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Um diário trasladado

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20
Abr20

Um génio no Corta-Fitas


Eremita

Henrique Pereira Santos (HPS) tem vindo a escrever uma longa série de textos em que desvaloriza o perigo que o SARS-CoV-2 representa. Apesar de andar nos blogs há quase duas décadas e de já ter discutido temas que dão para a maluquice, como o aborto, as medicinas alternativas e José Sócrates, não me lembro de ver uma combinação tão desesperante de bazófia, ignorância, manipulação grosseira de dados, precipitação na análise e negacionismo. HPS despreza os modelos dos epidemiologistas, que trata abaixo de economista circa 2008-2010, mas não percebe nada de epidemiologia, o que não o impediu de se apresentar como um iluminado que tem razão antes do tempo, indo buscar a citação do costume de Einstein (sempre a mesma, esta gente não inova). Infelizmente, é muito difícil dar com o seu génio, pois ele não entende a imunidade de grupo e soma o número de mortes da pneumonia e gripe para mostrar que a COVID-19 mata menos do que a gripe. Há muitos anos que os vírus alimentam discussões sobre o que é um ser vivo, mas HPS sobe a discussão de nível. Para ele, os vírus são entidades místicas que desaparecem das populações sem se saber como, formando aquelas curvas gaussianas de simetria quase perfeita que caracterizam os picos de gripe. Outra das teses bizarras de HPS é a de que o isolamento social e o rastreamento não têm qualquer efeito na progressão de uma doença infecciosa. As diferentes curvas de cada país seriam o resultado da evolução natural da doença. Perante o peso da evidência contrária a esta tese absurda, HPS recuou um pouco e passou a "admitir" algum achatamento das curvas devido às medidas postas em prática, mas o seu egocentrismo não lhe permite assumir claramente os erros, pelo que continua a insistir na sua tese. O exemplo mais recente é esta citação:

Sendo agora bastante sólida a ideia de que a infecção se espalha mais, mais rapidamente e de forma mais silenciosa do que pensamos, é MAIS que EVIDENTE  que o MITO [destaques meus] do controlo da infecção pela ditadura chinesa através da sua mão-de-ferro é mesmo apenas isso, um mito. HPS

A China teve um comportamento criminoso pelo modo como escondeu a doença. É muito provável que os números de mortos que apresenta estejam subestimados. Segundo a Radio Free Asia, terão morrido em Wuhan 46800 pessoas e não 2500 (o valor oficial foi entretanto actualizado e corrigido para 3869). Mas HPS não se refere a esta possibilidade, nem podia, porque isso seria reconhecer que a COVID-19 não matou já 165 mil, mas 200 mil em todo o mundo. A sua tese é a de que nem as medidas draconianas de uma autocracia ultra-eficiente como a China chegariam para parar um vírus que se "espalha mais, mais rapidamente e de forma mais silenciosa do que pensamos". Esta combinação de certeza com ausência de evidência é assustadora. E os aplausos que HPS recebe dos seus fãs são uma demonstração da iliteracia científica da pátria.

Para HPS, o vírus desapareceu da China por artes mágicas. Nos EUA, um país com 327 milhões de habitantes e separado da China por dois continentes e dois oceanos, morreram 40 mil pessoas de COVID-19. Na China, um país com quase 1,4 bilhões de habitantes e onde o SARS-CoV-2 surgiu, o vírus matou o mesmo número de pessoas (ou menos). Como desapareceu tão depressa da China? Será porque os Chineses têm polimorfismos protectores no ACE2, o receptor que o vírus usa para entrar nas nossas células? Será das propriedades profilácticas do arroz ainda por descobrir? Será por causa da poluição atmosférica? Será que o vírus desapareceu entretanto porque se terá cansado?

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