O homem sem imaginação
Eremita
Uma das desilusões de infância e juventude que se mantém, depois de muitas outras terem sido ultrapassadas, fosse pela simples passagem do tempo, alguma epifania ou psicoterapia, é a de que sou uma pessoa sem imaginação. Na instrução primária, cada um dos meus coleguinhas pintou o guarda-chuva por colorir com cores garridas e padrões divertidos, mas o meu ficou preto e com o cabo castanho; a dona Natividade não gostou. No liceu, a professora de português elogiou as composições de duas colegas e leu em voz alta uma passagem da minha composição, mas como prémio de consolação, pois a palma do rasgo criativo foi dado apenas às minhas rivais. Nem sequer nos poucos sonhos de que me lembrava encontrei a exuberância barroca dos sonhos que me contavam; todos me pareciam banais e caricaturalmente freudianos, como o sonho em que num jogo de futebol de praia, perseguindo ambos a bola chutada para o mar, o adversário que ganhara vantagem de repente se vira para mim com um falo de um metro erecto. Enfim, para me proteger, provava a mim próprio que era imaginativo, por conseguir transformar as faias que via do meu quarto em foguetões que se libertavam do chão e subiam em direcção ao céu com as raízes flamejantes. Sempre que surgia a dúvida, pensava na mesma imagem das faias estratosféricas, não me ocorrendo sequer que uma pessoa imaginativa seria capaz de apresentar novas provas de imaginação sempre que a dúvida surgisse. De tão gasta, a prova de que tinha imaginação era a demonstração definitiva da minha incapacidade criativa. O resto da vida foi decorrendo sem sinais de imaginação acima da média: não me fiz artista, não assinei patentes, não criei um estilo original de vida, de falar, vestir ou pentear ou cabelo. Convencido e conformado com a falta de imaginação, cheguei a pensar em actos trágicos, num crescendo que foi da ideação dos cortes no antebraço à de me tornar crítico de profissão. [continua]
