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Um diário trasladado

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24
Mai19

O Adónis da Bavária (18)


Eremita

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A aversão que tive por marcas chegou ao ponto de arrancar as etiquetas da roupa, um acto com uma ideologia subjacente e conscientemente estúpido. Um único nome resistiu a tal purga: Adidas. Ainda hoje é a única marca desportiva que me atrai. Era costume imaginar uma fábrica imensa da Adidas na Europa central, a regurgitar chuteiras e ténis Nastase 24 horas por dia. Os meus operários tinham a fisionomia e o arcaboiço bem torneado que via nos murais, mas não eram torneiros mecânicos da Lisnave nem gente da Marinha Grande; não sopravam o vidro, enchiam bolas de futebol. Muitas vezes sonhei que espreitava a fábrica do cimo de uma colina, ponto alto de uma aventura pela Europa a cravar boleia a camionistas e a enfiar-me dentro de carruagens de mercadorias. Consigo hoje imaginar sem dificuldade formas mais estimulantes de um miúdo gozar a clandestinidade na Europa Central. Em minha defesa, só posso lembrar que não escolhemos os sonhos. De resto, não falo de uma idiossincrasia. O fascínio pela Adidas era epidémico. Um colega tinha uns Nastase perpetuamente imaculados e pregava longos sermões em quem tivesse estado perto de os sujar. Este rapaz falava com os ténis e dera-lhes não sei se um ou se dois nomes próprios. Conheço uma mão-cheia de outros casos a roçar a demência.

 


Pensar na Adidas comporta alguns riscos, como se alguém tivesse indexado uma série de recordações a esta palavra, sem discriminar entre as que são delicadas e aquelas perfeitamente inócuas. Fico agora a pensar nuns calções da Adidas azuis-escuros com riscas brancas. Foi no Verão, fazia um calor insuportável e jogávamos à bola na praia mas longe do mar. O tipo dos calções era alemão. Sem que pudesse perceber o que estava a acontecer, de repente pareceu-me tratar-se de um belo rapaz. Gostei de o ver com os calções, fixei-lhe as coxas bronzeadas, quase não mais olhei para os outros. Temendo que notassem o meu interesse, optei logo por abandonar a partida, inventando uma desculpa qualquer. O episódio perturbou-me. Ainda não tinha currículo sexual, provas dadas. Assumia-me como heterossexual, claro, gostava de raparigas, mas talvez como se gosta de bichos exóticos; do Mico Leão, por exemplo. Não havia propriamente tensão erótica. Era ainda um miúdo quando o Adónis da Bavária apareceu a estragar-me as férias grandes. No regresso à escola vinha com a atenção redobrada e muita apreensão. Por sorte, era tradição começarmos o ano lectivo logo com uma peladinha depois das aulas. A entrar pelo meu corredor surgiu então um tipo com os mesmo calções azuis da Adidas, um ar também germânico, forte e loiro, arianíssimo mas ainda bronzeado da praia. Só podia ser um teste, mas não comentei a coincidência por falta de cúmplice. No momento capital envolvemo-nos numa disputa de bola em corrida e caímos um sobre o outro. Nos instantes de lucidez que se seguiram senti-me cientista e cobaia partilhando o mesmo corpo. Apressei-me a registar mentalmente todas as impressões daquele contacto físico: uma dor lombar, um insuportável cheiro a suor masculino, uma total falta de delicadeza, um desconforto geral, mas apenas físico. No resto, só indiferença. Sorri de contentamento quando ele ainda estava por cima de mim. O rapaz estranhou e levantou-se logo, a marcar-me com o sobrolho carregado. E eu a sorrir, sempre a sorrir. A minha orientação sexual resolveu-se naquela tarde. O que fazer com as recordações que envelhecem mal, como este alívio, hoje datado?  Sou pela inviolabilidade da memória. Daí a uns meses a Cristina entraria na minha vida e começaria a sofrer do desgosto de amor. 

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