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Um diário trasladado

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13
Mai17

O método de Michel Onfray


Eremita

O judaico-cristianismo triunfa não porque é verdade, mas porque é poder armado, coacção policiária, astúcia política, intimidação marcial. (...) A civilização judaico-cristã constrói-se sobre uma ficção: a de um Jesus que não terá jamais tido outra existência senão alegórica, metafórica, simbólica, mitológica. Não existe desta personagem qualquer prova tangível no seu tempo: com efeito, não se conhece qualquer retrato físico dele, nem na História da Arte que lhe seria contemporânea, nem nos textos dos Evangelhos, onde não se encontra qualquer descrição da personagem. (...) Esta ausência de corpo físico real parece prejudicar um exercício racional conduzido de forma correcta. No entanto, é com base neste puro delírio que se vai construir o pensamento ocidental judaico-cristão. (...)

... o ódio dos corpos e da carne, o desprezo das mulheres e da sexualidade, o convite à castidade ou à abstinência, a noção de uma virgem que dá à luz ou a imitação do cadáver do Corpo de Cristo, eis alguns dos padrões do corpo judaico-cristão, infligidos aos ocidentais durante mais de mil anos e que procedem em linha directa do corpo débil e doente de Paulo de Tarso. (...)

Este [Constantino] homem que não hesita em matar e mandar matar, em dizimar a sua família e a sua comitiva, que elimina a sua própria esposa e o seu filho com o pretexto de que eles teriam mantido uma relação obscura, não é nem um intelectual ou um filósofo, nem um poeta ou um pensador; é um senhor da guerra cínico e brutal, uma máquina de matar e destruir tudo o que se coloque no seu caminho. É ele que vai impor o cristianismo ao Império e fazer dessa pequena seita, escolhida pelas suas características para assegurar o seu poder de monarca único sobre o Império, uma religião planetária. (...)

O fascismo protegeu efectivamente o cristianismo contra a ameaça bolchevique. O cristianismo oficial tornou-se assim o companheiro de estrada de todos os fascismos — o primeiro, de Mussolini, mas também os que se seguiram, como o de Franco em Espanha, o de Hitler na Alemanha, o de Pétain em França, e mais tarde o dos coronéis na Grécia, ou os das ditaduras da América do Sul nos anos 70 (...) As tropas soviéticas libertaram Berlim. Hitler suicidou-se no seu bunker a 30 de Abril de 1945. O que faz o Vaticano? Continua a apoiar o regime derrubado. A Igreja nunca teve uma palavra de condenação das atrocidades nacionais-socialistas após a morte do Fuhrer. Mais: tendo-se mostrado incapaz de ajudar um único judeu a escapar à morte programada pelos nazis, ela organiza uma rede que, através dos mosteiros e de passaportes do Vaticano (...), permite aos dignitários nazis abandonar a Europa e assim escapar aos tribunais. Michel Onfray, Décadence (citações de um artigo de Jan Le Bris De Kerne no Público)

 

Como figura mediática omnipresente nos media franceses, Michel Onfray é imbatível. Nunca o vi a perder um debate, a não ter a última palavra, apesar dos muitos inimigos que foi criando. Infelizmente, é pouco conhecido em Portugal e não existe entre nós uma figura equivalente. Tem a seu favor a sua independência dos políticos e da academia ou qualquer outra instituição (recusou a carreira académica e vive essencialmente dos seus livros e do seu mediatismo, sendo também o fundador de uma universidade popular). Ter chegado a tal posição é admirável, mesmo sendo óbvios alguns truques, como o desprezo mil vezes repetido por Paris e os parisiences, que é populismo puro, apesar de ser evidente que os parisiences são mesmo intragáveis.

 

Se a figura mediática me interessa, a obra não me desperta a menor curiosidade. Michel tem um "método", que enuncia com o orgulho de quem descobriu um erro numa equação de Einstein: ler toda a obra e ler a biografia das figuras que estuda. Para Onfray, isto é um método; não admira que seja desprezado por muitos filósofos de carreira (seguramente com a sua parte de inveja). Michel é também de uma prolixidade altamente suspeita. Há uns anos, tinha publicado mais de 80 livros - entretanto perdi-lhes a conta.  Só há quatro explicações para os casos de prolixidade extrema: 1) génio e capacidade de trabalho; 2) ausência de rigor; 3) longas sínteses de trabalhos alheios; 4) fraude assente no trabalho de nègres. Podemos descartar a quarta hipótese, pois Onfray é famoso há demasiados anos para que um segredo desses não tivesse já dado em escândalo. Sobre as restantes três hipóteses, são esclarecedores os casos em que Onfray se insurge contra as grandes figuras da cultura universal ou ociental, nomeadamente, Freud e Jesus (por desconhecimento de causa, excluo os ataques a figuras de âmbito mais regional, como Sartre). Não li os livros, mas a julgar pelas citações e pelas várias polémicas a que assisti, Onfray é um panfletista que se limita a regurgitar bibliografia. Tudo o que nas passagens citadas escreve sobre Jesus, o cristianismo e o catolicismo já foi escrito por outros há muito tempo e muitas vezes. Se para alguns soa a novidade, é porque o catolicismo continua a ser hegemónico. Mas aqui fica, com alguma pertinência; porque, por comparação,  canonizar pastorinhos é peanuts

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