Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

13
Mar17

O fim dos homens


Eremita

Screen Shot 2017-03-12 at 12.44.03.png

 

 

Em 1894, o famoso físico Albert Michelson concluiu que a Física esgotara as grandes descobertas que havia a fazer, nada mais restando à disciplina do que a tarefa de acrescentar casas decimais às constantes conhecidas; em pouco mais de uma década, o mundo conheceria o génio de Einstein e depois a revolução da Física Quântica. Também se pensou que a rádio iria matar o romance, mas o romance sobreviveu e tem tido uma curiosa carreira de serial victim, pois, a seguir à rádio, acumulou como carrascos a televisão e o digital, persistindo ainda por aí, dando inclusive a José Rodrigues dos Santos uma oportunidade de fazer fortuna e a Gonçalo M. Tavares um invejável capital social. E em 1989, embriagado com o fim da Guerra Fria, Francis Fukuyama decretou o fim da História, no sentido em que nenhuma forma de organização política iria superar as democracias liberais em sociedades capitalistas, mas a mais recente crise financeira e os movimentos populistas na Europa parecem minar o sistema por dentro e, em todo o caso, o mundo continua animado e imprevisível. Aliás, a dar crédito a algum dos profetas do apocalipse, dos Maias a Nostradamus, sem esquecer Pedro Passos Coelho, a simples existência do mundo causa algum desconcerto. Decretar o fim de algo é um exercício de poder ao alcance de todos a que ninguém resiste, apesar da lição da História, que, por uma vez, é inequívoca.

 

Esta semana, no Público, ainda na esteira do dia internacional da mulher celebrado a 7 de Março, António Guerreiro (AG) entendeu escrever sobre o fim dos homens. Este tópico não é novo, mas pensava que tinha já amadurecido o suficiente para não ser ilustrado com a cena de canibalismo conjugal pós-copulatório em que a fêmea de Louva-a-deus devora o macho que a fecundou ou algum cenário distópico à Doris Lessing em que as mulheres descobrem uma forma de induzir a partenogénese e nascimentos de apenas de meninas, livrando-se para sempre do seu opressor milenar. AG não chega a tais extremos, mas fica perto, ao transformar em profeta Valerie Solanas, uma feminista radical. Quando um homem disserta sobre o fim dos homens, ao gozo de decretar óbitos junta o prazer da autodepreciação. É irresistível, reconheço. 

 

Com a possível excepção da regulação do poder parental, nas sociedades ocidentais os homens não são vítimas de nenhuma discriminação injusta. Naturalmente, os factos não impedem o nascimento de movimentos e opiniões de que estamos a caminhar para uma "feminização" da sociedade. Que esta ideia faça as delícias de polemistas como os franceses Alain Soral e Éric Zemmour e ainda de Pedro Arroja e dos seus acólitos, não surpreende. É mais estranho vermos AG a pegar no tema, mesmo sendo o seu tom lacónico e nada panfletista, nem atribuindo ele à "feminização" da sociedade a carga pejorativa dos outros autores, limitando-se a uma constatação. O problema de AG neste exercício de estilo sobre o fim dos homens é ter partido do princípio de que os seus leitores o interpretariam com a dose de ironia e ligeireza necessárias.  

 

 Continua. Lenha para rachar e trabalhos no sistema de irrigação da horta adiam a conclusão desta intervenção.

2 comentários

Comentar post

Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    Eremita, pá!, olha que o outro gajo que profetizo...

  • José Quintas

    Na expectativa do episódio seguinte, adorei a ress...

  • marina

    não consigo saber se a maria adelaide tem irmãos ,...

  • marina

    percebi, mas como disse que é dinheiro herdado não...

  • Anónimo

    Não esqueça e anda muita gente esquecida que quem ...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D