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OURIQ

Um diário trasladado

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24
Jun17

Não perder esta oportunidade


Eremita

A empatia e a capacidade de mobilização decaem com a distância física a que a tragédia ocorre e o seu espraiamento no tempo, o número de repetições, o grau de inevitabilidade e a nossa dissemelhança com as vítimas, obedecendo a uma fórmula matemática que podemos não saber deduzir, mas intuímos. Reformulando em lei: quanto mais próxima (no espaço e na História), rara, aguda e evitável a tragédia, maior o seu impacto psicológico. Há razões para que assim seja, incluindo o tribalismo ancestral, que não tem boa imprensa, mas alguém que sinta a morte de um chinês da China como a de um amigo de infância ou que, por suposto respeito pelos milhares que morrem de "doença prolongada", reprima a comoção ao saber de uma catástrofe repentina que vitimou dezenas de pessoas, estará a deixar-se trair pela sua razão e a perder humanidade, sem que se perceba o que ganhou em troca. Isto é óbvio, mas não impediu que António Guerreiro escrevesse um texto informado a lembrar que "a biopolítica das catástrofes é reactiva e funciona à medida do que acontece em tempos curtos", para contrastar a comoção e aparente reacção à fulminante tragédia de Pedrógão Grande com a baixíssima prioridade que damos à lenta desertificação do Alentejo. Também o Xilre se sentiu tentado a fazer um exercício de relativização, chamando a atenção para outras mortes, pois "entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers". O exemplo escolhido é infeliz, sendo a principal conclusão que retiramos dos dados da Pordata a grande diminuição do número de mortos na estrada nas últimas três décadas, o que, curiosamente, serviu para que Rui Tavares destilasse alguns ensinamentos para nos livrarmos dos incêndios. Adiante, porque o mais desconcertante nas reflexões de António Guerreiro e Xilre é ambos mostrarem que conhecem a lei do decaimento da empatia e mobilização, mas ainda assim se revoltarem contra ela, como se fosse possível e vantajoso descartá-la. Não é. E não vejo grande vantagem em criticar-se a biopolítica das catástrofes neste momento.

 

A morte de 64 pessoas num incêndio rural é uma tragédia e - muito provavelmente - uma vergonha para o Estado. Estamos perante uma oportunidade rara para mudar a política de prevenção de incêndios, o ordenamento do território e eventualmente a estrutura da propriedade rural. Do que precisamos agora é de uma estratégia para que não se legisle à pressa só para mostrar trabalho, mas sem que se perca também momentum. É preciso muito talento político para encontrar a justa medida numa altura em que todos exigem o apuramento de responsabilidades e uma urgência incompatível com a resolução do problema, que mesmo no melhor dos cenários será lenta e gradual. De resto, não há grande razão para optimismos. Nos EUA, um país politicamente mais evoluído do que Portugal, nem o terrível tiroteio na Sandy Hook Elementary School, em plena governação Obama, fez com que fosse criada legislação para restringir o porte de arma. Mas são também muitos os exemplos por esse mundo fora de legislação e regulamentos, sobretudo na área da segurança, feitos em resposta a catástrofes que se revelaram escolhas sensatas. 

2 comentários

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    caramelo

    25.06.17

    Caro xilre, caro ouriquense, já saiu uma explicação do comando da GNR sobre o que aconteceu na EN 236. Em suma, morreu gente naquela estrada porque ninguém previu aquelas circunstâncias excepcionais e, muito mais do que isso, eram imprevisíveis. Isso foi já esclarecido. Curiosamente, isso tem sido ignorado de forma geral, ora pela imprensa, ora pela "rede". Ou porque não interessa ou porque, como é sabido, explicações da cadeia de comando são, por definição e natureza, suspeitas (somos todos afetivamente anarco-liberais). Claro que isto apenas se resolve com uma catarse colectiva provocada pela expiação dos agentes da GNR que estavam ali, com penas longas de prisão. Porque, obviamente, perante uma tragédia desta dimensão, não bastaria uma responsabilização politica de ministros, não é?
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