (nem sequer aquele limiar que 15% que tanto entusiasmou HPS e está longe dos 60-70% consensuais). Nenhum caso. Um bullshitter como HPS poderá talvez argumentar que os testes de serologia têm uma percentagem alta de falsos negativos e a discussão sobre a qualidade dos testes é pertinente, mas não seria sério introduzir esse ruído na conversa tendo em conta o que já se sabe — aliás, seria até ridículo, porque o principal problema dos testes actuais são os falsos positivos, não os falsos negativos (1, 2). Ele poderá ainda lançar confusão dizendo que as percentagens de seropositivos ao nível do país são abstracções enganadoras porque o que conta é a percentagem de seropositivos nos centros urbanos mais atingidos. Se o fizer, será preciso rever outros estudos e esta série não terá sete textos, serão nove. Não antecipo outra crítica, mas reconheço que HPS sabe ser desconcertante. Enfim, na ausência de uma alteração climática óbvia e comum ou outro efeito generalizável, a diminuição da infecção que foi observada na Ásia e Europa só é explicada pelas medidas não-farmacológicas. A forma e o timing da inflexão das curvas de casos e de mortes em cada país é compatível com estas noções elementares. Entre os múltiplos estudos disponíveis, quem ainda tiver alguma dúvida pode ler um artigo recente e muito curto (na Lancet) que parece ter sido escrito tendo em mente pessoas da estirpe de HPS, pois é baseado na evidência e no bom senso, sem recorrer às simulações sofisticadas de que HPS tanto desconfia. A juntar aos dados de seropositivos que referi (C, na imagem), os autores lembram ainda que a mortalidade per capita estabilizou em patamares diferentes (A), o que é incompatível com a intuição de HPS de que o vírus se destruiu a si próprio, e mostram uma correlação forte entre as mortes por milhão até à adopção do confinamento social extremo e nas seis semanas que se seguiram à adopção do confinamento. Os gráficos A e C são simples de perceber, creio. Já o significado da correlação observada em B não é de apreensão imediata. Mas o que nos diz é que os países que aplicaram o lockdown mais cedo (quando  a mortalidade relativa acumulada até então era ainda era baixa) foram também aqueles em que se registaram menos mortes nas semanas após o lockdown. Se na altura do lockdown a imunidade de grupo estivesse já a fazer efeito, escrevem os autores que  não seria de esperar uma correlação entre estes números (a esperar alguma coisa, seria uma correlação negativa), porque o lockdown não tem efeito no limiar da imunidade de grupo e quanto mais tarde se escolhesse o momento em que separamos os dois períodos em análise mais perto estaríamos da imunidade de grupo e menos mortes iríamos observar no segundo período (o que produziria uma correlação negativa). A fortíssima correlação linear (positiva) é incompatível com a hipótese de que a diminuição dos novos infectados se deveu à imunidade de grupo (a teoria de HPS) e é compatível com a expectativa ortodoxa de que o lockdown é mais eficiente a cortar a transmissão da doença e a diminuir as mortes dela resultantes quando posto em prática quando a transmissão ainda é baixa. 

Screenshot 2020-06-17 at 13.28.15.png

 

 

 

 

 

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