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Um diário trasladado

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22
Set16

O desafio de Álvaro Laborinho Lúcio


Eremita

19877042_C2M5b.jpegAcabo de receber o vídeo do lançamento do segundo romance de Álvaro Laborinho Lúcio (ALL), enviado pelo moço de recados, em mais uma missão especial à capital. Ao evento compareceu a fina flor da magistratura, nomeadamente a Dra. Francisca Van Dunem, ministra da Justiça, a Conselheira Joana Marques Vidal, Procuradora-Geral da República e o Juiz Conselheiro António Gaspar, presidente do Supremo Tribunal  (creio que a enumeração não respeita o protocolo, mas sou um cavalheiro), bem como outras destacadas figuras da sociedade, como o ex-presidente General Ramalho Eanes e - salvo erro (o vídeo apenas mostra a sua nuca) - o Juiz Conselheiro Ireneu Cabral Barreto, actual Representante da República para a Região Autónoma da Madeira. Presentes estiveram também alguns escritores da nossa praça, como Francisco José Viegas, na qualidade de editor da Quetzal, e Mário de Carvalho, a quem coube a tarefa de apresentar o livro a uma assistência que lotou o salão dos espelhos da Casa do Alentejo. Foi ontem ao fim da tarde. 

 

Mário de Carvalho cumpriu o seu papel. Leu um texto em que elogia o autor e o livro, sobre o qual mostrou ter reflectido. Falou depois ALL. Friso que ALL, além de destacada figura na área da justiça e da cidadania, é provavelmente o nosso melhor orador vivo - e só discordará quem nunca o ouviu falar. Aliás, se refiro apenas os oradores vivos, não é para excluir os grandes tribunos do século XIX, pois estou seguro de que estes não fariam sombra a ALL, mas para deixar de fora o editor Vítor Silva Tavares, recentemente falecido, e apenas porque uma comparação entre a oratória destas duas personalidades nos distrairia. Porque o que interessa confrontar é a oratória de ALL com a sua escrita. Para as pessoas comuns, escrever permite-lhes alcançar um brilho que não atingem quando falam, como se a lentidão da escrita e o rasto que deixa e se pode voltar a percorrer inúmeras vezes permitisse a expressão de uma inteligência mais profunda, esforçada e vigilante, que na oralidade tende a não comparecer e, quando se manifesta, só atrapalha. Ora, no caso dos grandes oradores, importa saber se o acto de escrita tem sobre eles o mesmo efeito transformador que exerce sobre o pensamento do homem comum, pois fica a impressão de que a oralidade destes sobredotados é animada por uma inteligência que não pode ser superada. A dúvida saiu reforçada pelo contraste entre a leitura de Mário de Carvalho, o escritor firmado, e o improviso planeado de ALL, o debutante, pois a eloquência deste reduziu as páginas de Mário de Carvalho a uma mera redacção de bom aluno.

 

A oratória de ALL tem como traço distintivo o longo raciocínio encadeado que, operando até ao limite da capacidade de apreensão do ouvinte, é sempre resolvido no momento certo, produzindo grande efeito, seja uma graça ou outra iluminação. E mesmo quando se socorre de bordões batidos, como o "tenho um grande futuro atrás de mim", ou do aviso costumeiro de que os agradecimentos, parecendo ser de circunstância, são sinceros, ALL consegue uma originalidade e um apuro estético insuperáveis. À forma e conteúdo, ALL alia um tom absolutamente encantatório. Tudo parece ajudar: os finos traços do rosto de homem nobre, o porte, a voz segura mas intimista, as pausas e os ritmos variados com que se vai expressando. Quando alguém diz "para todos vós e para cada um", há quem no meio da multidão se sinta momentaneamente especial. Mas quando, vários minutos depois de ter começado a sua intervenção, ALL disse também "para todos vós e para cada um", muitos se recompuseram na cadeira, subitamente alertados pelo "todos vós" de que havia mais gente na sala e seria impróprio persistir no estado de relaxamento corporal e sorriso beatífico que caracteriza os seres maravilhados. Por fim, mostrando saber que qualquer bom discurso deve ter humor e emoção, ALL cativa-nos com a sua honestidade, a generosidade reiterada e, sobretudo, o seu desejo, puro e ardente, quase como se um adolescente falasse, de um dia ser reconhecido como escritor, não por capricho de fama, antes por devoção à escrita, que não é passatempo de reformado, mas o ofício de quem depois dos setenta anos resolveu construir uma segunda carreira.  

 

Ainda não li O Homem Que Escrevia Azulejos, mas o livro galgou já vários lugares na lista dos volumes que conto ler, mesmo contendo um verbo no título (estatisticamente, um mau presságio) e, a julgar pelas duas primeiras páginas, a prosa ser animada por uma hiperconsciencialização do acto de escrever, havendo o risco de descambar em pós-modernices. Enfim, em defesa do autor, também Cervantes fez dessas experiências e Dostoiévski, n'Os Irmãos Karamásov, começa por mencionar os "críticos [literários] russos". Importa, isso sim, esclarecer a dúvida que apresentei. O risco, para o leitor, parece ser pequeno. Se se superar na oralidade quando escreve, ALL terá feito uma obra-prima. E se não se ultrapassar, o veredicto fica em aberto. Afinal, diz-se que Stendhal ditou A Cartuxa de Parma e não se saiu nada mal

 

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