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27
Ago17

O "imbecil colectivo"


Eremita

Para a blogger Cristina Miranda, vivemos sob uma “Sharia Ocidental” e, segundo o cronista João Miguel Tavares, existe hoje "uma vigilância que já não se via desde os tempos da Inquisição”; o historiador Rui Ramos diz que caminhamos para uma "Bizâncio antes da conquista muçulmana" e a cronista Inês Teotónio Pereira insinua que quem luta contra a existência de brinquedos para meninas e meninos não se incomoda por aí além com a mutilação genital feminina; o politicamente correcto deixa a jornalista Helena Matos num estado de sobressalto permanente incompatível com a longevidade e, para o sociólogo Alberto Gonçalves, o Index Librorum Prohibitorum acaba de ser actualizado. Esta lista paritária ilustra o nível a que chegou a retórica dos combates verbais em torno da liberdade de expressão. A susceptibilidade libertária dos cronistas do imbecil colectivo* cujo núcleo duro é o Observador está ao nível da dos grupos minoritários que critica, gerando muito ruído, importando polémicas sem eco na nossa sociedade, abusando da hipérbole nos seus sermões para convertidos e fazendo amálgamas que inquinam a discussão, como se posts patetas no Facebook a criticar de um verso de Chico Buarque tivessem a relevância de uma "recomendação" - tão hipócrita como o mafioso "I'll make him an offer he can't refuse" **- da Comissão para a igualdade de Género para que uns manuais de exercícios fossem retirados do mercado. Esta malta ainda não percebeu que é parte do problema que critica ou então não se importa, sendo qualquer uma das hipóteses fascinante. 

 

* Uma expressão do brasileiro Olavo de Carvalho, originalmente aplicada para descrever o pensamento de esquerda "politicamente correcto". A expressão é o título de uma colectânea de textos do autor, alguns subllimes, apesar do tom reaccionário. Existe um pdf do livro gratuito, é só procurar.  

 

** Adenda: Breaking News! A Porto Editora não encarou a recomendação como uma simples recomendação e, como se esperava, o Ministério da Educação diz agora que a decisão de retirar os materiais do mercado é da "exclusiva responsabilidade da editora".  O que surpreende é a Porto Editora estar agora a apostar no papel de vítima da liberdade de expressão, como se houvesse uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. 

 

 

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